Um funcionário do Departamento de Segurança da ONU foi morto e outro ficou ferido quando seguiam a caminho do Hospital Europeu de Rafah esta segunda-feira. Em comunicado, o porta-voz adjunto do secretário-geral da ONU condenou mais este ataque a funcionários das Nações Unidas e apelou a uma investigação ao sucedido.
Embora o exército israelita ainda não tenha admitido a autoria de mais um ataque a funcionários da ONU, este está longe de ser um caso isolado. Num comunicado também divulgado na segunda-feira, a Human Rights Watch contabiliza oito ataques feitos por Israel a localizações onde sabia que se encontrava pessoal de agências e organizações humanitárias desde outubro.
Estes ataques provocaram 15 mortos, incluindo duas crianças, e 16 feridos e foram feitos sem aviso prévio, apesar de Israel ter sido notificado pelas organizações da localização exata dos seus funcionários, como forma de os proteger.
Um dos bombardeamentos ocorreu a 18 de janeiro e feriu três pessoas numa casa de acolhimento gerida em conjunto por duas organizações de ajuda humanitária. Segundo a investigação da ONU ao incidente, as munições usadas eram de fabrico norte-americano e foram lançadas por um caça F-16, que usa componentes britânicos.
Entrevista
“Perante invasão de Rafah, TPI deve levar a sério o seu mandato”
porJorge Costa
O caso mais mediático ocorreu a 1 de abril, quando a aviação israelita alvejou uma caravana da organização World Central Kitchen, que presta ajuda alimentar em Gaza. Sete trabalhadores humanitários foram mortos quando seguiam em veículos identificados com o símbolo da organização no tejadilho e num percurso previamente enviado às autoridades israelitas. O repúdio internacional ao massacre da ajuda humanitária levou Israel a reconhecer a autoria e a afirmar tratar-se de um erro.
Os outros casos documentados pela HRW são um ataque em novembro à caravana dos Médicos Sem Fronteiras, que viu também um abrigo atacado em janeiro e uma casa de acolhimento em fevereiro. Em dezembro os israelitas alvejaram uma casa de acolhimento da UNRWA, a agência da ONU para ajuda aos palestinianos que o regime sionista não esconde querer afastar do território. Esta organização viu também uma caravana atacada a 5 de fevereiro. A 8 de março foi ainda alvejada uma casa de acolhimento onde se encontrava um funcionário da American Near East Refugee Aid Organization (Anera).
No total, a ONU contabilizou no fim de abril 254 mortes de trabalhadores da ajuda humanitária, dos quais 188 pertenciam à UNRWA. Esta agência documentou 368 ataques a 169 instalações que opera em Gaza e além dos seus funcionários mortos, outros 429 refugiados que se encontravam nos seus abrigos morreram na sequência dos ataques. A estes há que somar as centenas de vítimas dos ataques israelitas aos locais onde os palestinianos se concentravam para ir buscar alimentos e ajuda humanitária.
Ataques enfraquecem apoio humanitário e transformam a fome em arma de guerra
O resultado prático destes ataques, além da tragédia para as vítimas e familiares, tem sido o enfraquecimento das estruturas de assistência humanitária em Gaza, dificultando ainda mais a distribuição da ajuda.
“A Human Rights Watch concluiu que as autoridades israelitas estão a utilizar a fome como método de guerra em Gaza. De acordo com uma política definida por oficiais israelitas e levada a cabo pelas forças israelitas, as autoridades israelitas estão a bloquear deliberadamente o fornecimento de água, alimentos e combustível, impedindo intencionalmente a assistência humanitária, aparentemente arrasando áreas agrícolas e privando a população civil de objectos indispensáveis à sua sobrevivência. As crianças em Gaza estão a morrer de complicações relacionadas com a fome”, diz a organização.
Além de apelar à divulgação das conclusões dos inquéritos israelitas aos incidentes documentados, a HRW insta as autoridades de Israel e da Palestina a cooperarem com o inquérito do Tribunal Penal Internacional aos crimes cometidos pelas partes no conflito e a permitirem uma investigação de peritos independentes a estes ataques, incluindo o acesso completo às comunicações que ocorreram antes, durante e após os ataques. Aos estados que apoiaram militarmente estes ataques, como os EUA e Reino Unido, a organização apela à suspensão da venda de armas e assistência militar a Israel, enquanto o seu exército continuar “a cometer uma sistemática e alargada violação das leis de guerra contra civis palestinianos”. E avisa que “os governos que continuam a fornecer armas ao governo israelita arriscam-se a ser cúmplices de crimes de guerra”.