ONG internacionais pedem aos membros da ONU que parem de armar Israel

25 de janeiro 2024 - 17:24

Amnistia Internacional, Oxfam ou Save the Children figuram entre as 16 organizações humanitárias que exortam os países da ONU a pararem de contribuir para a matança em Gaza. Massacres e atropelos à lei internacional sucedem-se e prisões israelitas transformaram-se num verdadeiro “inferno”.

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Foto de Ana Mendes.

Na carta aberta divulgada quarta-feira, um total de 16 organizações humanitárias e defensoras dos direitos humanos pedem aos Estados membros das Nações Unidas que “detenham imediatamente o envio de armas, partes [de armas] ou munições a Israel e aos grupos armados palestinianos enquanto exista risco de que as mesmas sejam usadas para cometer violações graves do Direito Internacional Humanitário e dos direitos humanos”.

A missiva é endereçada, em primeiro lugar, aos Estados Unidos. “Mais de 95% das armas que são vendidas ou entregues a Israel são dos Estados Unidos, seguidos pela Alemanha, com 3%, e Reino Unido e Itália, com menos de 1% a cada um”, explicou Martin Butcher, representante de Oxfam Internacional, numa conferência de imprensa online.

O responsável desta organização não governamental (ONG) acrescentou, no entanto, que estes dados não refletem a realidade no que respeita ao total de países que têm contribuído ativamente para o massacre em Gaza, na medida em que, no fabrico das armas enviadas para Israel, intervêm as indústrias de diferentes países.

Martin Butcher deu como exemplo os caça F-35 norte-americanos, que contam com componentes de outros países, maioritariamente britânicos.

“Na realidade, estamos a ver aqui a natureza complexa e inter-relacionada do comércio de armas global moderno”.

O representante do Center for Civilians in Conflict (CIVIC), John Chappel, detalhou que os Estados Unidos tem fornecido a Israel todo o tipo de armamento: “bombas, mísseis, projéteis de artilharia, munições para tanques, navios de guerra, drones...”.

E esta lista é só uma “contagem parcial”, porque existe uma “falta de transparência por parte do Governo dos Estados Unidos no que respeita ao comércio de armas com Israel”, acrescentou John Chappel.

O representante do CIVIC acrescentou ainda que a lista “também não inclui os milhares de milhões de dólares proporcionados durante muitos anos ao Governo israelita”, o que leva John Chappel a afirmar que “tudo o que o Governo de Israel está a fazer na sua campanha militar [em Gaza] é apoiado, de uma forma ou de outra, pelos Estados Unidos”.

Donatella Rovera, da Amnistia Internacional, afirmou que esta ONG tem registado os “ataques ilegais ou que vão contra o Direito Humanitário Internacional”, levados a cabo desde 7 de outubro, com armas fornecidas a Israel por outros países, como os Estados Unidos.

A ativista destacou ainda que não dispomos de dados suficientes sobre a origem e o uso dessas armas, porque “os que fornecem armas não monitorizam a sua utilização, ou não facultam os dados”.

As ONG lembram que “os líderes mundiais têm pedido ao Governo israelita que reduza as vítimas civis, mas as operações militares israelitas em Gaza continuam uma matança sem precedentes”. E defendem que “os Estados membros têm a responsabilidade legal de usar todos os meios possíveis para pressionar para que [Israel] proteja os civis e cumpra o Direito Humanitário Internacional”.

“Todos os estados têm a obrigação de prevenir crimes atrozes e promover o cumprimento de normas que protegem os civis”, lê-se na missiva, aberta à subscrição por parte de outras organizações.

Massacres e atropelos à lei internacional sucedem-se

A situação em Khan Younis agrava-se a cada dia, com as forças israelitas a intensificarem os ataques militares e a destruírem bairros residenciais completos, um após o outro. A ONU afirma que combates intensos “cercaram” os dois únicos hospitais a funcionar em Khan Younis, o Nasser e o Al-Amal, deixando milhares de “funcionários aterrorizados, pacientes e pessoas deslocadas presas lá dentro”. Na quarta-feira, um abrigo da ONU em Khan Younis com 800 palestinianos foi atingido por um ataque israelita, deixando nove palestinianos mortos e 75 feridos, segundo comunicou o diretor da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA) em Gaza, Thomas White.

O norte da cidade de Gaza também foi, novamente, fustigado por ataques. De acordo com as autoridades de saúde, pelo menos 20 pessoas foram mortas e 150 ficaram feridas quando tanques israelitas dispararam projéteis e tiros reais contra palestinianos que aguardavam mantimentos humanitários.

Prisões são verdadeiro “inferno”

A Comissão Palestiniana para os Assuntos dos Prisioneiros e Ex-Prisioneiros afirma que as autoridades israelitas estão a reforçar o controlo sobre os detidos na prisão de Negev, transformando as suas vidas num “inferno insuportável”. Em comunicado, a comissão refere que “as medidas opressivas da ocupação israelita”, que impôs “rigorosas medidas de segurança” aos prisioneiros após 7 de outubro, tornam a vida mais “miserável” e “cruel”.

De acordo com a organização, a a administração penitenciária cortou “deliberadamente” a eletricidade e a água durante vários períodos e também isolou os reclusos do mundo exterior, retirou o abastecimento de alimentos e reduziu as refeições, bem como fechou uma loja para compras de bens de primeira necessidade.

“Além disso, privou os detidos doentes de serem transferidos para clínicas ou hospitais civis. Também impediu que os presos saíssem para o pátio e interrompeu as visitas familiares”, lê-se n comunicado.

Mais de 6.000 palestinianos, incluindo crianças e mulheres, foram detidos por Israel desde 7 de outubro, elevando o número de prisioneiros nas prisões israelitas para cerca de 9.000 palestinianos.

Contestação em Israel sobe de tom

Centenas de mulheres saíram na quarta-feira às ruas de Israel para exigir ao governo que negocie um acordo para libertar os reféns sequestrados pelo Hamas.

"O tempo esgota-se", advertia o cartaz de uma das manifestantes que bloquearam ruas em Jerusalém como parte do protesto.

Galit Raz Dror, uma das responsáveis pela convocatória, explicou que a iniciativa expressa a raiva das mulheres em todo o país e tem o objetivo de exigir imediatamente um acordo com Hamas.