Governo francês vigia 10.000 pessoas por serem de “ultra-esquerda”

06 de outubro 2023 - 13:51

3.000 delas estão no patamar mais elevado de vigilância. Em comissão parlamentar de inquérito, o ministro do Interior francês desvaloriza a violência policial contra manifestantes.

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Gérald Darmanin. Foto de Jacques Paquier/Flickr.
Gérald Darmanin. Foto de Jacques Paquier/Flickr.

O ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, declarou esta quinta-feira numa comissão parlamentar de inquérito que o Estado vigia 10.000 pessoas por serem de “ultra-esquerda” e que 3.000 delas estão mesmo avaliadas no patamar mais elevado de vigilância, a chamada “ficha S”, abreviatura de “Segurança de Estado”.

Nas palavras do governante, isso não quer dizer que tenham “cometido obrigatoriamente atos repreensíveis” mas podem “estar em contacto, financiar ou ter uma ligação muito próxima com alguém que o pode fazer”.

A definição de “ultra-esquerda” de Darmanin é elástica e inclui quer os chamados “black blocs” quer os ecologistas como os que se manifestaram contra as mega-bacias de Sainte-Soline, os que resistiram à construção de um aeroporto em Notre-Dame-des-Landes, ou a uma barragem em Sivens e que já tinha denominado como “ecoterroristas”. Segundo ele, trata-se de “advogados, médicos, e nunca o operário em cólera da fábrica que fechou” ou então “filhos de boas famílias”.

Para além desta “ultra-esquerda”, o Estado francês considera no patamar da “ficha S” 5.300 pessoas que vê como “islamitas” e 1.300 elementos de “ultra-direita”.

Sobre a atuação violenta das polícias nas manifestações justificou que estas “têm o direito de utilizar esta violência” e que “a questão não é saber se há feridos ou por vezes mortos” porque seria “um mau debate mediático” julgar uma operação policial de acordo com “o número de feridos e eventualmente o número de mortos”.

Nas manifestações em Sainte-Soline, a intervenção policial causou 200 feridos, 40 em estado grave. Um relatório de especialistas independentes, encomendado pela Liga dos Direitos do Homem, chegou à conclusão que o Estado foi responsável por um “uso desproporcional das armas”.

Também no mapa digital mundial da repressão de protestos, lançado pela Amnistia Internacional no mês passado, o Estado francês surge identificado por tratar o protesto “como uma ameaça”, por usar força “ilegalmente contra manifestantes” e usar armas não letais de forma incorreta, para além da sua “legislação repressiva”.