Os "Predator Files" são a mais recente fuga de informação e documentos a dar origem a uma parceria internacional de investigação jornalística. Os documentos recolhidos pelo portal francês Mediapart e a revista alemã Der Spiegel têm sido analisados pela rede de jornalistas European Investigative Collaborations (EIC) que inclui 15 órgãos de comunicação de vários países, com o apoio técnico do Security Lab da Amnistia Internacional.
O nome Predator diz respeito ao software espião para telemóveis vendido pela empresa francesa Nexa a países como o Egito, Vietname e Madagáscar, mas que também é usado para espionagem política na Europa, como mostrou no ano passado o escândalo do "Watergate grego". No Egito, já foi descoberto que um antigo e um atual candidato à presidência da República contra al-Sissi foram alvo da espionagem deste software. O Mediapart avança que a Nexa também forneceu software que permite a vigilância em massa das comunicações na Internet a outras ditaduras, com o conhecimento dos serviços secretos franceses e o silêncio de Emmanuel Macron, com quem a empresa tinha canais de acesso direito. Para esta semana o Mediapart promete revelar como a investigação judicial a este caso acabou por ser travada pelo procurador nacional antiterrorismo e por um ministro.
A aliança entre a Nexa e a Intellexa, um grupo também sediado na Europa mas formado em grande parte por antigos responsáveis dos serviços secretos israelitas, reunindo consultores como o ex-primeiro-ministro Ehud Olmert, está também na mira da investigação. Desde julho na "lista negra" das sanções dos EUA, foi a Intellexa que produziu o software Predator, que permite não só extrair todos os conteúdos do telemóvel infetado como ativar o microfone e a câmara desse telemóvel sem o conhecimento do seu dono, um pouco à semelhança do software Pegasus, também concebido por uma empresa israelita e usado por ditaduras e não só. Vários dirigentes políticos envolvidos no "procés" catalão que resultou no referendo de 2017 vieram depois a saber terem sido alvo do Pegasus. O mesmo aconteceu ao telemóvel do primeiro-ministro espanhol e da sua ministra da Defesa no auge do conflito que então mantinha com Marrocos.
As escutas telefónicas a que os jornalistas tiveram acesso tiram todas as dúvidas a quem as tivesse sobre o eventual desconhecimento dos responsáveis da Nexa acerca da finalidade do produto que vendiam. Caso a imprensa saiba que o Predator foi vendido ao Egito, "estamos mortos", dizia o patrão da Nexa.
Em França, os jornalistas do Mediapart encontraram para já um muro de silêncio quer da parte da da Presidência ou dos ministérios clientes da Nexa e responsáveis pela exportação de sistemas de vigilância, quer dos donos da Intellexa. A Nexa respondeu com um comunicado genérico onde afirma cumprir todos os regulamentos e se queixa da perseguição mediática e judicial que diz sofrer.
Em Portugal, o Expresso também integra a rede de jornalistas e dá conta que a Nexa vendeu tecnologia de vigilância eletrónica a mais de 20 países na última década, incluindo os europeus Alemanha, Áustria, Suíça e França, mas também regimes como o do Catar, Emirados, Singapura, Congo e Paquistão.
Segundo este semanário, o requisito habitual para que o telemóvel passe a estar sob controlo deste software - o utilizador clicar sem saber num link que imita sites verdadeiros, como órgãos de informação ou redes sociais - pode ser contornado com uma carrinha equipada com uma torre de interceção, capaz de colocar o Predator em qualquer telemóvel num raio de 500 metros.
A Nexa exportou com autorização de Paris este software para o Egito, Catar e Singapura. Mas para alargar o seu raio de clientes e escapar às regras mais apertadas na UE, decidiram instalar uma empresa no Dubai, onde não existe risco de serem negadas as licenças de exportação.