Militarismo

A guerra, no centro da economia israelita

22 de novembro 2025 - 16:17

A economia israelita contemporânea foi construída em torno de um elemento central: a defesa. Aqueles que se entusiasmam com o rearmamento da Europa como forma de relançar a sua economia deveriam olhar mais de perto este exemplo.

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Romaric Godin

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Bejmamin Netanyahu com militares em Gaza
Bejmamin Netanyahu com militares em Gaza, abril de 2025. Foto de Haim Zach/Governo deIsrael

A destruição de Gaza e do seu povo não é apenas um projeto político. É também um projeto económico, como confirmou a proposta de “plano de paz” de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, que retoma a ideia de um “Dubai do Mediterrâneo”.

As raízes económicas da tragédia atual são frequentemente ocultadas por discursos ideológicos ou por análises de economistas ou instituições internacionais, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que elogiam a «resiliência» da economia israelita ou consideram que o principal problema são as falhas do sistema educativo. No entanto, embora a economia não seja a única nem mesmo a principal causa dos acontecimentos atuais, o seu papel não pode ser negligenciado.

Para compreender isso, é preciso ter em mente que a economia israelita é uma das mais militarizadas do mundo. Por esta designação, entende-se o cruzamento de várias realidades que, no entanto, conferem ao exército um papel económico central.

Em proporção ao produto interno bruto (PIB), Israel já era, antes da guerra iniciada em 2023, um dos países com os gastos militares mais elevados. De acordo com dados do Banco Mundial, Israel dedicou o equivalente a 4,5% do seu PIB em 2022 a despesas militares. Um valor mais do que o dobro do da França, mas excecionalmente baixo para Israel: entre 2010 e 2021, a proporção variou entre 5 e 6% do PIB.

Embora, de acordo com este indicador, Israel tenha sido ultrapassado em 2022 pela Rússia, devido à invasão em grande escala da Ucrânia, continua a ser um dos países que mais gasta em matéria militar. Em 2022, o Irão gastou 2,1% do seu PIB no exército e os Estados Unidos 3,4%. O Estado hebraico era então o décimo segundo país do mundo em termos de gastos militares em relação à sua riqueza nacional.

A centralidade do exército

É claro que esse nível de gastos pode ser justificado pela situação de segurança do país. Mas o que importa aqui é a centralidade desses gastos no modelo económico israelita.

A análise pode parecer contraintuitiva. Na altura da Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973, as despesas militares atingiram 35% do PIB israelita. Isso resultou numa crise inflacionária que levou, em 1985, a um «plano de estabilização» que fez Israel entrar na era das políticas neoliberais. Desde então, a proporção das despesas militares em relação ao PIB não parou de diminuir.

Evolução das despesas militares em % do PIB. Gráfico ©Mediapart

 

A economia israelita não se libertou, contudo, da sua dependência das despesas militares. Numa obra publicada em 2018, The Israeli Path to Neoliberalism («O caminho israelita para o liberalismo», Routledge, não traduzido), Arie Krampf lembra que, no final da década de 1980, o exército se tornou “um grupo de interesse poderoso, não apenas devido ao seu tamanho, mas também à sua posição estratégica e à sua importância percecionada pelos políticos e pela opinião pública”. Essa posição não mudou em essência, mas sim na forma.

Em meados da década de 1980, o Estado já não era capaz de suportar sozinho o peso dessa centralidade do exército. Perdeu o equilíbrio entre “o peso da segurança e a manutenção de uma economia forte”, resume Arie Krampf. O exército passou então a absorver recursos em excesso. O principal problema das despesas militares stricto sensu é o seu caráter profundamente improdutivo: o seu “consumo” é final e não contribui, por si só, para melhorar o instrumento produtivo geral do país. Em outras palavras, o exército tende a custar caro e a render pouco, o que favorece a inflação no resto da economia.

O nó militar-tecnológico

O financiamento das despesas militares deve, portanto, depender de outros setores. O Estado decide então reduzir o financiamento direto do exército, sem abandonar a militarização da economia. Para Israel, trata-se de tornar a sua indústria de defesa, que se tornou uma das mais importantes do mundo, finalmente produtiva.

Para isso, são favorecidas as sinergias entre o exército e o setor privado. Com um objetivo: desenvolver setores exportadores fortes que, em troca, permitam financiar as despesas militares sem inflação.

Um nó entre o setor da defesa e o da tecnologia é então estabelecido na década de 1990. A escolha dessa especialização não é fruto do acaso: “Foi a tecnologia militar que serviu de precursora direta para a economia do conhecimento israelita, pois foi a primeira indústria em que tecnologias inovadoras foram desenvolvidas em Israel em grande escala”, resume David Rosenberg em uma obra sobre a história da economia tecnológica israelita, Israel’s Technology Economy (“A economia da tecnologia em Israel”, Palgrave Macmillan, 2018, não traduzido).

