O governo da Índia voltou a atacar jornalistas renomeados com o software de espionagem israelita Pegasus, afirmaram a Amnistia Internacional e o The Washington Post numa investigação conjunta publicada quinta-feira. Criado pela empresa israelita NSO Group, o Pegasus pode ser usado para aceder a mensagens e emails de um telefone, ver fotos, escutar chamadas, apurar a localização de um dispositivo e, inclusive, filmar o seu proprietário com a câmara.
De acordo com a Amnistia Internacional, os jornalistas Siddharth Varadarajan do The Wire e Anand Mangnale do The Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) foram alvo do software de espionagem israelita nos seus iPhones.
O OCCRP publicou uma investigação em agosto sobre as negociações financeiras do magnata indiano Gautam Adani, um importante aliado comercial de Modi. O conglomerado de Adani perdeu mais de 100 mil milhões de dólares no início deste ano, depois de uma empresa de investimento americana ter feito alegações explosivas de fraude contabilística, que a empresa indiana rejeitou como uma "campanha de difamação" organizada. Mangnale disse à AFP que foi alvo “poucas horas” depois de enviar perguntas ao Grupo Adani em nome do OCCRP. “Não posso culpar o Grupo Adani ou o Governo da Índia por isso, porque ainda não temos provas, mas a cronologia em si é realmente reveladora", vincou.
Já Varadarajan, do The Wire, sugeriu ao The Washington Post que tinha sido alvo de espionagem por liderar a oposição à detenção de um importante editor de notícias em Nova Deli.
Donncha O Cearbhaill, chefe do Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional, alertou que, “cada vez mais, os jornalistas na Índia enfrentam a ameaça de vigilância ilegal simplesmente por fazerem o seu trabalho”.
Essa ameaça agrava um clima já hostil para os jornalistas que também enfrentam “prisão ao abrigo de leis draconianas, campanhas difamatórias, assédio e intimidação”, acrescentou.
Em 2021, Nova Deli já tinha sido acusada de recorrer ao Pegasus para vigiar jornalistas, políticos da oposição e ativistas, com o software a ser usado em mais de 1.000 telefones indianos. O principal rival político do primeiro-ministro Narendra Modi, Rahul Gandhi, encontrava-se entre os visados.
O governo negou a realização de "vigilância ilegal", mas recusou-se a cooperar com uma investigação do Supremo Tribunal sobre as alegações, cujas conclusões não foram tornadas públicas.
Desde 2014, altura em que Modi assumiu o poder, a Índia caiu 21 posições, para 161º entre 180 países, no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa, compilado pela Repórteres Sem Fronteiras.