França voltou ao protesto com Governo e sindicatos em rotura total

06 de abril 2023 - 16:53

Com Macron na China a atacar o movimento contra a reforma das pensões e a primeira-ministra a recusar qualquer recuo, a mobilização social em França não desarma e prossegue com greves e manifestações.

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Manifestação em Paris. Foto Teresa Suarez/EPA

Em números, o décimo primeiro dia de mobilização contra a reforma das pensões em França mostra tendências opostas: se as greves contaram com mais adesão do que as da semana passada, as manifestações em geral contaram com menos participação. Num dia com centenas de concentrações, desfiles, cortes de estradas e bloqueios de escolas e universidades, em Paris a nova líder da CGT, Sophie Binet, anunciou a participação de 400 mil pessoas nas ruas da capital e acusou o Governo de viver numa "realidade paralela" ou numa espécie de bunker, isolado das pessoas que estão zangadas em todo o país. "A mobilização continuará de uma forma ou outra", acrescentou a sindicalista. Para a semana deve ser marcada outra jornada de luta, enquanto se aguarda o parecer do Conselho Constitucional sobre a reforma das pensões, previsto para ser divulgado a 14 de abril.

"Está tudo doido!", exclamou o líder da CFDT a propósito da atitude do Governo face ao protesto social. Com Macron em visita à China, na quarta-feira os sindicatos tiveram uma curta reunião com a primeira-ministra Elisabeth Borne, com esta a recusar qualquer hipótese de retirar a reforma aprovada à margem do Parlamento. E já em Pequim, Macron voltou a atacar o movimento, afirmando que as greves têm pouca adesão e que "se as pessoas quisessem a reforma aos 60 anos não era a mim que teriam eleito como Presidente da República".

Também na capital francesa, Jean-Luc Mélenchon afirmou aos jornalistas que "este é o conflito social mais longo desde 1968", o que explica a flutuação da adesão aos protestos, embora considere que "estamos mais na fase ativa do que em regressão". Para o líder da França Insubmissa, a França está prestes a passar "de uma crise social extremamente grave e profunda a uma crise democrática" que toma a forma de "crise do regime".

Em Marselha, os sindicatos estimam a participação na manifestação em 170 mil pessoas. A mobilização dos trabalhadores do setor da energia continua forte, com o líder da CGT na central elétrica de Martigues a dizer ao Le Monde que o encontro da primeira-ministra com os sindicalistas ou as referências de Macron a esta luta ajudam a relançar o movimento. "As pessoas dizem: 'não fizemos isto tudo para agora voltarmos a trabalhar como antes, sem que esta reforma das pensões seja retirada", conta o sindicalista.

Também o líder local da CGT, Olivier Mateu, refere que depois da reunião com Elisabeth Borne, ficou patente que "o Governo não vai ceder até que a economia seja ainda mais afetada. É bom ter popularidade, mas é ainda melhor ter eficácia", afirmou o sindicalista, apelando à maior mobilização para as greves. "Se as pessoas pensam que as organizações sindicais tratam de tudo, enganam-se. Nos não temos grevistas congelados na arca que podemos tirar na altura das lutas. Se não houver a retirada da reforma, isso será a derrota dos trabalhadores que terão de trabalhar mais dois anos", afirmou Mateu, defendendo que os sindicatos devem passar das greves semanais para as greves reconduzíveis.

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Em Rennes, na manifestação que juntou 20 mil pessoas segundo os sindicatos, cerca de um terço da semana passada, outro sindicalista da CGT, este do setor ferroviário, diz que "os números da mobilização não são importantes, o que é determinante é o estado de espírito" de apoio à greve.

A mobilização dos grevistas contou com boas notícias ao fim da manhã, quando um tribunal administrativo de Rouen declarou ilegal a requisição dos grevistas na maior refinaria da TotalEnergies, em Gonfreville-L’Orcher. Os juízes consideraram que ela constitui "um ataque grave e manifestamente ilegal ao direito à greve".