Logicamente, então, as reformas neoliberais favorecem o uso civil, pelo setor privado, de tecnologias militares, mas também o desenvolvimento de tecnologias civis que serão, posteriormente, reutilizadas no domínio militar. A prioridade de defesa do Estado é, portanto, fundamental. Além das habituais isenções fiscais, as empresas beneficiam de várias garantias públicas implícitas: as tecnologias são testadas e comprovadas pelo exército israelita, que representa um mercado cativo. Tudo isto reduz o risco associado ao desenvolvimento de novas tecnologias e constitui o cerne da “nação start-up” israelita.

É claro que tal especialização não poderia ter-se desenvolvido sem a ligação estreita que Israel mantém com os Estados Unidos. A ajuda direta dos Estados Unidos a Israel, que não está condicionada à compra de material estadunidense, permitiu manter um alto nível de encomendas do exército, especialmente em tecnologias de ponta. Sem contar, é claro, que o setor tecnológico do Estado hebraico se integrou plenamente ao ecossistema do Vale do Silício, que lhe ofereceu oportunidades e financiamento.

Evolução do PIB opr habitante (em dólares constantes e em paridade do poder de compra). Gráfico ©Mediapart.

 

Não é de surpreender, portanto, que o setor tecnológico israelita se tenha desenvolvido fortemente nas décadas de 1990 e 2000, em áreas intimamente ligadas à tecnologia militar: telecomunicações, segurança e informação. “Muitas dessas tecnologias têm origem em aplicações militares, o que dá às startups israelitas e aos seus líderes e militares provenientes do exército uma vantagem sobre a concorrência internacional”, resume David Rosenberg. Ele dá como exemplo o caso das tecnologias relacionadas com carros autónomos, onde muitas empresas israelitas ocupam uma posição decisiva graças às transferências de uso militar, mesmo que Israel nunca tenha tido uma indústria automóvel.

Nas estatísticas, isso levou a uma redução do papel económico direto do exército. Mas, na realidade, a economia israelita permaneceu altamente militarizada. O que aconteceu foi que o Estado conseguiu transformar a prioridade dada à defesa numa fonte de crescimento e não mais num simples custo para o orçamento do Estado. “A posição crucial das Forças de Defesa de Israel [nome oficial do exército – nota do editor] na sociedade israelita é apenas parcialmente refletida nos números”, afirma David Rosenberg.

O “neoliberalismo falcão”

O autor insiste, para além das transferências cruzadas de tecnologias, no que denomina “socialização militar”, que caracteriza de forma muito particular o “capital intelectual utilizado na indústria de alta tecnologia”. Um número ilustra bem isso: em 2013, 89% dos funcionários israelitas do setor eram veteranos do exército. Quando se sabe que esses empregos são, de longe, os mais bem remunerados do país, compreende-se melhor a profundidade desse nó tecno-militar na economia israelita: o exército fornece tecnologias e mão de obra a um setor que financia amplamente a defesa e os seus veteranos.

Com este novo modelo, a economia israelita tornou-se, pelo menos aparentemente, uma das mais dinâmicas do mundo ocidental. Mas este fenómeno levou à criação de uma economia dual. Paralelamente a um setor tecnológico muito produtivo e ligado ao exército, que representa 15% do PIB, o resto da economia é caracterizado por uma produtividade muito baixa. O nível global de produtividade do país é, assim, 6,7% inferior à média dos países da OCDE.

Com baixa produtividade, os setores tradicionais não podem oferecer salários tão elevados quanto os do setor tecnológico. Assim, entre 2012 e 2022, estes últimos aumentaram mais de 50 %, contra menos de 30 % para o resto do setor privado. E, de facto, Israel é um dos países mais desiguais da OCDE, logo atrás dos Estados Unidos. O que tem muitas consequências.

Evolução dos salários nominais nos diferentes setores da economia israelita. © Infografia FMI
Evolução dos salários nominais nos diferentes setores da economia israelita. © Infografia FMI

Em primeiro lugar, para ser rentável, a economia interna israelita deve concentrar-se na renda e no monopólio. É uma economia muito concentrada, cujo principal motor é a bolha imobiliária.

