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GameStop: quando a especulação se vira contra os especuladores

2021 mal começou, mas os mercados financeiros já estão a viver aquela que se pode tornar na história do ano. Artigo de Vicente Ferreira.
Loja da Gamestop num centro comercial na Florida em liquidação no fim de 2020.
Loja da Gamestop num centro comercial na Florida em liquidação no fim de 2020. Foto Keith C/Flickr

2021 mal começou, mas os mercados financeiros já estão a viver aquela que se pode tornar na história do ano. A protagonista é a GameStop, empresa norte-americana de comércio de videojogos fundada em 1984 em Dallas, no Texas. Isso e um conjunto de pequenos investidores anónimos que fez com que a empresa tenha registado, só neste mês, uma valorização bolsista de cerca de 1.800%. Como explicar esta ascensão meteórica?

Comecemos pelo princípio. A GameStop encontra-se numa situação financeira difícil, já que boa parte dos seus estabelecimentos de venda está fechada devido ao confinamento. À semelhança de muitas outras empresas no setor do comércio, tem passado por dificuldades durante a pandemia. Foi nesse contexto que dois grandes fundos de investimento norte-americanos, a Citron Capital e a Melvin Capital, viram uma oportunidade de negócio. Os fundos decidiram, por isso, apostar na queda do valor das ações da empresa, à semelhança do que costumam fazer noutras situações. A ideia é relativamente simples: os fundos apostam na queda do valor das ações, o que envia um sinal ao resto do mercado de que a empresa poderá estar a enfrentar problemas de liquidez, reforçando a desconfiança dos investidores. Uma espécie de profecia auto-realizada.

Os dois fundos de investimento começaram a fazer aquilo a que se chama “shortselling”, que se pode traduzir como a tomada de “posições a descoberto”: os fundos pediram emprestadas ações da GameStop e venderam-nas de imediato ao seu valor de mercado, ficando a dever as ações a quem as emprestou. A expectativa é a de que, quando o seu valor cair substancialmente, podem voltar a comprá-las e devolvê-las a quem inicialmente as emprestou, ficando com a diferença. Se a aposta for bem-sucedida, os fundos lucram com a desvalorização da empresa. A GameStop parecia, assim, um alvo evidente.

Mas a história não ficou por aqui. Um grupo de pequenos investidores no Reddit, site de discussão e partilha de conteúdos, decidiu contrariar a aposta. Para isso, o grupo que se reuniu no fórum r/WallStreetBets começou a investir nas ações da GameStop de forma concertada com o objetivo de impedir o seu valor bolsista de cair e, com isso, contrariar a estratégia dos grandes fundos de investimento. É que, se a aposta na queda da empresa não for bem-sucedida e a sua cotação de mercado subir, quem vende a descoberto tem de assumir perdas que podem ser astronómicas. Foi o que aconteceu desta vez.

A ação dos pequenos investidores traduziu-se num crescimento meteórico do valor das ações da GameStop – as ações fecharam ontem a um preço unitário de $347,51, face aos $3,25 que se registavam em Abril do ano passado – causando uma enorme dor de cabeça para os fundos de investimento. Um representante da Melvin Capital admitiu que o fundo desistiu deste combate e fechou a sua posição na GameStop depois de perdas da ordem dos 3,75 mil milhões de dólares nas primeiras 3 semanas de Janeiro, embora tenha rejeitado “categoricamente” a ideia que o fundo se encontrava em falência. Já a Citron Capital parece ter assumido perdas de 100% do valor que investira inicialmente. Tudo devido à ação dos pequenos investidores que decidiram desafiar os gigantes do mercado.

