O Supremo Tribunal Federal brasileiro condenou por unanimidade esta quarta-feira os mandantes do assassinato de Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes em março de 2018. O ex-deputado federal Chiquinho Brazão e o seu irmão conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, Domingos Brazão, foram condenados a 76 anos e três meses de prisão, com os juizes a reconhecerem o carácter político do crime e a ligação com as milícias que atuam no estado do Rio de Janeiro.
Foi ainda condenado o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior a 18 anos de prisão por encobrir as investigações e garantir a imunidade dos envolvidos, o ex-polícia militar Ronald Paulo Alves a 56 anos de prisão por fornecer informações importantes para o crime, e um homem de confiança dos irmãos Brazão, Robson Calixto Fonseca, a 9 anos de prisão por envolvimento no plano do assassinato.
Marielle Franco destacou-se pela sua luta em defesa dos habitantes dos bairros pobres do Rio, dos jovens negros, mulheres e comunidade LGBT, pondo em causa o poder das milícias ligadas à polícia que controlam várias partes do estado carioca.
Família Brazão “não tinha apenas contactos com a milícia. Eram a própria milícia”
"O assassinato de Marielle tem que ser compreendido não só como atentado a parlamentar, mas um crime na ideia de dominação do crime organizado, e também de violência de género de interromper mulher que ousou ir de encontro aos interesses de milicianos homens, brancos e ricos", disse o juiz relator do processo, Alexandre de Moraes. Os juizes dizem que o assassinato de Marielle teve o objetivo de “enviar uma mensagem” à class política do Rio de Janeiro e entendem que a família Brazão "não tinha apenas contactos com a milícia. Eram a própria milícia”.
“Para nós, do PSOL, foi um dia histórico, foi um dia muito importante. Nós lutamos por justiça durante oito anos e hoje finalmente nós temos a condenação dos mandantes desse crime político brutal que chocou não só o Brasil, mas o mundo. Finalmente conseguimos fazer justiça pela nossa companheira”, afirmou Paula Coradi, presidente nacional do partido, à Rádio Brasil de Fato.
Para a ex-chefe de gabinete de Marielle e atual deputada estadual do PSOL, Renata Souza, com esta condenação “a gente sabe que não vai ter a Marielle e o Anderson de volta, mas a gente sente que, com essa condenação, a gente restabelece a possibilidade de refundar a democracia brasileira. O feminicídio político de Marielle trouxe uma cisão, um corte profundo na democracia brasileira.”
“Os mandantes estavam diretamente ligados à infraestrutura do Estado. Um era membro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro e o outro era deputado federal. Os outros acusados e condenados também eram ex-policiais militares e um delegado da polícia civil. São instituições do Estado brasileiro intrinsecamente ligadas ao assassinato de uma vereadora eleita”, prosseguiu a deputada.
Na mesma linha, Fernanda Chaves, a única sobrevivente do assassinato que seguia no carro alvejado pelos assassinos, falou à Globo News em “sensação de alívio” e congratulou-se por ver que ”o Estado brasileiro demonstrou hoje que esse tipo de crime não pode ser tolerado”.
"Esse crime foi pensado, gestado para atacar um campo ideológico da política fluminense. Mas, sem dúvida, ele tem um recorte misógino, de raça e de classe quando a Marielle é escolhida", prosseguiu Fernanda Chaves, concluindo que “o que eu tiro disso tudo é que essas pessoas vão passar o resto das vidas delas ouvindo [sobre] a Marielle. Nesse sentido, a Marielle vive. Vive em muitas mulheres. Teremos Marielle para sempre”.