Além disso, os salários reais fora do setor de alta tecnologia estão sob pressão: os trabalhadores e trabalhadoras sofrem o duplo efeito dos monopólios e do aumento dos preços impulsionado pelos altos salários do setor de tecnologia. Para combater o descontentamento que tal situação inevitavelmente gera, a resposta é naturalmente o nacionalismo. Uma retórica identitária e securitária justifica assim os sacrifícios, mas também a centralidade do exército na sociedade.

A manutenção de uma lógica de guerra

Esta economia política particular, que Arie Krampf denomina “neoliberalismo falcão” (“hawkish neoliberalism”), continua, portanto, dominada pela militarização da sociedade. No entanto, mesmo que Israel afirme ter conseguido tornar produtivo o setor da defesa, tal modo de desenvolvimento tem consequências concretas. Se o exército continua a ser central no modelo económico do país, é necessário que seja “útil” e que possa estar ativo para desempenhar o seu papel de “campo de testes” para as tecnologias.

É neste contexto que se deve compreender a aceleração da colonização da Cisjordânia, que permite simultaneamente alimentar o nacionalismo, oferecer a alguns uma saída para a sociedade desigualitária e manter o exército em pé de guerra. Uma solução de paz conduziria, de facto, a problemas graves para a economia política israelita tal como se construiu desde meados da década de 1990. Sem um exército ativo, a dinâmica tecnológica teria dificuldade em manter-se, numa altura em que o resto da economia israelita é pouco produtivo e, por conseguinte, pouco competitivo.

Não só Israel continua vinculado a despesas militares relativamente elevadas, que levam à constituição de stocks que devem ser constantemente renovados para tornar a produção militar rentável, como a parte produtiva da militarização continua altamente dependente da atividade militar.

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Assim, quando ocorreu o massacre de 7 de outubro de 2023, a resposta foi logicamente desproporcional. O conflito que visava a aniquilação de Gaza e de parte da sua população permitiu relançar a atividade militar com a esperança, mal dissimulada, de que isso pudesse sustentar o crescimento do setor tecnológico.

Em julho, a agência Reuters destacou como muitos reservistas regressavam da frente de Gaza com novos conhecimentos e os colocavam ao serviço de empresas que atraíam investidores internacionais. Avi Hasson, do think tank Startup Nation Central, afirmou então que o movimento lhe lembrava a “revolução tecnológica de há vinte anos”, que resultou no nascimento dos smartphones.

Outros também não esconderam que a guerra favoreceria o desempenho das exportações do setor de defesa de Israel, que, em 2024, atingiu o valor recorde de 14,8 mil milhões de dólares, metade dos quais destinados à Europa. Este é um elemento-chave, num momento em que os Estados europeus se comprometem com uma política de rearmamento. “No fim das contas, quando uma parte compra, o que ela quer é o melhor produto possível”, resume à Reuters Yair Kulas, um funcionário do Ministério da Defesa israelita. E o que há de melhor do que uma guerra para provar que as suas armas são “as melhores”?

O massacre de Gaza foi, portanto, acompanhado por um grande avanço tecnológico, nomeadamente com o uso da inteligência artificial. Da mesma forma, a destruição dos pagers do Hezbollah em setembro de 2024 também teve a função de apoiar a capacidade de inovação e o avanço tecnológico do exército israelita.

A guerra não é um infortúnio para a economia israelita, é uma forma de promover o modelo económico do país. Aliás, neste caso, o setor tecnológico é apenas uma das facetas do problema. A destruição de Gaza visa também apoiar outros setores, nomeadamente o da construção, que estava em crise desde a pandemia da covid, com os projetos faraónicos propostos por Telavive e Washington.

O que os economistas chamam de «resiliência» da economia israelita é apenas o resultado da integração da guerra no seu modo de funcionamento. Assim, o crescimento de 2023 e 2024 baseia-se em despesas militares amplamente financiadas pelas exportações de serviços tecnológicos.

O caso israelita deve alertar a opinião pública ocidental. É claro que a situação deste Estado é particular e explica em grande parte a centralidade do exército no seu modelo económico. E, claro, esta questão económica não esgota as outras causas do genocídio em curso. Mas a situação do país também nos lembra que não se pode construir inocentemente uma “economia de guerra”.

Aqueles que se entusiasmam com o rearmamento da Europa como forma de relançar a sua economia deveriam olhar mais de perto. Quando o setor da defesa se torna um meio central, direta ou indiretamente, para promover a acumulação de capital, a economia torna-se dependente da guerra, que se torna indispensável para promover a exportação de armas, renovar o stock existente e estimular a “inovação”.


Romaric Godin é jornalista do Mediapart especializado em macroeconomia, foi correspondente do La Tribune na Alemanha entre 2008 e 2011. Artigo originalmente publicado no Mediapart a 8 de outubro de 2025.