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Japão: governo reativa centrais nucleares contra a vontade popular

Primeiro-ministro Yasuhiko Noda decide reativar dois reatores nucleares na central de Oi, ignorando vontade popular expressa uma petição que recolheu 7,5 milhões de assinaturas.
O movimento antinuclear japonês, que retomou a sua longa tradição após o desastre do ano passado, recolheu 7,5 milhões de assinaturas contra a reativação das centrais. Foto de SandoCap

O governo de Yasuhiko Noda decidiu neste sábado reativar dois reatores nucleares na central de Oi, na província de Fukui. Essa decisão contraria a vontade da maioria da população japonesa que, após o desastre nuclear de Fukushima 1, no ano passado, tem-se oposto à continuação do programa nuclear.

Foram vários dias de protestos em Tóquio e, na sexta-feira, cerca de 10 mil manifestantes marcharam nessa metrópole para deixar bem claro: “A vida é mais importante que a economia!”. O movimento antinuclear japonês, que retomou a sua longa tradição após o desastre do ano passado, recolheu 7,5 milhões de assinaturas contra a reativação das centrais, mas o governo não fez caso.

Antes do desastre, o Japão tinha uma dependência de 30% da energia nuclear e o desligamento de todos os reatores tinha acalmado, em parte, a inquietude do povo japonês e também da opinião pública mundial.

O governo de Noda, que poucos dias atrás dissolveu o seu gabinete, numa demonstração de fragilidade política, navega, como os seus antecessores, para o naufrágio. Alguém conhece alguma atitude política de impacto do seu governo para acabar com a crise económica japonesa? Prensado entre o escrutínio da população e o desejo das grandes empresas de que se religuem os reatores, teve de decidir por atender a quem o sustenta, ou seja, o imperialismo japonês do qual é, neste momento, seu principal representante. A crise nuclear japonesa, que aprofundou a crise energética no arquipélago, transformou-se num grande pesadelo para as grandes empresas japonesas, cuja produção é pulverizada em diversas fábricas, que produzem peças e essas são montadas numa linha central de produção noutro local. A falta de energia numa dessas unidades pode levar à paralisação total da produção dessas empresas, como se verificou o ano passado após o terremoto seguido de tsunami. Também impede o planeamento dessas empresas que são forçadas a trabalhar com a hipótese de corte de peças. Por último, leva também a que essas empresas não queiram construir novas fábricas, já que não sabem se podem ou não contar com energia. Algumas, inclusive, já são obrigadas a fazer planos de fabricar energia por sua própria conta. E muitas, simplesmente, fazem planos de abandonar o seu próprio país.

Não restam dúvidas de que ao decidir reativar as centrais, Noda apenas executou a tarefa para a qual foi preparado e é pago. Para as grandes empresas e Noda: “A economia é mais importante que as vidas!” Não importa que, caso ocorra um desastre nuclear, o que sempre aconteceu desde o início do programa nuclear, em 1954, sejam afetadas ou morram milhões de pessoas. Não apenas no Japão como entre os vizinhos coreanos, chineses, taiwaneses, limitando a lista para não parecermos exagerados. Como é comum nos meios empresariais, mantém-se a velha prática do: “Isso pensaremos depois!”

Para quem não sabe onde fica a central de Oi, que será reativada, está localizada na costa do Mar do Japão, num povoado do qual retirou o nome, na província de Fukui. Uma província que não tem grande relevância no cenário japonês e, por esse motivo, foi escolhida para se fazer a reativação, já que é um local onde, devido à característica populacional, não pode haver grandes reações contrárias. Como não poderia deixar de ser, Noda optou pelo lugar mais fácil para poder, na sequência, religar outros reatores nucleares, levantando a chantagem de que isso é necessário para acabar com a crise económica que incomoda os japonese há duas décadas.

O governo alega que foram feitas inspeções de segurança e que a central é capaz de resistir a um tsunami de 11,4 metros.

Ainda que Noda garanta isso, é melhor crer que nem Neptuno, o deus do mar, se atreveria nessas circunstâncias a afirmar tal disparate. A não ser que fosse obrigado, como é o caso do primeiro-ministro japonês.

O perigo mora na França

Essa medida acaba com o mito recente de que o Japão se tornou um lugar seguro, já que alguns milhares de milhões de pessoas acreditavam que, com o desligamento das centrais, o problema havia sido solucionado. O que está muito longe da verdade, já que uma solução antinuclear leva necessariamente várias décadas para ser consumada. O tempo necessário para que não exista mais radioatividade nos materiais utilizados.

Ainda que todo o barulho sobre a energia nuclear se concentre no Japão, o maior perigo hoje reside na França, país que depende em 78,8% da energia nuclear. Não só para consumo interno como fonte de divisas. A França exporta 18% da energia produzida para a Itália, Holanda, produz para a Bélgica, Inglaterra e até mesmo para a Alemanha, cuja população optou por acabar com a energia nuclear. A França não só depende e produz energia nuclear como é também o país mais agressivo em disseminar essa praga em todo o planeta. A industria nuclear francesa é a que mais tenta implantar centrais nucleares em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, independentemente do que isso possa acarretar aos moradores desses países. Se alguém acredita que a França, mundialmente conhecida por seus vinhos e baguetes, possa produzir energia nuclear de forma 100% segura, isso não deixa de ser um direito. Mas, nunca é demais lembrar, baseado nos exemplos de Chernobyl (1986), Fukushima 1 (2011) e Three Mile Island(1979) nos EUA, que mesmo em países considerados os mais desenvolvidos tecnologicamente esses desastres ocorreram.

LISTADEDESASTRESNOJAPÃO
1981- Tsuruga

1995 -Monju

1997 - Tokaimura

1999 - Fukui

1999 - Tokaimura

2002 - Falsificação de dados

2002 - Onagawa

2006 - Fukushima 1

2007 - Kashiwazaki-Kariya

2011 - Fukushima 1

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