Na sexta-feira, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) anunciou que as denúncias levadas a cabo pela África do Sul, os relatos e denúncias de organizações das Nações Unidas e de inúmeras organizações não governamentais, assim como as declarações de governantes israelitas “são suficientes para concluir que pelo menos alguns dos direitos reivindicados pela África do Sul e para os quais procura proteção são plausíveis”. Nesse sentido, o TIJ ordenou a Israel que tome todas as medidas ao seu alcance para impedir a prática de atos genocidas, bem como que garanta a entrada de assistência humanitária em Gaza, acabando com os sucessivos bloqueios que tem imposto a organizações internacionais, entre as quais a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA). Bloqueios esses que resultaram numa crise humanitária sem precedentes, com a população de Gaza a ser privada de eletricidade, água, bens alimentares e de higiene, medicamentos e, inclusive, roupa e brinquedos para as crianças que, até agora, conseguiram sobreviver à chacina.
No mesmo dia em que ficámos a conhecer a decisão do TIJ, Israel denunciou o alegado envolvimento de funcionários desta agência no ataque do Hamas de 7 de outubro. Os Estados Unidos informaram estar em causa 12 funcionários, num universo de 13 mil a trabalhar para a UNRWA na Faixa de Gaza, muitos dos quais nas áreas de educação e saúde.
Esta acusação mereceu uma pronta reação da agência.
“As autoridades israelitas forneceram à UNRWA informações sobre o alegado envolvimento de vários funcionários da UNRWA nos horríveis ataques a Israel em 7 de outubro”, afirmou o Comissário-Geral da UNRWA, Philippe Lazzarini.
“Para proteger a capacidade da agência de prestar assistência humanitária, tomei a decisão de rescindir imediatamente os contratos destes funcionários e lançar uma investigação a fim de estabelecer a verdade sem demora”, continuou.
Lazzarini frisou que “qualquer funcionário da UNRWA que esteja envolvido em atos de terror será responsabilizado, inclusive através de processo criminal”.
“Estas alegações chocantes surgem num momento em que mais de dois milhões de pessoas em Gaza dependem da assistência vital que a agência tem prestado desde o início da guerra”, apontou ainda o representante da ONU.
Lazzarini deixou também claro que “qualquer pessoa que traia os valores fundamentais das Nações Unidas também trai aqueles a quem servimos em Gaza, em toda a região e em outras partes do mundo”.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou-se “horrorizado” com a situação.
Em catadupa, vários países anunciaram a suspensão de futura ajuda financeira à UNRWA, com os Estados Unidos à cabeça, a que se seguiram Reino Unido, Finlândia, Austrália, Canadá, e Itália.
Israel elogiou os países por terem interrompido o seu apoio à agência da ONU, e e esclareceu que quer pôr fim às atividades da UNRWA no território após o fim da guerra em Gaza.
O ministro das Relações Exteriores, Israel Katz, disse que Israel “pretende promover uma política que garanta que a UNRWA não fará parte do dia seguinte, abordando outros fatores contribuintes”.
“Trabalharemos para angariar apoio bipartidário nos EUA, na União Europeia e noutras nações a nível mundial para esta política que visa travar as atividades da UNRWA em Gaza”, frisou.
Esta semana, um um abrigo da UNRWA em Khan Younis com 800 palestinianos foi atingido por um ataque israelita, deixando nove palestinianos mortos e 75 feridos.