Inflação está para durar e prejudica mais quem vive do salário e pensão

09 de junho 2022 - 11:43

Nas contas da OCDE, os salários portugueses são dos que mais perdem com a inflação. Estudo do economista Eugénio Rosa conclui que a escalada de preços causada pela guerra e pelas sanções vai agravar ainda mais as desigualdades e a pobreza.

PARTILHAR
Foto de Paulete Matos.

Segundo a OCDE, o salário dos portugueses vai perder em média 3,5% em 2022, devido ao efeito da inflação e à não atualização salarial por parte do Governo. Essa redução do poder de compra é uma das maiores entre os 33 países da OCDE. Embora a inflação prevista de 6,3% para Portugal não seja das maiores neste conjunto de países, a subida prevista do salário médio é das menores, com apenas 2,9%.

No mais recente estudo publicado na sua página, o economista Eugénio Rosa regressa ao tema do efeito da guerra e das sanções no aumento do custo de vida de países como Portugal. Recordando os números do INE que indicam a subida de 16,2% para 18% da percentagem da população portuguesa a viver abaixo do limiar da pobreza entre 2019 e 2020 e o aumento do rendimento dos 10% mais ricos de 8,1 para 9,8 vezes mais que o dos 10% mais pobres, conclui que a atual escalada de preços irá aumentar as desigualdades e a pobreza, com o acelerar da transferência de rendimentos dos mais pobres para os mais ricos.

Sabendo-se que a inflação prejudica quem tem rendimentos fixos e vive do salário ou da pensão, a comparação dos preços de maio de 2022 com o mesmo mês do ano passado revela que o preço dos produtos alimentares aumentou 11,7% e o da energia 27,3%. "Perante esta escalada de preços, que está a agravar muito a vida dos portugueses, o governo mantém-se passivo e nada faz com a desculpa que as petrolíferas não estão a violar a lei e recusa-se a por um teto máximo para os preços dos combustíveis", aponta o economista, a par da recusa do executivo em fazer qualquer ajustamento intercalar nas pensões e remunerações dos trabalhadores da Função Pública.

Famílias mais pobres sofrem em dobro o impacto desta subida de preços

Eugénio Rosa apoia-se nos números da OCDE divulgados num estudo sobre as consequências sociais e económicas de guerra na Ucrânia que concluem que o impacto da subida de preços da energia e alimentação é muito maior nas famílias com baixos rendimentos, dado que representam 28% das suas despesas mensais, enquanto no caso das famílias mais ricas essa proporção diminui para metade, 14%. Ou seja, as famílias mais pobres sofrem em dobro o impacto desta subida de preços, pelo que a ajuda de 60 euros por uma só vez que o Governo atribuiu a quem está abaixo do limiar da pobreza pouco fará para melhorar a situação destas famílias.

"É já evidente, para aqueles que não estejam dominados pela cegueira política, que a guerra não é solução, que só trará mais destruição e sofrimento para os povos europeus, e nomeadamente para os da Ucrânia. É urgente um acordo de segurança na Europa que as armas nunca darão", defende Eugénio Rosa, reconhecendo que "é difícil e mesmo arriscado ser racional e ter uma opinião própria diferente da opinião única dominante".

"As crises são momentos ideais para obter grandes fortunas"

Ainda de acordo com a OCDE, a dependência europeia da Rússia e Ucrânia em bens alimentares e fundamentais ao funcionamento da economia é enorme. Eugénio Rosa aponta que as alternativas para escapar a essa dependência não só não são possíveis a curto prazo como terão custos muito elevados "que os políticos escondem aos europeus que tornará a vida muito mais cara e, em particular, para os portugueses que já estão a sofrer os efeitos da substituição dos antigos fornecedores por fornecedores dos EUA, o Canadá, etc.. com preços muito mais elevados".

Por exemplo, "se as exportações da Rússia e da Ucrânia desaparecerem ou diminuírem para o mercado mundial, a oferta de trigo e milho diminuirá e também das oleaginosas, pois estes países também são grandes exportadores, e os preços aumentarão ainda mais, até porque os especuladores aproveitam a escassez para inflacionar preços e lucros. É o mercado capitalista a funcionar no seu pleno esplendor. As crises são momentos ideais para obter grandes fortunas. E é tudo isto que o governo esquece quando decide e fala das sanções", prossegue Eugénio Rosa.

"Quando o governo de Costa diz que as sanções não têm efeitos para o nosso país, e é fácil para Portugal aplicá-las mesmo de petróleo e gás, ou revelam grande ignorância sobre a forma como funciona uma economia global como é a mundial ou estão a procurar enganar os portugueses", acusa o economista, sublinhando a "ausência total de vontade própria e de uma estratégia própria" da União Europeia, que se limita a seguir as ordens dos EUA. "Não é com palavras e ilusões, e esperando milagres, e ocultando a verdade que se resolvem os problemas", conclui.