Greve Climática Estudantil já está em construção para ocupar as ruas na sexta-feira

22 de março 2022 - 8:24

Sob o lema “People, not profit”, o movimento internacional Fridays for Future voltou a lançar um apelo à ação por justiça climática. O Esquerda.net ouviu ativistas do Porto, Braga, Lisboa e Faro sobre a preparação da Greve Climática Estudantil da próxima sexta-feira.

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Fotos da Greve Climática estudantil.

25 de março é dia de mobilizações climáticas por todo o país: Braga, Algarve, Coimbra, Lisboa, Odemira, Porto, Viseu e Caldas da Rainha serão palco de iniciativas por Justiça Climática.

O tema e a data foram votados a nível internacional. Mas a Greve Climática Estudantil (GCE) tem um espaço nacional onde são coordenadas “as várias vontades e intenções dos vários núcleos”, explicou Diogo Martins, de Faro, ao Esquerda.net. “Existem reivindicações com caráter mais local que, ainda assim, exigem políticas nacionais”, assinalou o ativista.

De acordo com Catarina Barbosa, da GCE do Porto, as e os ativistas portugueses, em inúmeras reuniões realizadas ao longo do tempo, criaram grupos de trabalho para elaborarem o manifesto nacional ou garantirem todas as questões associadas à comunicação do evento.

Já a nível local, cada núcleo goza de autonomia para organizar as suas próprias ações. São promovidas reuniões abertas, que visam envolver mais pessoas na construção da Greve Climática. No caso do Porto, a par do grupo de Whatsapp de ativistas mais comprometidos com a organização da iniciativa, existe também um grupo de informações, que reúne pessoas que apoiam a luta por justiça climática.

As redes sociais são um meio privilegiado para divulgar e mobilizar entre as camadas mais jovens. “As pessoas perguntam-nos como é que podem ajudar a construir a greve, querem participar”, descreve Diana Neves.

Já no que respeita ao contacto presencial, e tal como acontece em Faro e no Porto, em Lisboa “a mobilização é feita sobretudo nas escolas”, referiu a ativista. O mesmo se verifica em Braga, onde, segundo relatou Luís Barbosa, já foram feitas diversas distribuições de panfletos em vários estabelecimentos de ensino da cidade., tal como em Guimarães.

Artivismo nos cartazes, faixas e pancartas

A mobilização passa também pela colagem de cartazes e pela dinamização de verdadeiras “oficinas” onde são produzidos materiais para as manifestações do dia 25 de março. São sessões de “artivismo, onde misturamos a arte com ativismo climático”, clarificou Diogo Martins.

Colagem de cartazes no Porto.

Em Braga, já existiu uma oficina de preparação de cartazes no sábado e irá realizar-se outra na quinta feira. “Levamos caixas de ovos para misturar as tintas, alguém leva lençóis, recolhemos cartões nos dias anteriores em lojas e outros locais”, relatou Luís Barbosa.

Oficina de cartazes em Braga, Avenida Central.

O local escolhido para esta sessão é estratégico: a Avenida Central, “uma praça grande com muita visibilidade”. “As pessoas que estão a passear por ali normalmente veem-nos, aproximam-se para ver o que é que se passa, algumas juntam-se, outras ficam só a olhar… aproveitamos sempre para meter conversa com elas e explicar o que estamos a fazer e o que pretendemos com esta greve", avançou o ativista bracarense.

Oficina de cartazes em Braga, Avenida Central.

"Cada pessoa faz o seu cartaz. Algumas deixam-nos ali para serem distribuídos durante a manifestação, outras levam-nos para casa e depois trazem-nos para a iniciativa”, continuou.

Nesta cidade nortenha, a GCE está em contacto com muitos outros coletivos, “de áreas diferentes”, valorizando-se a “interseccionalidade das lutas”. Luís Barbosa apontou que um coletivo de estudantes feministas da Universidade do Minho esteve a distribuir panfletos nesse estabelecimento de ensino. E mencionou que o grupo Rebelião Climática, com “malta mais velha”, está a “ajudar a trazer o tópico das alterações climáticas para a agenda e a ajudar o núcleo da GCE a funcionar”.

