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Lutar num país confinado

Dias depois do 25 de Abril, num passeio pelos arredores da última casa clandestina onde vivi, deparei-me com os muros altos, brancos e frios da prisão de Caxias. Mal podia imaginar que tinha estado clandestino a pouco mais de um quilómetro de um dos mais sinistros cárceres da ditadura. Por Alberto Matos.

 

 

O esquerda.net tem publicado um testemunho por dia de resistentes antifascistas sobre o seu quotidiano na prisão e/ou na clandestinidade e as estratégias que encontraram para combater o isolamento.

Todos os testemunhos publicados até ao momento estão reunidos aqui:

Confinamento(s) em tempo de ditadura

Projeto organizado por Mariana Carneiro.


Lutar num país confinado

O dia 17 de Outubro de 1972 nasceu alucinante, no prolongamento dos cinco dias e cinco noites mal dormidas desde o assassinato pela PIDE do estudante José António Ribeiro Santos, a 12 de Outubro, num anfiteatro de Económicas (atual ISEG). O ponto alto fora o funeral, na tarde de sábado, depois de a polícia ter arrancado à força a urna que familiares, camaradas e amigos queriam levar aos ombros até ao cemitério da Ajuda.

Durante horas, pedras da calçada voaram – “sous les pavés, la plage…” – contra tudo o que tivesse os tons de azul e cinzento da polícia, a pé ou nos famosos “níveas” e carrinhas da polícia de choque. Olhando para trás, não tenho dúvida de que naquele dia o povo de Lisboa perdeu o medo, como lembrei no artigo Há 40 anos a PIDE assassinou Ribeiro Santos, mas o povo perdeu o medo!.

Nem ao domingo as manifestações acalmaram. Na noite de segunda-feira, 16 de Outubro, reuniu no Hospital de Santa Maria uma RIA extraordinária. Ao fim de horas de acesa discussão, aprovámos o Manifesto à População com um título simples e contundente: VINGAREMOS RIBEIRO SANTOS!

Na vertigem da luta em crescendo, mal sabíamos o que a PIDE reservara para essa madrugada. Emprestei o meu velho Fiat 850 ao Pedro Ferraz de Abreu, de Ciências, que me deixou à porta de casa à 1 da manhã. Curiosamente, ambos escapámos às prisões que a PIDE desencadeou, pelas 7 horas de 17 de Outubro: o Pedro não dormiu em casa e foi avisado pelo piquete de estudantes postado à entrada da sua rua; eu safei-me porque a PIDE só me bateu à porta às 11 da manhã…

Vale a pena explicar: a matrícula em qualquer faculdade implicava o preenchimento de diversos formulários; por último surgia “mais um papel” castanho e redundante, batizado pela malta como “a ficha da PIDE”. Na dúvida, escrevi a morada antiga dos meus pais. A brigada da PIDE atacou às 7 da manhã no Lumiar, onde uma magnífica porteira os empatou durante mais de uma hora antes de dizer que os meus pais se mudaram “lá para as bandas de Benfica…”. Mas eu tinha casado e morava perto do Areeiro, sendo seguido várias vezes até casa pela bufaria que infestava a zona do Técnico. Felizmente, na execução do mandato de captura, os pides guiaram-se pela ficha da morada oficial e não pelos relatórios dos seus bufos.

Vinte anos depois do 25 de Abril, quando foram abertos os arquivos da PIDE na Torre do Tombo, foi com imenso gozo que li o relatório do agente Carlos Augusto Martins: “Deslocando-nos à sua atual morada, na Avenida João XXI, apurou-se que o referenciado e seus familiares estavam ausentes de casa. Feitos todos os esforços ao nosso alcance para não prejudicar o serviço, não nos foi possível, todavia, proceder à sua captura”. Graças à burrocracia cega e estúpida, como sempre…

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Direção da AEIST 1971-72 – os mandatos de captura da PIDE foram emitidos para os quatro primeiros desta lista, o Presidente e os três vices.

