Na passada sexta-feira, a Comissão Europeia decidiu voltar atrás. 50 milhões de euros destinados à Agência da ONU para os Refugiados Palestinianos (UNRWA), retidos desde que Israel acusou esta entidade de ter 12 funcionários envolvidos nos ataques do Hamas, vão finalmente poder ser aplicados na ajuda à Palestina, onde em Gaza a situação de carência se intensifica para dois milhões de pessoas e a fome levou já à morte de várias crianças. E, para além deste território, há mais seis milhões de pessoas, na Cisjordânia, Jordânia, Líbano e Síria, que dependem totalmente da ajuda e que vivem em 58 campos de refugiados.
Mais duas parcelas de 16 milhões ficam ainda condicionadas aos resultados das auditorias que estão a ser realizadas, uma pela própria ONU, outra pela União Europeia, e a outras condições acordadas pelas partes. Em resposta às acusações de Israel, o diretor da UNRWA, Philippe Lazzarini, tinha já garantido que a organização da ONU não tinha ligações ao Hamas e que verificaria as situações dos 13 mil trabalhadores seus na Faixa de Gaza.
Só que muitos outros dos doadores internacionais, nomeadamente 16 países entre os quais o maior doador, os EUA, não recuaram até ao momento nas suas posições de deixar de ajudar financeiramente a UNRWA, colocando a sua viabilidade em causa na altura em que mais seria necessária no terreno. Esta diz que está a atingir o “ponto de rutura” e só tem fundos para continuar a funcionar, no máximo e em condições muito limitadas, até ao próximo mês.
Contudo, são vários os órgãos de comunicação social que insistem que o governo sionista não apresentou quaisquer provas do envolvimento de sequer uma pessoa que trabalhe com a agência para os refugiados palestinianos nos ataques de 7 de outubro.
É o caso do Le Monde, que explica que à UNRWA não foi apresentado nenhum relatório por parte das autoridades israelitas que pudesse ajudar a justificar a acusação. A única coisa que se continua a conhecer é apenas uma lista de nomes. Isto para além de notícias plantadas na comunicação que indiciam que sete destas pessoas teriam entrado em Israel na altura do ataque do Hamas e que dois tinham sido mortos. A UNRWA respondeu ao conhecimento da lista despedindo todos os que, sem provas, dela constavam, violando todos os procedimentos habituais, o que não a poupou da tormenta.
Israel levantou também acusações contra mais 190 trabalhadores da organização, que alega serem membros do Hamas ou da Jihad Islâmica e tenta fazer passar a ideia de conluio entre UNRWA e Hamas, dizendo que aquela estrutura das Nações Unidas conheceria a existência de um túnel do Hamas construído por baixo da sua sede em Gaza, o que Lazzarini desmentiu, salientando que desde a ordem de evacuação, dada em outubro pelo exército israelita, que o edifício estava abandonado.
E Netanyahu, sempre sem provas, vai ao ponto de a dizer “totalmente infiltrada pelo Hamas”, assim como o seu ministro da Defesa, Yoav Gallant, que fala no “terrorismo sob pretexto de trabalho humanitário” que “é uma vergonha para a ONU e os valores que pretende representar”.
Também o Guardian informa que, passado um mês desde que as acusações foram lançadas, os investigadores da ONU “ainda não receberam quaisquer provas de Israel que corroborem as suas alegações” e que os peritos do Gabinete dos Serviços de Averiguações Internas entregaram na passada quarta-feira uma atualização sobre o seu trabalho no qual se escreve que os ataques do governo sionista à UNRWA não estão apoiados por qualquer prova.
Stéphane Dujarric, porta-voz da ONU, diz que os investigadores “estão a planear visitar Israel brevemente” para poderem “obter informação das autoridades israelitas que possa ser relevante para a investigação”.
Por seu lado, o Wall Street Journal tinha mostrado na semana passada como uma avaliação do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA, considerava como “pouco confiáveis” as acusações sobre a participação de pessoal da ONU nos ataques de 7 de outubro.
Da “guerrilha periódica” ao plano de desmantelamento
A UNRWA, criada em 1949, há muito que é uma pedra no sapato de Israel, que tem feito pressão para que seja extinta. O Mediapart considera-a “um alvo de uma ofensiva maior levada a cabo por Israel e os seus apoiantes” e salienta que os ataques contra ela são “periódicos”.
Lex Takkenberg, que trabalhou durante trinta anos para a UNRWA, reforça que têm sido constantes as acusações contra esta por supostamente “não respeitar a neutralidade” ou de “deixar o Hamas utilizar as instalações da ONU” mas “durante quase todo o tempo, Israel não forneceu provas”.
A “guerrilha” contra a agência tem tido outros apoios como organizações ultra-conservadoras com a “UN Watch” ou o Departamento de Estado dos EUA na presidência de Trump, que suspendeu a ajuda por esta ser alegadamente “irremediavelmente enviesada”.
Um relatório dos Ministério dos Negócios Estrangeiros israelitas conhecido no final do ano passado, indicava mesmo a existência de “um plano de desmantelamento da UNRWA em Gaza em três etapas”. A primeira? “Revelar a cooperação entre a UNRWA e o Hamas”.
A UNRWA tem-se defendido como pode, com entrevistas e uma página onde rebate ponto por ponto todas as acusações. A instituição garante até que nas duas vezes em que foram descobertos túneis nas imediações das suas instalações e quando encontrou armas numa escola sua desativada durante a guerra de 2014 informou Israel e protestou junto do Hamas.
Em carta ao presidente da Assembleia Geral da ONU, Philippe Lazzarini lista algumas das represálias de que a agência tem sido alvo entretanto: desde o despejo de edifícios em Jerusalém e a proibição de entrar na cidade, a retenção de contas bancárias por um banco israelita e as duas leis contra a organização aprovadas no Parlamento israelita.
O atual governo norte-americano sinaliza que não se importaria de que o trabalho desta agência fosse substituído por outras. Tamara Alrifai, porta-voz da UNRWA, explica que isso implicaria um desastre: porque essas “não têm a mesma força que nós, nem a mesma infraestrutura logística, nem o mesmo acesso às comunidades palestinianas na região. E a UNRWA não é apenas ajuda humanitária de emergência em Gaza, é escolas, dispensários, serviços públicos. Se desaparecer amanhã, o risco de caos no local, incluindo de segurança, é real”.