No Porto também se estabelecem parcerias, por exemplo com o movimento Extinction Rebellion (XR) e, no Algarve, a GCE está envolvida localmente no programa Scianema, juntamente com a Europe Direct Algarve e a Sciaena, o que implica a organização de iniciativas nas escolas, por exemplo.

Apesar de assumir que “o tema do clima deixou de estar tanto na moda”, Catarina Barbosa espera uma forte mobilização para a greve de sexta-feira, até porque “as pessoas estão a querer voltar para as ruas”.

Oficina de cartazes no Porto.

"É preciso mudar a forma como organizamos a sociedade”

Do manifesto nacional da GCE, Catarina Barbosa destaca a “ideia de que a justiça climática tem de ser uma justiça social, não basta salvar os ricos”, e de que “com a luta climática têm de vir todas as outras lutas”. E é por isso mesmo que a greve climática se associa a outros movimentos.

Oficina de cartazes no Porto.

Luís Barbosa, por sua vez, defende que há duas mensagens especialmente fortes neste manifesto”. Uma diz respeito à necessidade de “mudar para um sistema que privilegie as pessoas e não o lucro”. Outra passa por uma questão com caráter mais nacional, e que diz respeito à oposição do extrativismo, “tanto em terra como no mar”. Sobre esta questão, o ativista alertou para a urgência de adotar uma moratória internacional que não permita a mineração em alto mar. Até porque, não existindo legislação sobre a matéria, e tendo existido já um país que permitiu esta atividade na sua zona económica exclusiva, se esta questão não for regulada no espaço de dois anos, o procedimento passa a ser legal. “Estamos a pouquíssimo tempo disso acontecer”, lamentou Luís Barbosa.

Diogo Martins também salientou a “importância dos oceanos para a luta contra as alterações climáticas”.

“Sabemos que 90% das emissões em todo o mundo estão retidas nos oceanos, e por isso é que eles são também muito importantes na luta contra as alterações climáticas”, afirmou o ativista. Frisando que este é um “tema muito esquecido na luta por justiça “, defendeu que o mesmo “deve também marcar a agenda”. Diogo Martins condenou as práticas de pesca insustentável e a aposta na mineração no mar profundo, referindo o risco de esta atividade trazer para a atmosfera gases que se depositaram no fundo do mar e estão nas correntes.

O ativista enfatizou que “o cenário climático que atravessamos atualmente consuma-se como um resultado histórico de um passado colonialista, de segregação social e também de extrativismo crescente dos recursos naturais”, e que é preciso não esquecer que as “pessoas de áreas mais afetadas já estão a sofrer há décadas das consequências mais pesadas das alterações climáticas”. Acresce que estas populações “são constantemente marginalizadas pela falta de solidariedade de quem é mais responsável – os países do norte global”.

Diogo Martins defendeu que “é preciso mudar a forma como organizamos a sociedade, a forma como consumimos, como nos transportamos, como produzimos” e “começar a priorizar a vida e a justiça para todos os povos, e não apenas o lucro”.

A GCE de Lisboa optou por ter um manifesto próprio: “quisemos concentrar-nos na mensagem que realmente queremos transmitir”, explicou Diana Neves. A ideia passou por tornar o documento “mais chamativo e mais curto”.

“O que pretendemos transmitir aos jovens e a todas as pessoas que se sintam interessada na causa é que o sistema capitalista em que nós vivemos continua desenfreadamente a explorar as pessoas e a explorar os recursos limitados que temos. No pouco tempo que temos para realmente mudar o rumo, precisamos de fazer uma mudança sistémica na estrutura do sistema em que vivemos e fazer a transição do capitalismo fóssil para uma sociedade que assenta em energias renováveis”, vincou.