Confinado involuntário

Assim começou o meu primeiro “confinamento-em-tempo-de-ditadura”, não nos cárceres fascistas como os meus ilustres antecessores nesta série. Andei “a monte”, aproveitando a sorte inicial e evitando a prisão. Com 20 anos, casado há menos de três meses, foi uma experiência dura mas enriquecedora. De improviso, percorri as casas de Pedro Botelho, Conceição e Silva, José Calado, Rosário Beija, João Abel Manta e do velho compincha José Fanha, todos arquitetos, por coincidências e ligações familiares. Além de um contacto acessível com o que se passava “lá fora”, tinha ao dispor excelentes bibliotecas e álbuns como as “Cantigas do Maio” (Zeca Afonso, 1971) que inclui a “Grândola Vila Morena” e o “Cantar Alentejano”, a história de Catarina Eufémia que me marcou para o resto da vida: “Ceifeiras na manhã fria flores na campa lhe vão pôr…”

Este período de confinamento acabou em Janeiro de 1973, quando saíram de Caxias cinco estudantes do Técnico e de Ciências (escapámos três) – ao fim de três meses os presos políticos eram levados a julgamento ou então tinham de ser libertados. No regresso encontrei o Técnico em estado de sítio, ocupado pelos “gorilas” – a minha primeira experiência de segurança privada, neste caso ao serviço do Estado fascista. A resistência dos estudantes à repressão foi exemplar: a destruição das câmaras de filmagem que espiavam do alto do pavilhão de Máquinas; o boicote aos exames cumprido a quase 100%. Em Novembro de 1973, com mais de uma centena de ativistas associativos do Técnico, fui expulso do ensino. Nas três universidades – Lisboa, Porto e Coimbra – a repressão fechava escolas e associações, perante uma resistência estudantil generalizada.

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Lista candidata ao mandato 1972-73 que não chegou a ser eleita porque a polícia de choque invadiu o Técnico e roubou as urnas, em plena votação, a 16 de Maio de 1972.

O ano de 1973 correu num ápice, na vertigem das lutas, assumindo um caráter abertamente político contra a ditadura e a guerra: as manifestações do 21 de Fevereiro – Dia de Luta Anticolonial, o 1.º de Maio, a greve na TAP… Em Outubro, cinco minutos antes do início de uma largada de touros, centenas de estudantes percorreram as ruas de Vila Franca de Xira gritando palavras de ordem e distribuindo milhares de panfletos contra a guerra colonial e a que viria a ser a última farsa eleitoral do fascismo. A 12 de Outubro, o aniversário do assassinato de Ribeiro Santos foi assinalado em Lisboa com cinco manifestações seguidas: junto ao cemitério da Ajuda, Campo das Cebolas, Graça, Almirante Reis e Rossio, baralhando as contas da polícia de choque e do seu sinistro capitão Maltês. Entretanto já conspirava o Movimento dos Capitães, mas nós não sabíamos nem sonhávamos…

Confinado voluntário

Um ano depois do primeiro mandato de captura estava completamente “queimado” e na iminência de nova prisão. Em Novembro de 1973 foi-me proposto passar à clandestinidade, como forma de escapar à repressão e prosseguir a luta. Aceitei de bom grado, iniciando os preparativos junto da família, com as necessárias doses de informação e contrainformação – aos meus pais escrevi uma carta com remetente de França…

Depois de muitos preparativos e alguns imprevistos, a 7 de Fevereiro de 1974 fiz um percurso de despistagem de eventuais perseguidores que passou pela Avenida do Uruguai, Monsanto (pulando do viaduto para a estrada de circunvalação) e terminou no Dafundo, o meu primeiro porto de abrigo. Nas casas clandestinas todos os cuidados são poucos porque os camaradas que lhes dão cobertura saem de manhã para o trabalho e não pode haver ruídos suspeitos para a vizinhança – como descargas de autoclismo… Cozinhar só a certas horas, a comida geralmente era preparada de véspera.

