Gaza: OMS quer corredor humanitário, ONU diz que o cerco pode ser crime de guerra

10 de outubro 2023 - 17:10

Número de deslocados devido aos bombardeamentos subiu para 187 mil. Israel não poupa edifícios civis nem ambulâncias em Gaza, enquanto prepara invasão terrestre.

PARTILHAR
Gaza esta terça-feira após os bombardeamentos de Israel.
Destroços em Gaza esta terça-feira após os bombardeamentos de Israel. Foto Mohammed Saber/EPA

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, os bombardeamentos já fizeram mais de 770 mortos e quatro mil feridos. A embaixada israelita nos EUA divulgou um balanço dos ataques do Hamas desde sábado, contabilizando 998 mortos e mais de 3.400 feridos.

As tropas israelitas recuperaram o controlo das zonas de fronteira por onde os militantes do Hamas passaram para executar os ataques de sábado. Daniel Hagari, o porta-voz militar de Israel, diz que os soldados estão agora a colocar minas nesse terreno para prevenir futuras incursões, embora assegure que elas deixaram de acontecer desde segunda-feira. Por seu lado, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, respondeu aos apelos para a libertação de reféns - que as autoridades israelitas calculam entre 100 e 150 pessoas -, afirmando que só irá negociar a troca de prisioneiros após o fim da guerra.

Nas redes sociais, a força aérea israelita anunciou na manhã de terça-feira o lançamento de um "ataque generalizado contra alvos terroristas em Gaza". Mas os ataques israelitas a alvos civis foram novamente denunciados pelo responsável das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que refere bombardeamentos a edifícios residenciais, escolas e edifícios da ONU em Gaza. "A lei humanitária internacional é clara: a obrigação de assegurar constantemente que a população civil é poupada permanece aplicável durante os ataques", afirmou Volker Türk numa declaração citada pela Reuters. Em resposta ao ministro da Defesa israelita, que na véspera tinha ameaçado com um cerco total a Gaza, o responsável da ONU reafirmou que os cercos que põem em risco as vidas de civis estão proibidos à luz do direito internacional, podendo assim constituir um crime de guerra.

A Comissão de Inquérito aos Territórios Palestinianos Ocupados diz que já há provas claras de que foram cometidos crimes de guerra nos últimos dias e defendeu que os responsáveis pela violação das leis internacionais ao atingirem civis terão de ser responsabilizados pelos seus crimes. A Comissão considera que a tomada de civis como reféns e o seu uso como escudos humanos constitui crime de guerra. E manifestou preocupação com as ameaças de um cerco total a Gaza, envolvendo a privação de água, alimentos, eletricidade e combustível que resultarão em vítimas civis e constituem uma punição coletiva. Além do apelo à proteção de civis e ao fim da violência, esta Comissão apela aos grupos armados palestinianos para libertarem sem condições todas as pessoas que tornaram reféns.

O coordenador dos Médicos Sem Fronteiras, Matthias Cannes, relatou que "o nossos colegas palestinianos trabalham dia e noite para fazer face ao afluxo de feridos" e que muitos destes profissionais de saúde "abandonaram as suas casas com medo de que sejam atingidas". Darwin Díaz, coordenador médico da organização em Gaza, diz que "as ambulâncias não podem ser usadas agora, porque estão a ser atingidas por ataques aéreos". Outro alvo dos bombardeamentos foi a passagem de Rafah, entre a Faixa de Gaza e o Egito, a única saída de civis palestinianos na fronteira sul de Gaza.

Um porta-voz da Organização Mundial de Saúde defendeu a abertura de um corredor humanitário até à Faixa de Gaza "para fornecer suprimentos médicos essenciais às populações", numa altura em que o território está sob bombardeamento e totalmente bloqueado por Israel. "Os hospitais não podem funcionar sem combustível, sem eletricidade. Os suprimentos que pretendemos transportar já estão num nível baixo, por isso precisamos que estes produtos cheguem", afirmou Tarik Jasarevic em Genebra.

Entretanto as Nações Unidas atualizaram o número de deslocados na Faixa de Gaza na manhã de terça-feira, após três dias de bombardeamentos, para mais de 187 mil pessoas, o que representa um aumento de 64 mil deslocados em relação à véspera. A maioria destes deslocados (137.500 pessoas) estão alojados em escolas administradas pelas Nações Unidas, em instalações cujas condições são apresentadas como "extremamente precárias" e com acesso limitado a água potável.