Mas desengane-se quem pensa que este é um caso isolado. As transações bolsistas diárias e a atividade de pequenos investidores têm crescido nos últimos meses, alimentada por fóruns de discussão online como o Reddit e aplicações como o Robinhood. O caso da GameStop mostra que o seu impacto nos mercados financeiros está longe de ser residual, tanto para as empresas cotadas, que podem ver o preço das suas ações disparar, como para os grandes agentes do mercado, que encontram um cenário de maior incerteza. “Se és um gestor de risco de um grande hedge fund, tens de mudar os teus cálculos”, admite Greg Tuorto, gestor de portfolios na Goldman Sachs Asset Management, citado pelo Financial Times.

É difícil descortinar as motivações dos pequenos investidores, entre o desejo de derrotar os gigantes financeiros, a vontade de construir fortunas pessoais ou o puro niilismo. Por um lado, há uma componente importante de anarquia e “trolling”: como escreve Dan Dixon no The Guardian, muitos pequenos participantes dos fóruns encaram a atuação nos mercados financeiros como uma espécie de piada, uma oportunidade de rutura com a monotonia do dia-a-dia, sem grandes objetivos além da adrenalina momentânea. No caso da GameStop, um dos moderadores do fórum do Reddit disse que se tratava de “um meme que explodiu verdadeiramente”. Por outro lado, as perspetivas de enriquecimento podem ser aliciantes, mas o risco é elevado e as perdas podem levar muitos à falência.

Certo é que o peso dos pequenos investidores já está a forçar os decisores políticos a considerar novas opções. Jen Psaki, secretário de imprensa da Casa Branca, adiantou que a nova administração de Joe Biden está a “monitorizar a situação”, abrindo a porta a novas formas de regulação que diminuam a volatilidade dos preços. Anthony Scaramucci, ex-conselheiro de Trump e conhecido investidor, disse que “estamos a testemunhar a Revolução Francesa na finança”. Os fundos de investimento foram, aliás, os primeiros a argumentar que este tipo de atuação concertada em fóruns online pode ser visto como manipulação de mercado.

Mas a verdade é que os pequenos investidores se limitam a expor uma dura realidade: a de que a única lógica dos mercados financeiros é o caos, e a de que este acaba quase sempre por beneficiar os mais ricos. Há muito que se sabe que a bolsa se encontra desligada da economia real, muitas vezes utilizada, erradamente, como indicador da saúde de uma economia. Em 1936, na sequência da Grande Depressão de 1929, John Maynard Keynes explicou este fenómeno de forma bastante clara: “quando o desenvolvimento de capital de um país se torna um subproduto das atividades de um casino, é provável que o trabalho esteja a ser mal feito”. O casino é, hoje, extraordinariamente maior e mais poderoso do que há um século. E os problemas da especulação financeira só se acentuaram.

É isso que leva John Authers a descrever o caso da GameStop como uma “revolta contra a máquina financeira”. O que os pequenos investidores fizeram não foi desvirtuar um mercado que, de outra forma, funcionaria adequadamente e serviria o interesse da sociedade. Foi um ato de revolta contra um sistema que foi montado para enriquecer os grandes investidores que especulam sobre o preço de ações, muitas vezes decidindo o valor (e o futuro) das empresas com base na lógica do casino. Como explica Zachary Carter no Huffington Post, “os mercados financeiros não nos conseguem dizer o que é bom ou mau. Apenas nos conseguem dizer em que é que muitas pessoas acharam que podiam ganhar dinheiro num determinado período. O verdadeiro trabalho de decidir em que tipo de mundo é que queremos viver é um assunto próprio da democracia, e não da alta finança”.

É por isso que há quem defenda soluções coletivas para resolver o problema coletivo. Ideias como a de um imposto sobre transações financeiras, através do qual o Estado cobraria um valor por cada transação, permitem não só combater a especulação (uma vez que desincentivam as operações de curto prazo e as transações de alta frequência) como aumentar a receita com que se podem financiar serviços públicos como escolas, hospitais ou transportes. No fundo, trata-se de uma forma de canalizar recursos para atividades que sejam verdadeiramente úteis para a sociedade. O caso da GameStop expôs a disfunção da alta finança desregulada. A democracia pode definir regras diferentes.

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Economista
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