Palestinianos mortos à fome perante passividade da comunidade internacional

19 de março 2024 - 21:00

Toda a população da Faixa de Gaza, de 2,23 milhões de pessoas, enfrenta níveis elevados de insegurança alimentar aguda e metade da população já está numa situação de “fome catastrófica”. Guterres exige a Israel e à comunidade internacional que previnam o "impensável, inaceitável e injustificável".

PARTILHAR
Foto das Nações Unidas.

A Iniciativa Integrada de Classificação da Fase de Segurança Alimentar (IPC) refere que toda a população da Faixa de Gaza, de 2,23 milhões de pessoas, está a enfrentar níveis elevados de insegurança alimentar aguda.

Num momento em que, de acordo com o cenário mais provável, 70% da população da província de Gaza Norte e da província de Gaza estão numa situação de “fome catastrófica”, a IPC alerta que “a continuação do conflito e a quase total falta de acesso das organizações humanitárias e camiões comerciais às províncias do norte irão provavelmente agravar as vulnerabilidades e a disponibilidade, acesso e utilização extremamente limitada de alimentos, bem como o acesso a cuidados de saúde, água e saneamento”.

“O limiar da fome para a insegurança alimentar aguda das famílias já foi largamente excedido e, segundo os dados mais recentes que mostram uma tendência acentuadamente crescente nos casos de desnutrição aguda, é altamente provável que o limiar da fome para a desnutrição aguda também tenha sido excedido”, escreve a IPC.

Entre meados de março e meados de julho, no cenário mais provável e no pressuposto de uma escalada do conflito, incluindo uma ofensiva terrestre em Rafah, a IPC prevê que metade da população da Faixa de Gaza enfrente condições catastróficas, equivalentes ao IPC Fase 5, o nível mais grave da escala de Insegurança Alimentar Aguda. Trata-se de um aumento de 530.000 pessoas, ou seja, de 92%, em relação à análise anterior.

“Todas os dados apontam para uma grande aceleração da morte e da desnutrição”, avança a IPC, exortando a que sejam tomadas as “ações necessárias para prevenir a fome”, que “exigem uma decisão política imediata para um cessar-fogo, juntamente com um aumento significativo e imediato do acesso humanitário e comercial a toda a população de Gaza”.

“Todos os esforços devem ser feitos para garantir o fornecimento de alimentos, água, medicamentos e proteção dos civis, assim como para restaurar e fornecer serviços de saúde, água e saneamento, e energia (eletricidade, gasóleo e outros combustíveis)”, frisam os especialistas.

Reagindo ao relatório, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) enfatiza que “esta análise atualizada do IPC valida o que todos temíamos – um aprofundamento e uma rápida deterioração da situação de segurança alimentar em Gaza”, com metade da população a enfrentar “níveis catastróficos de insegurança alimentar”.

“Isto atinge o nível mais alto já registado, diferente de tudo o que já vimos antes. (…) Se não forem tomadas medidas para cessar as hostilidades e proporcionar mais acesso humanitário, a fome será iminente. Isso já pode estar a acontecer. O acesso imediato é necessário para facilitar a prestação de assistência urgente e crítica em grande escala”, vincou a vice-diretora-geral da FAO, Beth Bechdol, citada em comunicado.

No passado fim de semana, a par de confirmar que já foram mortas durante as ofensivas israelitas pelo menos 13 mil crianças na Faixa de Gaza, a agência das Nações Unidas para os direitos das crianças (Unicef) alertou ainda que muitas crianças estão gravemente subnutridas. Até esta segunda-feira, a ONU já contabilizou a morte de 27 crianças por fome e sede.

"Estive em enfermarias de crianças que sofriam de anemia e desnutrição graves e em que o silêncio era absoluto. Porque as crianças, os bebés, não tinham sequer energia para chorar", relatou Catherine Russell, referindo os "enormes obstáculos burocráticos" à entrada de camiões de ajuda humanitária em Gaza.

“Prevenir o impensável, inaceitável e injustificável"

O secretário-geral da ONU, António Guterres, exigiu esta segunda-feira a Israel e à comunidade internacional que atuem de imediato para "prevenir o impensável, inaceitável e injustificável".

O secretário-geral sublinhou que os dados sobre a insegurança alimentar são os mais gravosos registados em qualquer parte em termos de nível catastrófico de fome, e acrescentou tratar-se de "um desastre provocado pela intervenção humana, e pode terminar".

Os palestinianos de Gaza "sofrem níveis aterradores de fome e sofrimento", referiu Guterres apelando às “autoridades israelitas que garantam um acesso completo e sem restrições aos bens humanitários em direção a Gaza, e à comunidade internacional que apoie totalmente os nossos esforços humanitários".

Hospitais "nunca deveriam ser campos de batalha"

O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) manifestou, por sua vez, uma grande preocupação face ao novo ataque israelita ao principal hospital de Gaza, Al Shifa. Tedros Adhanom Ghebreyesus realçou que as instalações de saúde "nunca deveriam ser campos de batalha".

"Estamos terrivelmente preocupados com a situação em Al Shifa, que põe em perigo os profissionais de saúde, os pacientes e os civis", afirmou Tedros numa mensagem na rede social X.

"Qualquer combate ou militarização nestas instalações põe em causa os serviços de saúde, o acesso das ambulâncias e a entrega de bens essenciais, pelo que os hospitais devem ser protegidos", acrescentou.

“É a primeira vez que uma população inteira é classificada desta forma"

Ao mesmo tempo que se recusam a pôr cobro ao massacre em curso em Gaza, vetando sucessivamente resoluções das Nações Unidas (ONU) por um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza, os Estados Unidos afirmam-se muito preocupados com a situação no terreno.

O secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, lamentou que "100 por cento da população de Gaza sofre de insegurança alimentar grave”.

“É a primeira vez que uma população inteira é classificada desta forma", continuou.

Em conferência de imprensa, Blinken referiu que “proteger os civis e prestar assistência humanitária aos que dela necessitam desesperadamente é uma prioridade absoluta". “É imperativo que exista um plano para Gaza e temos vindo a repetir isto a Israel", acrescentou.

Já o governo israelita alega que a entrega de ajuda na Faixa de Gaza "não é uma questão simples" e explicou que o sofrimento humanitário no enclave é o "resultado doloroso de intensas hostilidades armadas que Israel não iniciou".

Termos relacionados: InternacionalIsraelPalestina