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“Inventamos valentias para as usarmos como carapaças”: à conversa com Regina Guimarães

Uma das mais implacáveis artistas do Porto falou-nos de arte, censura, comunidade, esperança. E partilhou um poema em primeira (segunda?) mão. 
Regina Guimarães na MOP. Fotografia de Estela Silva, Agência Lusa
Regina Guimarães na MOP. Fotografia de Estela Silva, Agência Lusa

Regina Guimarães (1957, Porto) é escritora de poesia e teatro, encenadora, cineasta, e uma das mais implacáveis artistas da cidade do Porto. Não há peso que não seja colocado na balança ou palavra importante que fique por dizer. No contexto do seu confinamento, esteve à conversa (distantemente próxima) com o Esquerda, sobre arte, censura, comunidade, esperança. E partilhou um poema em primeira (segunda?) mão. 

Partindo do verso de Hölderlin que diz "a quoi bon les poètes en temps de détresse" - de que servem os poetas em tempos de angústia - te pergunto: de que serve a poesia, toda a arte, no momento sem precedentes que estamos a viver? 

Os poetas não servem, antes se servem dos tempos de desamparo, ou de outra carência cruel, para transformar o abismo em vista para o abismo. Ao fazê-lo - se puserem a cabeça no cepo e fitarem a mão que empunha e o machado que corta - tornam-se porventura capazes de ecoar um desamparo, um desespero, um desacerto, um desvario que sendo também seu, os ultrapassa em larga medida. Já reparaste que uma laranja descascada à mão espalha mais cheiro - é esse o modo da mão cortante que realça o perfume do tempo.

Ou seja, não servindo nem tendo de servir - passado há muito o tempo em que se acreditava na sua qualidade redentora -, pode a arte ser essa forma também suja, também caída na lama, de ecoar a angústia humana, de libertar o grito? 

Eu diria antes que pode articular outras formas de gritar. O grito pode ser apenas ensurdecedor. A arte (não gosto da palavra porque hoje em dia passou a designar a vanguarda das fantasias financeiras, mas à falta de melhor...) talvez seja capaz de transformar essa energia do grito em desejos e modos de escuta.

E poderá a poesia, na medida em que trabalha a linguagem de um outro modo, resistir ao ruído das fake news, seja porque procura outras verdades, porque à sua maneira pode também suspender a descrença? Ou serão assuntos completamente diferentes?

Se a poesia se travestir de saber ou de poder, entra em competição com toda a paleta do fake. E aí passa a ser o mesmo assunto.

Acreditas que a solidariedade dos artistas tem sido um contributo no reforço da comunidade em contexto de separação e isolamento forçado?

Por onde anda essa solidariedade dos artistas que tão raramente se avista? Apavorados pela possibilidade da exclusão (irónico, não é?), eles auto-censuram-se e contribuem para o hetero-silenciamento. Recentes acontecimentos, imediatamente anteriores ao pandemónio da pandemia, propiciaram-me provas inequívocas (e dolorosas) do que afirmo.

Sim, foste recentemente censurada por uma instituição municipal, o que deu lugar a uma grande polémica, mas não houve muitos artistas a envolver-se nela. Achas que por conforto ou receio de afrontar as instituições?

Eu fui censurada por pessoas concretas, responsáveis por uma instituição municipal, após o que a esmagadora maioria dos trabalhadores dessa instituição tornaram público o seu apoio à direcção que censurou o meu texto, num gesto que não deixou de me trazer à memórias as infelizes manifestações de adesão incondicional ao poder salazarista. Primeiro desconforto, grande desconforto, sobretudo grande tristeza ao ver soprar ventos de outros tempos.
O segundo desconforto foi, efectivamente, motivado pela reacção dos artistas, do Porto e não só: dos que se calaram e dos que julgaram útil prestar vassalagem a quem decide viabilizar ou não os seus projectos. Houve excepções e houve quem pusesse a cabeça no cepo. Colocar num prato da balança os queixumes, lamentos e protestos que se vão ouvindo ao longo dos anos e no outro as palavras desassombradas de defesa da liberdade de expressão - eis um exercício, ao alcance de todos, do qual se pode concluir que o medo subiu ao poder. Grande é a minha gratidão para com os que não pensam como eu mas como eu pensam que o pensamento deve poder fundamentadamente exprimir-se.

Pessoas concretas, claro, referes-te a Tiago Guedes (Diretor do Teatro Municipal do Porto) e Rui Moreira (Presidente da CMP). Em que ponto está agora essa situação, se posso perguntar?

