Liderança trabalhista quer impedir Corbyn de se recandidatar a deputado

16 de fevereiro 2023 - 22:20

Starmer comunicou que o seu antecessor não voltaria a ser candidato no seu círculo eleitoral. Corbyn responde que é um ataque à democracia e que cabe aos militantes decidir. Mais uma vez o “anti-semitismo” volta a ser uma arma de arremesso contra a esquerda do partido trabalhista.

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Corbyn e Starmer em 2019.
Corbyn e Starmer em 2019. Foto de ANDY RAIN/EPA/Lusa.

Keir Starmer, o líder do Partido Trabalhista britânico, anunciou esta quarta-feira que o seu antecessor no cargo não será candidato a deputado nas próximas eleições. Em conferência de imprensa declarou: “deixem-me ser bastante claro, Jeremy Corbyn não se apresentará nas próximas eleições gerais como candidato do Partido Trabalhista”.

Como justificação invocou a “mudança”, vincando que “não voltaremos atrás”, mas esta intervenção foi feita no contexto em que salientava como um “momento importante” o facto da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos ter levantado sanções aplicadas no âmbito do seu relatório sobre a existência de casos de “anti-semitismo” no partido durante a liderança de Corbyn. Starmer também convidou os deputados e militantes que apoiem o ex-líder e que não concordem com ele sobre este tema a sair do partido: “o partido Trabalhista mudou. E se houver alguém no Partido Trabalhista que não goste da mudança, então a minha mensagem para eles é bastante clara nesta manhã: a porta está aberta e podem sair”.

Em comunicado publicado nas redes sociais, o Momentum, movimento de base da esquerda do partido que tem apoiado Corbyn, reagiu dizendo que “a porta pode estar aberta – mas não vamos sair”. “Não vamos permitir que nos expulsem do partido. Aquilo a que assistimos hoje é uma tentativa de nos desanimar e desmoralizar”, acrescentavam.

Corbyn, membro do partido desde os 16 anos e deputado pelo círculo eleitoral de Islington North desde 1983, não desistirá de tentar uma nova nomeação trabalhista. Numa publicação no Twitter, afirma tratar-se de um “ataque flagrante aos direitos democráticos dos militantes do Partido Trabalhista de Islington North” já que “lhes cabe a eles – e não aos líderes partidários – decidir quem deve ser o seu candidato”.

O ainda deputado descreve as declarações de Starmer como “uma distração divisiva do nosso objetivo principal: derrotar o Partido Conservador nas próximas eleições gerais”.

O “anti-semitismo” como arma contra a esquerda do partido

Em 2020, um relatório da Comissão para a Igualdade e os Direitos Humanos, o regulador britânico que lida com temas como a discriminação racial, considerou que o Partido Trabalhista teria sido responsável por atos ilegais de assédio e discriminação, lançando a acusação de anti-semitismo que agora considerou sanada. Acusava-se então a direção do partido de falhas sérias e de procedimentos inadequados para lidar com as queixas de anti-semitismo e de existir “uma cultura no interior do partido que, na melhor das hipóteses, não fez o suficiente para prevenir o anti-semitismo e, na pior, pode tê-lo aceitado”.

Na altura, Corbyn, já afastado da liderança do partido, tomou posição afirmando que não aceitava todas as conclusões retiradas por aquela entidade mas também disse que esperava que todas recomendações apresentadas fossem “rapidamente implementadas”. Para ele, “quem quer que afirme que não há anti-semitismo no partido está errado” mas não deixou de notar que “a escala do problema foi exagerada dramaticamente por razões políticas pelos nossos oponentes dentro e fora do partido, assim como por muitos dos meios de comunicação social”.

Com base nesta afirmação, a direção suspendeu Corbyn do partido, decisão que foi revertida três semanas mais tarde pelo Comité Executivo Nacional. Mas isso não alterou outra das medidas então tomadas pela nova direção do partido: o afastamento de Corbyn da possibilidade de falar em nome dos trabalhistas no Parlamento, permanecendo este desde então enquanto independente.

Convém sublinhar que a definição de “anti-semitismo” que é utilizada é a adotada pela International Holocaust Remembrance Alliance, que equipara o negacionismo do Holocausto à rejeição do Estado religioso de Israel constituído através da expulsão dos palestinianos dos seus territórios. Por exemplo, o termo “sionismo”, que designa o movimento histórico que apoiava a construção de um Estado judaico que excluía a maioria dos habitantes da Palestina, passou a ser apresentado pelos lóbis pró-Israel como uma expressão de “anti-semitismo” como se implicasse qualquer forma de racismo.

A direção de Corbyn tinha adotado desde julho de 2018 uma definição diferente da do IRHA. Porém, face a uma campanha agressiva, recuou e acabou por a aceitar, fazendo-a acompanhar pela declaração de que “isto de forma alguma mina a liberdade de expressão sobre Israel ou os direitos dos palestinianos”. Corbyn ainda tentou ir mais longe mas perdeu a votação nesse sentido na direção executiva do partido.

A acusação de anti-semitismo dirigida ao Labour só começou a ser veiculada depois de Jeremy Corbyn assumir a liderança do partido em 2015, por este ser um defensor da Palestina e porque vários outros defensores desta causa, à esquerda das direções anteriores, terem entrado no partido nesta altura. Órgãos de comunicação social e direita passaram a estar na ofensiva, visando várias figuras. E a direção de Corbyn assumiu sempre uma postura muito defensiva.

