Apagão

Governo espanhol culpa grandes elétricas e gestora da rede

20 de junho 2025 - 10:50

O relatório da Comissão Interministerial foi divulgado esta terça-feira. A pedido das empresas energéticas não nomeia quais foram responsáveis pelo apagão. Mas a imprensa revelou que a origem está na megacentral fotovoltaica da Iberdrola em Badajoz.

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Eletricidade. Espanha
Foto Wikimedia Commons

A Comissão Interministerial criada pelo governo espanhol para analisar as causas do apagão elétrico do passado dia 28 de abril na Península Ibérica concluiu que houve uma combinação de falhas com origem “multifactorial” na base do incidente. As culpas ficam assim repartidas pelo gestor da rede, a Red Eléctrica (REE), com uma participação estatal de 20%, e por algumas das principais empresas privadas produtoras de eletricidade.

O organismo criado dois dias depois do apagão especificamente para realizar esta tarefa chega agora ao fim depois de ter trabalhado 170 GB de informação. Mas teve de disputar o acesso a esta informação porque as empresas do setor negaram divulgar partes dos dados, “restrições” que ficaram registadas por escrito.

Esta terça-feira, Sara Aagesen, ministra para a Transição Energética, apresentou o relatório final, sublinhando que houve sobrecargas de tensão na rede que não foram neutralizadas. A ministra revelou que na noite anterior ao incidente a REE tinha planificado que dez centrais iriam estar disponíveis, o número “mais baixo desde o início do ano”, recordou o Governo espanhol. Nessa mesma noite, uma delas comunicou que não iria estar operacional mas a REE “decidiu não ativar nenhuma”, entendendo que já “havia reservas de geração suficientes para responder” a eventuais oscilações, o que é apontado como um erro de planificação.

As sobrecargas foram primeiro detetadas numa central de Granada, depois nas de Badajoz e Sevilha e em seguida em Segóvia, Huelva e Cáceres.

O relatório indica quatro fases que levaram ao apagão: a instabilidade de tensão já detetada em dias anteriores; as primeiras oscilações ocorridas cinquenta minutos antes deste; as perdas de geração depois delas; e a desconexão total do sistema.

A REE terá sido responsável pelo aumento da tensão ao tentar controlar as fortes oscilações de frequência que se fizeram sentir. No caso das empresas elétricas, vinca-se que vários dos disparos por segurança aconteceram indevidamente e suspeita-se de incumprimento dos protocolos previstos para situações de sobrecarga de tensão.

Aagesen concluiu ainda que “o sistema não conta com suficiente capacidade de controlo das tensões”, estando a norma em vigor desatualizada. Um novo sistema de controlo tinha já sido apresentado em novembro de 2024 mas a Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência (CNMC) não decidiu desde então sobre a sua aplicação.

A governante terminou assegurando que no próximo Conselho de Ministros será aprovado um pacote de medidas que fará com que o apagão “não volte a acontecer”. A Comissão Nacional da Energia, um organismo também já anunciado há mais de um ano, começará finalmente as suas funções e a CNMC aprovará o sistema de controlo que fará com que a produção de renováveis controle a tensão.

Das recomendações do relatório constava já a “aprovação e implementação urgente do novo serviço de controlo de tensão” e também a “aceleração da adequada dotação da Comissão Nacional de Energia”.

Governo oculta quais as elétricas que falharam, imprensa aponta fotovoltaica da Iberdrola na origem dos eventos

Os termos do relato da ministra espanhola responsável pela energia não são, contudo, concretos, nota o El Diário. Tinha sido prometida “total transparência” mas, no fim de contas, a pedido das empresas acabou por não se saber quais as instalações em concreto que falharam.

“Algumas” das centrais a gás que poderiam regular a tensão não o fizeram e uma, afirma-se, “inclusivamente produziu energia reativa, o contrário do requerido, contribuindo para incrementar o problema”.

A versão “não confidencial” do relatório, que deveria ter sido publicada à tarde, só foi tornada pública às 23 horas desta terça-feira e tem várias frases cortadas a negro por questões de “confidencialidade”.

Aagesen justifica que haverá procedimentos administrativos e judiciais para determinar responsabilidades. Em causa podem estar ainda processos com pedidos indemnizações milionários por parte de pessoas e empresas afetadas pelo apagão.

A associação patronal aelec, à qual pertencem a Iberdrola e a Endesa, assegura haver provas que as centrais propriedade dos seus associados “cumpriram os requerimentos regulatórios em matéria de controlo de tensão”.

De acordo com o El Diario, na origem da sequência de acontecimentos que provocaram o apagão estiveram oscilações anómalas na geração de energia da central fotovoltaica Nuñez de Balboa, propriedade da Iberdrola na província de Badajoz. Trata-se de um dos maiores parques solares espanhóis que meia hora antes do apagão produzia 250MW. “Em poucos segundos, a geração da unidade oscila com uma amplitude pico-pico de cerca de 70% da produção que tinha imediatamente antes da oscilação. Este comportamento contrasta com o de outras unidades da mesma tecnologia ligadas no mesmo nó ou em nós próximos”, diz o documento do Governo. O relatório acrescenta que essa oscilação “é mais própria de tecnologias síncronas”, como o nuclear ou o gás do que uma unidade fotovoltaica “que está sujeita a um fator de potência fixo” e na qual “o calor de potência de saída, especialmente a ativa, deveria ser constante”.

Analisadas as condições da rede no ponto de ligação desta unidade, o relatório da Red Eléctrica espanhola concluiu que “é provável que a oscilação fosse causada por um mau funcionamento de um controlo interno ou por uma anomalia interna da unidade, que deverá ser esclarecida pelo proprietário da mesma”.

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