Está aqui

GameStop: uma “Revolução Francesa na alta finança”? Não exatamente

A ação concertada das redes sociais contra as apostas dos fundos de investimento fez disparar os alarmes em Wall Street. Mas terá a alta finança razões para se preocupar? Artigo de Vicente Ferreira.
Loja GameStop. Foto JJBers/Flickr

O caso da GameStop explodiu na semana passada mas continua a figurar entre os destaques de boa parte da imprensa económica. As proporções que o caso tomou após a cotação bolsista da empresa, que atravessava dificuldades financeiras, ter aumentado mais de 1000% no espaço de poucas semanas, fez com que esta captasse atenções um pouco por todo o mundo. E tem motivado diferentes análises sobre os mercados financeiros.

Anthony Scaramucci, antigo conselheiro de Trump e famoso investidor bolsista, disse que estamos a viver “uma Revolução Francesa na alta finança”. À primeira vista, a atuação concertada dos pequenos investidores, que causou prejuízos significativos aos dois fundos de investimento que apostaram na queda da GameStop, podia parecer um golpe de mestre. Houve quem lhe chamasse “um ato de revolta contra a máquina financeira”. No Reddit, onde tudo começou, alguns utilizadores impeliam os outros a participar na “oportunidade única de punir o tipo de pessoas que causou tanta dor há uma década”, em referência ao papel dos bancos na crise financeira de 2007-08. Mas, no fim do dia, quão eficaz é a jogada?

No Financial Times, Merryn Webb apresenta uma perspetiva mais crua: o caso pode ter aberto telejornais, mas não terá aberto uma crise nos gigantes financeiros, já que os ganhos dos bancos dependem mais das comissões que cobram do que dos investimentos que fazem. “Como forma de combate a Wall Street, é infrutífero”, explica Webb. Por outro lado, a redistribuição de riqueza também não deverá acontecer, uma vez que o valor das ações está manifestamente desligado da realidade da empresa e tenderá a cair a partir de determinado momento, penalizando quem investiu nas ações. É isso que leva a autora a concluir que “provavelmente, a história sobre justiça social é simplesmente isso: uma história”. Apesar disso, Webb vê nesta nova forma de “ativismo financeiro” uma possibilidade de condicionar a atuação das empresas, forçando-as a promover comportamentos mais responsáveis através da pressão dos pequenos investidores que as podem premiar ou penalizar consoante as suas práticas. A porta para a Revolução Francesa na finança poderia, por isso, estar aberta.

Nem todos partilham deste otimismo. Na Tribune Magazine, Grace Blakeley explica porque devemos olhar com desconfiança para este fenómeno. Blakeley começa por notar que o argumento da responsabilização das empresas já foi feito na altura em que despontaram os fundos privados de pensões, embora nunca se tenha materializado. Além da dificuldade que a atuação organizada de milhares de pensionistas teria, o principal problema é que a riqueza está distribuída de forma cada vez mais desigual. “Por outras palavras, os pensionistas não são uma classe – não partilham um conjunto de interesses comuns que os poderia unir na agitação para promover justiça social”. O mesmo se aplica, na opinião da autora, aos utilizadores do Reddit: tratam-se de norte-americanos que aproveitaram os “cheques-estímulo”, concedidos pelo governo, para investir na bolsa, o que os coloca entre as classes médias e médias-altas que apenas têm em comum o facto de não atravessarem dificuldades para fazer face às despesas do dia-a-dia.

Blakeley discorda que esta atuação possa constituir um tipo de organização social consequente. Por um lado, não coloca em causa os mecanismos de acumulação de capital (na verdade, participa neles, ao apostar na valorização bolsista de uma empresa e na remuneração dos seus acionistas). Por outro, não expõe um antagonismo social entre diferentes classes. No entanto, tem um aspeto importante: o de recordar que a transformação social depende da organização coletiva.

O que este caso mostra, novamente, é o que se tornou claro após a última crise: os mercados financeiros geram, no seu funcionamento normal, as próprias condições de instabilidade e crise. A conclusão já fora formulada em 1992 pelo economista Hyman Minsky, que desenvolveu a Hipótese da Instabilidade Financeira. A ideia central é que os períodos de estabilidade nos mercados financeiros aumentam a apetência dos investidores pelo risco (devido à expectativa de maior retorno dos investimentos), favorecendo a formação de bolhas especulativas que, eventualmente e inevitavelmente, rebentam. “A estabilidade é desestabilizadora”, explicou Minsky. A repetição cíclica das crises parece dar-lhe razão.

É por isso que o que aconteceu com a GameStop está longe de ser uma Revolução Francesa. O alcance da atuação de pequenos investidores é bastante limitado e, por isso, inconsequente. Os limites deste tipo de atuação apontam, na verdade, o caminho necessário: para resolver problemas coletivos, são precisas respostas coletivas ao nível da organização social, da regulação financeira e da redistribuição de riqueza. No fim do dia, o papel da democracia na definição de regras continua a ser decisivo.

Sobre o/a autor(a)

Economista
Termos relacionados Internacional
(...)