Daí que, desde 2016, a direção de Corbyn pediu em vários momentos desculpas sobre os comportamentos anti-semitas no interior do partido e empreendeu diversas averiguações. Nesse ano, encomendou ao especialista em direitos humanos Shami Chakrabarti uma análise ao problema que concluiu que o partido não estava “dominado por nenhum anti-semitismo ou qualquer outra forma de racismo” mas que havia “ocasionalmente uma atmosfera tóxica”, fazendo uma série de recomendações para lidar com isto. No início de 2019, uma nova iniciativa para analisar as formas como os processos de queixa, que não são da responsabilidade direta da direção, eram resolvidos foi empreendida.

Já sob a direção de Starmer, em 2020, foi encomendado por esta o relatório Forde sobre o tema. Aí se concluía que os funcionários partidários que analisavam os procedimentos disciplinares “priorizavam “caçar ‘trotskos’ [abreviatura para trotskistas], isto é, suspender membros que apoiaram Jeremy Corbyn em 2015 e 2016, em vez de lidar com queixas de anti-semitismo, islamofobia e outros tipos de queixas”.

O relatório mostrava ainda que a acusação tinha sido instrumentalizada por razões de fação e que permanece no partido uma “hierarquia de racismo”. Os insultos contra Diane Abbot, a primeira mulher negra a ser eleita para o parlamento britânico e que fez parte do governo sombra de Corbyn, por parte de funcionários chave do partido estão documentados, tendo sido usadas “expressões de desprezo viscerais, utilizado (conscientemente ou não) lugares comuns racistas”. Outros visados terão sido os deputados negros Clive Lewis e Dawn Butler. Várias destas pessoas continuam no partido e sobre estes casos não se registou a comoção pública causada pelas acusações de anti-semitismo.

Os meios de comunicação e a cobertura do caso

Este tipo de conclusões sobre o que se passou no interior dos trabalhistas chegou tarde e foi pouco destacado pelos principais órgãos de comunicação social do país. Muito menos do que as notícias que amplificaram a ideia de que o anti-semitismo era uma marca de Corbyn no partido. Mas também houve análises críticas à cobertura do tema. Em 2018 um relatório feito pela Media Reform Coalition “identificou uma miríade de imprecisões e distorções” nas notícias de vários principais veículos informativos, “incluindo distorções acentuadas das fontes, omissão do contexto essencial ou do direito de resposta, citações incorretas e afirmações falsas feitas pelos próprios jornalistas ou por fontes cujas reivindicações controversas não foram contestadas nem contrapostas.” A conclusão era de que havia “um paradigma de desinformação” que dominava a cobertura do caso,

Este documento não teve grandes repercussões e em meados de julho de 2019 uma nova acha para a fogueira veio da imprensa mainstream. O influente programa Panorama da BBC dedicava-se durante uma hora às queixas sobre anti-semitismo, falando com funcionários do partido (afetos à oposição de direita) que acusavam a direção de interferência política na análise das queixas de anti-semitismo. A direção contrapôs que se tratava de guerrilha política.

Mas foi preciso chegar a 2022 para que um documentário em quatro partes, chamado The Labour Files, feito pela Al Jazeera, revelasse a verdadeira dimensão da operação de minagem interna feita contra a direção de Corbyn. Uma gigantesca fuga de informação de 500 gigabytes de documentos, e-mails, áudios e vídeos mostrava como ao mais alto nível da burocracia interna do partido foram orquestradas purgas dirigidas a membros da esquerda. O secretário-geral da organização, Iain McNicol, foi uma figura de proa nesse processo, estando sob sua alçada os procedimentos disciplinares. “Falsas acusações de comportamento abusivo incluindo homofobia e anti-semitismo” foram produzidas com a intenção de suspender ou expulsar do partido os alvos. Para além de indivíduos, houve núcleos inteiros a serem suspensos.

Também foi exposto um racismo sistémico do partido ao mais alto nível que não envolve os corbynistas mas a sua ala dominante. Os altos quadros do partido “repetidamente enviavam uns aos outros mensagens racistas e discriminatórias sobre membros do Labour negros ou de minorias”. Vários exemplos de tolerância face a comportamentos islamofóbicos são revelados e mostra-se como 5.000 membros muçulmanos de uma comunidade de Newham que tinham aderido atraídos pelo discurso de Corbyn foram afastados e acusados de “infiltração”.

Hipocrisia” e “resposta de fação”

Uma das figuras próximas de Corbyn durante a sua liderança fala em “hipocrisia” e resposta de fação no caso do afastamento deste da candidatura a deputado. Num artigo no Novara Media, o ex-diretor executivo de políticas do Labour, Andrew Fisher, fustiga Starmer por um processo “injusto”, “sem direito de recurso” que é “um ultraje” e que não visa só o antigo líder mas toda a esquerda do Labour, tentando colá-la ao anti-semitismo e afastando-a de candidaturas ao parlamento em vários outros locais.

Este ativista e sindicalista sublinha que “transfobia, racismo anti-negros, islamofobia ou outras formas de discriminação são toleradas no Labour de Starmer e que até o anti-semitismo o é “se for por um deputado da direita do partido”. O exemplo é Barry Sheerman, que publicou tuítes criticados por esta razão e não foi alvo de nenhuma investigação interna.

Acusa-se a atual liderança de instrumentalização do anti-semitismo para travar uma batalha “de fação”.