Presidenciais

Isabel Moreira: “Eu não dispenso nem empresto o meu voto”

10 de janeiro 2026 - 19:31

A deputada socialista Isabel Moreira enviou uma mensagem de apoio a Catarina Martins. lida no almoço de campanha deste sábado em Lisboa. Leia aqui o texto completo.

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Isabel Moreira
Isabel Moreira. Foto de José António Rodrigues/PS

Mensagem de Isabel Moreira lida no almoço de campanha de Catarina Martins em Lisboa a 10 de janeiro de 2026:

Por motivos intransponíveis, não pude vir.

Pedi, assim, que lessem o que gostaria de vos dizer de viva-voz.

Não me sai da cabeça a imagem do último debate das presidenciais.

6 de janeiro de 2026, no ano dos 50 anos da constituição democrática: dez candidatos e uma candidata. Isto é Portugal, mas isto não tem de continuar a ser Portugal e eu não faço 50 anos com a Constituição para emprestar o meu voto a quem quer que seja. É tarde, tenho pressa, temos de ter pressa, parem de pedir às mulheres para serem adiadas. O mundo está como está.

Escrevi que tomo partido por uma mulher de esquerda. 

“Eu sei que estas eleições não são eleições legislativas, mas é preciso tomar partido, é preciso saber de que lado se está”. Foi isto que Catarina Martins afirmou mais do que uma vez desde que é candidata à presidência da república. Depois concretiza e afirma-se de esquerda e não pede desculpa pelo seu percurso partidário.  Não entra em concursos populistas de “independência”. 
Toma partido. Não é porta-voz, nem meio-termo útil, nem messiânica. Toma partido.  Na defesa total do SNS, da habitação, do trabalho com direitos, defendendo a igualdade de todas as pessoas.

De todas as pessoas. Porque a extrema-direita, que já colonizou a direita clássica, nunca quis saber da liberdade e da segurança das pessoas. Sempre quis assegurar a liberdade e a segurança …dos seus. A extrema-direita é, na verdade, um projeto de insegurança.

É por isso que a valente Catarina Martins toma partido, o que antigamente era integridade e agora andam a ver se é coisa de radial.

Toma partido na denúncia da normalização do ódio, porque sabe da vertigem de um mundo novo que ignora lições passadas direcionando a frustração de muitos para categorias de pessoas.

Catarina Martins recusa este novo mundo no qual se mede o preço a pagar por se erguer a voz em defesa de quem é “expulso” da comunidade a que pertence de pleno direito. Os ciganos, depois as mulheres, certas mulheres, depois os imigrantes, em especial certos imigrantes, depois logo se vê.

Catarina Martins não exclui nenhuma destas violências do seu combate, ainda que o amor e a verticalidade não sejam hoje movimentos populares. 

Tomar partido é o novo radical. Eis-nos numa pista traçada por quem dá mais audiência. 

Sou mulher de esquerda, filiada no PS há muito. É sabido o que nos separa. 

Há muito que me aproxima da urgência da afirmação dos valores elementares da esquerda.

E há uma história comum de luta pela devolução de cortes inconstitucionais de subsídios de férias e de Natal a pensionistas e funcionários públicos a partir de pouco mais de 600 euros/mês. E isso não é passado. Lamento, isso é presente, porque não fosse a nossa iniciativa junto do TC, aqueles cortes não previstos em memorando algum, e arrasadores para milhares pessoas e milhares de idosos pobres, poderiam ser ainda agora opção político-legislativa.

Não são. Porque tomámos partido, Catarina.  

É-me particularmente importante votar numa mulher de esquerda, feminista, numa era de triunfo horripilante de homens que fazem da violência machista um produto pop.

Não aceito a violência diária - parece um tiroteio - que nos quer fazer convencer que afinal há apenas uma volta e que o nosso voto só tem um destino.

São demasiados homens a tentarem dizer-nos para não votarmos numa mulher.

Pessoalmente, estou cansada e não estou disposta a não tomar partido pela única candidata de esquerda.

Catarina Martins tem uma coragem enorme. Ela sabe daquela conversa que todos e todas escutámos que nos coloca a nós, mulheres, no lugar de sempre. Trata-se do lugar da estranheza. Do desconforto. No inconsciente coletivo ainda pesa um mundo normativo, social e político feito por homens. Sei que há um automatismo antigo nessa espécie de bênção concedida aos homens: “ele é mais camo”, “ele é mais consensual”, etc. Quando as mulheres surgem no espaço público, ao contrário dos homens, têm o ónus da prova quanto à credibilidade e à autoridade que nos homens é como que natural. Sentimos, na verdade, quando “aparecemos”, que temos de fazer caminhada longa para testar negativo à “ruindade” que nos vem historicamente chapada na cara. Dirá muita gente que isto é um exagero, que mudámos muito, mas lamento informar que séculos de ausência dos nossos corpos e da nossa voz no espaço público levaram a que ainda sejamos, no inconsciente de muitas das cabeças que pensam “ele inspira mais respeito”, figuras fora da norma do poder, figuras subsidiárias, figuras do desconforto. Somos desconforto porque assim que abrimos a boca, ainda que inconscientemente, o mundo patriarcal, que não perde um segundo com a fisicalidade do “ator” masculino (a norma confortável), dispara sobre o nosso tom de voz, averigua acerca da nossa aparência, vigia a nossa “agressividade” e, claro, escrutina meticulosamente cada uma das nossas ações. Seremos credíveis e teremos autoridade se nos aproximarmos da norma, isto é, se quem nos estiver a ver a ouvir sentir que estamos onde o mundo masculino nos quis.

O sistema faz parecer – e fazer parecer é conferir poder – que os homens, por serem homens, não têm, como nós, aquele terrível ónus da prova. É como se soubéssemos, à partida, mais coisas acerca dos homens, pelo que intuímos que “são muito isto” e “muito aquilo” e as mulheres, quando aparecem, no tal mundo que não foi feito para elas, causam desconforto e estranheza.

A verdade é que sabemos o mesmo acerca de toda a gente, mas presumimos, ainda que inconscientemente, que o senhor da gravata é “impecável”, pelo que há que questionar até ao tutano a mulher que avança. Sempre foi assim.

Basta pensar que entre uma figura tão caricatural como Trump nunca foi o candidato mais atingido pelo escrutínio do grotesco. Se não pensarmos coletivamente nas consequências de nada fazermos quanto a isto, estamos muito mal. A questão da credibilidade atravessa a vida das mulheres até à cova. Uma das razões por que nos é tão difícil fazer queixa de certos crimes é o medo que ainda temos de não acreditarem na nossa palavra.

O sexismo mata e dá cabo da nossa credibilidade. E muitas vezes temos medo.

E agora pensem bem no que a Catarina Martins já fez na vida dela. Que mulher! Que Presidente da República!

A validação de metade da população não é reforçada quando em 2026 assistimos a um debate presidencial com uma candidata, feminista, de esquerda, defensora do melhor de abril, com uma vida inteira de provas dadas, mas depois de 8 presidentes homens na primeira república e de 8 presidentes homens na segunda república há quem tenha por ÚTIL que algum ou alguma de nós dispense a Catarina Martins.

Eu não dispenso nem empresto o meu voto porque eu tenho direito a não dispensar convicções. Isto é: a não me dispensar e, por isso, aqui estou para te dizer, Catarina: conta comigo, continua a tomar partido sobre quem somos e queremos ser.         

Força Catarina!

Isabel Moreira