Lucro das multinacionais impulsionou “significativamente” preços globais

08 de dezembro 2023 - 18:18

Novo estudo confirma o papel significativo dos lucros no aumento da inflação durante 2022. Autores apelam a um imposto global sobre as multinacionais para reduzir os lucros excessivos,

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Foto Nick Youngson CC BY-SA 3.0 Alpha Stock Images.

O relatório dos thinktanks IPPR e Common Wealth, citado pelo The Guardian, conclui que os lucros das empresas cotadas no Reino Unido aumentaram 30%, impulsionados por apenas 11% das empresas que obtiveram super-lucros com base na sua capacidade de promover aumentos de preços fabulosos, o que tem vindo a ser apelidado de “ganânciaflação”.

No documento, que apela a um imposto global sobre as multinacionais para reduzir os lucros excessivos, é assinalado que os lucros desempenharam um papel significativo no aumento da inflação durante 2022. Na realidade, a análise aos balanços financeiros de muitas das maiores empresas do Reino Unido revela que os lucros ultrapassaram em muito os aumentos nos custos, ajudando a elevar a inflação no ano passado para níveis não observados desde o início da década de 1980.

Os investigadores apontam ainda que os lucros excessivos foram ainda maiores nos EUA, onde muitos sectores importantes da economia são dominados por algumas empresas poderosas. Este aumento nos lucros ocorreu porque os aumentos salariais não conseguiram acompanhar a inflação e os trabalhadores sofreram a maior queda nos rendimentos disponíveis desde a Segunda Guerra Mundial.

Empresas de energia como a ExxonMobil e Shell, as empresas mineiras Glencore e Rio Tinto, e as empresas alimentares e de matérias-primas Kraft Heinz, Archer-Daniels-Midland e Bunge viram os seus lucros ultrapassarem em muito a inflação no rescaldo da invasão da Ucrânia pela Rússia.

“Como os preços da energia e dos alimentos influenciam de forma tão significativa os custos em todos os setores da economia em geral, isto exacerbou o choque inicial de preços – contribuindo para que a inflação atingisse um pico mais elevado e durasse mais tempo do que se houvesse menos poder de mercado”, lê-se no relatório.

Mediante a análise de 1.350 empresas cotadas nos mercados de ações do Reino Unido, EUA, Alemanha, Brasil e África do Sul, o documento revela que as empresas do setor tecnológico, das telecomunicações e do setor bancário também promoveram aumentos de preços significativos que aumentaram as suas margens de lucro.

“Essas empresas têm conseguido proteger as suas margens de lucro ou mesmo aumentá-las, gerando lucros excessivos através de uma combinação de elevado poder de mercado e dinâmica do mercado global”, referem os investigadores.

E os resultados estão à vista: “O PIB global poderia ser 8% superior ao que é agora se o poder do mercado não tivesse aumentado. O rendimento do trabalho é provavelmente significativamente mais baixo e o dinamismo económico é mais fraco – com escolhas mais pobres, pior qualidade dos produtos e menos oportunidades económicas – do que num mundo contrafactual onde as grandes empresas seriam menos dominantes”, aponta o relatório.