Macron diz-se orgulhoso por ter ajudado a Uber quando era ministro

13 de julho 2022 - 13:32

Apanhado nos documentos do Uber Files, o atual presidente francês diz que "voltaria a fazer o mesmo amanhã e depois de amanhã". Deputados da esquerda defendem comissão parlamentar de inquérito.

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Emmanuel Macron. Foto União Europeia.

A fuga de informação Uber Files revelou no fim de semana a estratégia da empresa para irromper nos mercados de transporte de passageiros em vários países, desrespeitando as leis locais e usando a seu favor a violência de que os seus motoristas eram alvo por parte dos taxistas que se queixavam de concorrência desleal.

Uma das descobertas mais importantes foi a de perceber o papel de Emmanuel Macron, então ministro da Economia durante a presidência de François Hollande, para acomodar os desejos da Uber se implantar em França, desenhando legislação à sua medida. Entre as comunicações agora divulgadas, estão as provas de 17 encontros de Macron o então líder da Uber, Tracy Kalanick, todas sem registo na agenda oficial do governante, e mais de 50 contactos no sentido de levantar obstáculos regulatórios ou bloquear infestigações do fisco e da justiça sobre a empresa.

Confrontado com as revelações, o Presidente que no início do primeiro mandato dizia querer fazer da França uma "nação start-up", afirmou-se orgulhoso do seu papel para favorecer a entrada da Uber no mercado francês. "Eu era ministro. E enquanto ministro fiz o meu trabalho. Já vimos demasiado este ambiente em que encontrar-me com os patrões das empresas, sobretudo estrangeiros, parece mal. Eu assumo-o completamente. Foi sempre oficial, acompanhado de colaboradores. Estou orgulhoso. Se eles criaram empregos em França, fico hiper-orgulhoso disso. E sabem que mais? Voltaria a fazê-lo amanhã e depois de amanhã", afirmou Macron aos jornalistas, citado pelo Mediapart.

NUPES quer comissão de inquérito

Quem não está convencida com esta resposta é a oposição de esquerda, com os partidos que compõem a NUPES a anunciarem o pedido de uma comissão parlamentar de inquérito. Caso o pedido seja chumbado, prometem usar do seu direito potestativo a criar uma comissão de inquérito por ano, que só poderá ser exercido no regresso da sessão parlamentar após o verão.

Nos documentos do Uber Files fica bem patente o fascínio de Macron em relação ao fundador da Uber, com quem se compara por serem ambos jovens - então com menos de 40 anos - e com a ambição de mudar o mundo com um modelo "disruptivo", o que no caso da Uber é sinónimo de arrasar os direitos laborais por onde passa, ao tornar os seus trabalhadores em prestadores de serviços sobre os quais não tem nenhuma responsabilidade.

Hollande diz que não sabia de nenhum acordo por detrás das cortinas

Esta visão do capitalismo financeiro que se mistura com o solucionismo tecnológico  foi a imagem de marca do relatório Attali e da lei apresentada em 2016 pelo então ministro, que em nome do "crescimento, atividade e igualdade de oportunidades económicas" incluía medidas que iam da abertura do comércio ao domingo até à desregulamentação de várias profissões. Os Uber Files mostram como a empresa fornecia emendas legislativas "chave na mão" a alguns deputados para as introduzirem no debate e como Macron teve um papel determinante em fazer valer o ponto de vista da empresa.

Aparentemente, Macron agia à revelia dos restantes membros do executivo e do próprio Presidente Hollande, com quem trabalhou enquanto secretário-geral adjunto do Eliseu antes de entrar para o Governo e já nessa altura mantinha uma relação estreita com a Uber. Em 2014, enquanto ministro da Economia, Indústria e Assuntos Digitais, Macron promete à Uber simplificar as condições para obter uma licença, na sequência da proibição do seviço UberPop, em que qualquer pessoa podia assumir a profissão de motorista. Agora, Hollande diz nunca ter tido conhecimento de qualquer acordo por detrás das cortinas entre Macron e a empresa.