A declaração em defesa da liberdade de expressão que pus a circular juntamente com algumas outras pessoas, nomeadamente a Sara Barros Leitão, reuniu um número considerável de subscritores. Escandalosamente, as pessoas que exerceram censura sobre o meu texto e exerceram inadmissível pressão sobre o dramaturgo e encenador Tiago Correia, acharam por bem assinar essa declaração, numa tentativa de esvaziar o seu conteúdo. Do desprezo altivo com que encararam um acto público de cidadania que envolve centenas de pessoas facilmente se deduz o seu grau de dignidade e aptidão enquanto dirigentes de equipamentos culturais públicos de primeira importância. No acto de entrega da declaração ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro, ao Presidente da Assembleia da República e à Ministra da Cultura foram pedidas reuniões. Duas já estavam agendadas. Uma foi cancelada e outra corre o risco de o ser também devido ao confinamento obrigatório.

Parece-me que, antes de o vírus surgir à nossa porta, já vivíamos numa sociedade de crescente atomização e individualismo - embora curiosamente também de crescente organização coletiva. Mas não notas que, agora que todos temos de estar separados, parece intensificar-se a ideia de comunidade e a vontade de contacto, solidariedade, entreajuda? 

Quero acreditar que esta experiência poderá, no mínimo, fazer sentir a um elevado número de pessoas a falta que nos faz a companhia dos conhecidos e dos desconhecidos, a interacção social, a fraternidade, a poética da presença... Poderá recordar que o nosso combustível é a esperança, mesmo quando vestida de desespero. Poderá levar-nos a uma consciência, aguda porque assente na experiência, de que é possível e necessário viver consumindo menos e convivendo mais. Poderá também trazer-nos desejo de bem comum e de solidão habitada.

As tuas rotinas criativas alteraram-se com a necessidade de confinamento ao espaço doméstico? Bem sabemos que muito prezas esse espaço, mas ele não parece mudar de figura quando passa de gosto opcional para obrigatoriedade imunitária?

A angústia que sinto e se manifesta violentamente várias vezes por dia altera obviamente a «gestão» dessas rotinas. Tento pensar na experiência dos encarcerados para relativizar a pujança dos sentimentos negativos. Tento pensar igualmente na vontade que muitos não-confinados teriam de beneficiar desta medida de isolamento e na fragilização que porventura sentem quando se encontram expostos. Tento pensar na injustiça social que se agiganta face à adversidade.

Será essa então a maior forma de solidariedade? Espreitar por cima da nossa própria angústia e ser capaz de ver "o outro", o que não costuma ser visto, que está na sombra, ou que não tem os mesmos privilégios?

Não, esse é apenas o primeiro passo. A «forma maior» de solidariedade seria, num plano virtual mas passível de nos magnetizar, o desejar ser despojado, o dar-se como a raiz à terra e os ramos ao sol. E, claro, amar a sombra e a pobreza, a primeira no sentido metafórico, a segunda no sentido de frugalidade inebriante.

Sabemos que o medo pode paralisar, mas poderá também ser motor de criação, de luta, de libertação? Mesmo que nos possa ser impossível recusar a angústia e a aflição, já que como seres humanos o sangue nos ferve nas veias, que formas podemos procurar de reinventar a ação em tempos de medo? 

Em tempos de medo, inventamos valentias para as usarmos como carapaças. Mais do que formas de luta, inventamos maneiras de estar na luta - maneiras de persistência, de não largar os fios das meadas e das memórias. É tão importante saber o valor e o sentido transtemporais das derrotas como conhecer o sabor das vitórias. Podemos aprofundar a análise das lutas que travámos e equacionar outras direcções e ferramentas.

Escreveste um poema sobre este momento que vivemos. Podes partilhá-lo? Obrigada Regina. 

Aqui vai em primeira mão esta mão segunda que todos os poemas são:

DEVER GERAL DE RECOLHIMENTO

Na cozinha do rouxinol
toda a música é agora incestuosa
e até o metal dos velhos tachos
se queixa da facilidade
com que ela desenha atalhos entre realidades

A cozinha tornara-se o quarto de brinquedos
com o seu tabuleiro de xadrez  sem casas brancas
com a sua pantera fixada ao comprimento das pestanas
com as suas buzinas a anunciar a sessão de cinema
nem falante nem visual

Era na cozinha que se aperfeiçoavam os excrementos
que se colavam asas às costas dos anjos domésticos
que se alimentava a esperança de matar com um simples insulto
que por fim se admitia a confusão entre ilícito e ilegível
que pelo cheiro se reconhecia a voz inicial da culpa

Pela frincha da porta deixada entreaberta
pelas novíssimas divindades do lar
vejo que na cozinha das insónias
se recebe o segundo cérebro como um rei
em redor de caldos quentes e poções a fumegar
confeccionados por crianças sabedoras de seus herbários
hesitando entre veneno e ambrósia, peçonhas e manjares

E pelo postigo
atrás do qual o coração treme e teme
imagino a cozinha comum reconstruindo-se
graças à argila quente das palavras estranhas
que incorporam as crias e os crimes
como se fossem sinónimos da grande cama onde se nasce
sempre prematuramente
mas sempre

 

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