Ocupávamos o dia com leituras ou escrita de documentos, em silêncio ou em conversas sussurradas; reuniões ou discussões, mesmo em voz baixa, teriam de esperar pelo regresso dos residentes oficiais da casa. À noite, uma ou duas vezes por semana, nós clandestinos saíamos para reuniões noutras casas, com um percurso a pé até sermos apanhados por uma boleia; na viatura fechávamos os olhos até ao destino para não reconhecermos o local. Nas reuniões havia máscaras de pano com apenas três furos, para os olhos e a boca.

Nesta vida confinada os pormenores eram importantes: por exemplo, a barba que deixara crescer foi cortada mal entrei na clandestinidade. Com um bigode fininho, à brasileira, era um disfarce perfeito: cheguei a cruzar-me com pessoas conhecidas que jurariam nunca me ter visto mais gordo…

Não usávamos os nomes verdadeiros: chamei-me Francisco (nome do meu primeiro filho, nascido já depois do 25 de Abril) e Renato, um nome diferente em cada organismo onde reunia, dificultando as denúncias e complicando o cruzamento de dados pela polícia. Mesmo confinados fazíamos amigos que começavam por ser camaradas. Na casa do Dafundo conheci o António, do Espírito Santo (Mértola), desertor da guerra colonial e que, muitos anos mais tarde, reencontrei na SRUP – Sociedade Recreativa União Pragalense; o António Alentejano que tanto nos ajudou a despistar os bufos do SIS durante o “buzinão” da Ponte 25 de Abril, em pleno cavaquismo.

Ironia do destino: na madrugada de 25 de Abril de 1974, estávamos numa casa em Massamá imprimindo um panfleto sobre o golpe das Caldas (16 de Março), onde se podia ler que “o fascismo nunca cairá com golpes de Estado militares, só com a revolução popular”. Não tínhamos maturidade política para pressentir o grau de apodrecimento do regime colonial fascista nem para perceber que um golpe de estado pode transformar-se em processo revolucionário, sob o impulso de um movimento popular real e não imaginário. Afinal as verdadeiras revoluções não estão escritas em nenhum livro, elas é que escrevem a História; o resto são caricaturas…

O que mais interessa para o confinamento é que os panfletos foram impressos em duplicador com um mecanismo silenciador, uma caixa de madeira forrada com esponja e protegida por vidro duplo; o próprio stencil era batido à máquina (não havia computadores) dentro de uma caixa com tampo de vidro e duas aberturas para os braços, forradas também a esponja.

Interrompemos a impressão às 4 da madrugada, já a “Grândola” tinha dado o tiro de partida e a coluna de Salgueiro Maia estava a caminho do Terreiro do Paço. Pelas 7 e meia da manhã a dona da casa apareceu espavorida: “não circulam comboios, parece que há uma revolução em Lisboa”. Acordámos de sobressalto, procurando perceber o que se passava. Os panfletos podiam esperar… e desesperaram.

Surfámos a revolução nas ondas da rádio, subindo ao Carmo e ouvindo cair a Trindade (Deus, Pátria, Autoridade) através da voz inesquecível do Adelino Gomes. O “núcleo duro” ainda se manteve por algum tempo numa semiclandestinidade, entre intentonas e inventonas: 28 de Setembro, 11 de Março…

Enfim, desconfinados…

Dias depois do 25 de Abril, num passeio pelos arredores da última casa clandestina onde vivi, em Queijas, ao subir uma barreira da estrada de circunvalação deparei-me com os muros altos, brancos e frios da prisão de Caxias. Mal podia imaginar que tinha estado clandestino a pouco mais de um quilómetro de um dos mais sinistros cárceres da ditadura!

Finalmente, o país do medo desconfinava. Pela minha parte, vim desconfinar para o Alentejo há 45 anos. Até há dois meses… 

A propósito de desconfinamento, no próximo dia 19 de Maio, às 19 horas, o habitual grupo de amigos vai colocar um ramo de flores na campa de Catarina Eufémia. Mantendo o distanciamento social, na certeza de que é sempre possível vencer o medo e não há vírus que corte a raiz ao pensamento!

Serpa, 13 de Maio de 2020
Alberto Matos

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