"Esta conivência com o meio digital foi um dos nossos conflitos no Ministério"

Também os seus ex-colegas do governo liderado por Manuel Valls entre 2014 e 2016 se distanciam da atuação de Macron. Na Secretaria de Estado do Orçamento estava Christian Eckert, que lembra que já na altura denunciara a conivência entre Macron e o setor das plataformas como a Uber. "Parece que toda a gente está a descobrir a Lua, mas o que foi revelado ontem já estava em grande medida no meu livro", diz Eckert à France3, referindo-se  ao livro que lançou em 2018 com o título "Um ministro não devia dizer isso". Aí Eckert faz um retrato do ministro Macron e da forma como este tentava bloquear a taxação e mesmo qualquer regulação para a indústria das plataformas e gigantes informáticos, concluindo que "esta conivência com o meio digital foi um dos nossos conflitos no Ministério".

José Soeiro
José Soeiro

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"Claro que era necessário cultivar contactos no Ministério com o meio dos negócios mas com Macron esses contactos eram regulares e amistosos", prossegue Eckert, acrescentando que "era preciso meter na ordem esse sistema das plataformas, o que Macron e as suas equipas adiavam sempre. Somos coletivamente responsáveis por termos deixado instalar essas práticas 'borderline'", conclui.

Lóbi da Uber junto do Governo mantém-se nos dias de hoje, acusa ex-governante

Outro testemunho dos últimos dias é o do antigo Secretário de Estado do Comércio Externo e ex-deputado socialista Thomas Thévenoud. Ele foi o autor da lei de 2014 que regulava a coabitação entre os táxis e os TVDE (VTC em França) e considera que Macron agia "como uma espécie de intermediário ou lobista para uma empresa americana que tinha decidido fazer da conquista do mercado francês a sua prioridade". Thévenoud diz à FranceInfo que o beneplácito de Macron face à Uber começou ainda no Eliseu no meio da crise entre taxistas e motoristas da Uber, um conflito que o Secretário de Estado mediava. E conta que no seu primeiro encontro com Macron, em março de 2014, antes de integrarem o executivo de Valls, o atual Presidente argumentava que os táxis eram obsoletos e que era preciso deixar a Uber crescer em França para criar muitos empregos, enquanto Thévenoud replicava que o Governo pretendia modernizar o setor do táxi e que era preciso impor regras à Uber, nomeadamente proibir o serviço UberPop.

O ex-governante vai mais longe e diz que este não é um caso apenas do passado e que a Uber continua a sua ação de lóbi junto do Governo hoje em dia. E aponta o dedo à atual primeira-ministra Elisabeth Borne, que era ministra dos Transportes  em 2018 quando apresentou a lei de bases da mobilidade, que inclui um artigo "que protege a Uber sob a forma de uma carta de responsabilidade social. A Uber edita uma carta, faz os motoristas assinarem-na e em troca não pode haver processos contra a Uber", diz Thévenoud. Este ano, o governo promoveu uma tentativa de diálogo social no setor das plataformas que previa a eleição de representantes dos motoristas e dos estafetas. "Foi um fiasco total porque a participação foi de 1,6% dos motoristas. Quem era a ministra do Trabalho? Elisabeth Borne", aponta o ex-governante, concluindo que ela está muito por dentro de tudo o que se passa nesta matéria.

Uber financia estudos feitos pelo economista que foi Secretário de Estado de Macron para o Digital

As revelações dos Uber Files concentraram atenções no antigo Secretário de Estado do Digital sob tutela do ministro Macron, o economista liberal Nicolas Bouzou, presença assídua em palcos mediáticos. Além da sua defesa acérrima da atuação de Macron e de não ver nada repreensível nos factos agora divulgados, Bouzou teve também de responder a quem o criticou por ser financiado pela Uber, dado que a multinacional lhe tem encomendado vários estudos económicos acerca do seu contributo para a economia francesa.

No Twitter, Bouzou respondeu que os trabalhos da sua empresa de estudos são transparentes quanto aos financiadores e totalmente independentes deles.