Parlamento Europeu

Financiamento de Putin leva a novas buscas aos gabinetes da extrema-direita europeia

29 de maio 2024 - 19:14

A polícia voltou a entrar nas instalações do Parlamento Europeu em Bruxelas e Estrasburgo para investigar o financiamento russo a eurodeputados da extrema-direita.

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Edifício do Parlamento Europeu
Edifício do Parlamento Europeu. Foto Philippe Stirnweiss/Parlamento Europeu

A operação desta quarta-feira foi lançada pela polícia belga, que investiga suspeitas de ingerência, corrupção passiva e associação criminosa, a partir dos indícios de que eurodeputados teriam sido aliciados e devidamente pagos para promover a propaganda russa, nomeadamente através do site Voice of Europe, um dos mais recentes alvos de censura adotada pela União Europeia em relação a meios de comunicação russos destinados ao público europeu.

Segundo fonte próxima do processo citada pelo Euractiv, o suspeito que viu os seus gabinetes e residência alvo de buscas é um antigo assessor parlamentar de nacionalidade francesa, Guillaume Pradoura, que pertenceu ao staff do eurodeputado alemão Maximilian Krah, do partido AfD. Este eurodeputado era o cabeça de lista do partido que até à semana passada pertencia ao mesmo grupo europeu do Chega, o Identidade e Democracia (ID). Krah acabou por desistir da candidatura e a AfD foi afastada do grupo não por causa das suspeitas de financiamento russo, que são conhecidas há muito tempo, mas por declarações abonatórias em relação aos paramilitares nazis das SS, considerando que não se podia chamá-los a todos de criminosos.

Da "sopa de porco" em Marselha aos gabinetes da extrema-direita europeia em Bruxelas

Pradoura foi militante da Frente Nacional (agora União Nacional) de Marine Le Pen e viria a ser expulso em 2019, após ter sido fotografado disfarçado de judeu ortodoxo em pose considerada antissemita. Mas já em 2016 o Mediapart resumia o passado deste jovem de Marselha junto dos movimentos da extrema-direita identitária, recordando que em 2007 teve a iniciativa de promover um convívio intitulado “sopa de porco”, ou seja, uma refeição anti-muçulmanos. Para isso pediu apoio a um autarca da Frente Nacional, que em troca lhe pede que entre nas listas do partido às autárquicas do ano seguinte. Apesar de ter convocado a segurança da FN e grupos de skinheads que lhe eram próximos - um dos quais Pradoura chegou mesmo a ajudar quando estava fugido à justiça francesa por crimes violentos, fornecendo-lhe contactos úteis na Bulgária -, a iniciativa acabou por ser anulada graças ao boicote anunciado dos antifascistas da cidade e arredores. Mas a ligação ao partido manteve-se por mais de uma década, até ao escândalo da foto antissemita. Quando foi estudar História de Arte para Paris, Guillaume Pradoura continuou ligado aos grupos de extrema-direita e foi nesses anos que cultivou contactos na Ucrânia e na Rússia, aprendendo também a falar fluentemente a língua russa.

O procurador de Bruxelas acredita que este assessor terá tido um “papel importante” na operação de propaganda russa junto dos eurodeputados.

Depois de sair do gabinete de Krah, Guillaume Pradoura continuou no Parlamento Europeu, mas ao serviço do eurodeputado neerlandês Marcel de Graaf, do Fórum para a Democracia, também da extrema-direita, que já pertenceu aos dois grupos europeus (ECR e depois ID) e atualmente se senta na bancada dos não-inscritos. Também este deputado, que foi “repescado” para o Parlamento após a saída dos eurodeputados britânicos. é conhecido pelas suas posições pró-Putin.

Num debate no mês passado a propósito da interferência russa nas eleições europeias que agora terão lugar, interveio no plenário para atacar os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, o direito ao aborto, a imigração e as vacinas. “A propaganda da UE tem de convencer as pessoas de que estas políticas satânicas são boas, e qualquer crítica a estas políticas maléficas é demonizada. Qualquer rejeição é punida através do controlo digital”, queixava-se o eurodeputado, prometendo “continuar a lutar todos os dias pela vitória do bem sobre este diabólico culto de morte da elite globalista que conduz à ditadura e à escravatura”.

Antes de assessorar Krah e de Graaf, Guillaume Pradoura foi assistente parlamentar do seu compatriota Nicolas Bay, que chegou a ser vice-presidente da Frente Nacional e porta-voz de Marine Le Pen na campanha de 2012. Há dois anos acabou afastado do partido antes das últimas presidenciais francesas, foi acusado por esta de estar a passar informações ao rival Eric Zemmour. Bay negou as acusações, mas logo a seguir ao afastamento juntou-se a Zemmour, sendo atualmente vice-presidente do seu partido, o Reconquête. Depois de desempenhar o cargo de vice-presidente do ID - o grupo europeu do Chega - entre 2019 e 2022, Bay senta-se agora na bancada do ECR, o grupo a que pertencem os espanhóis do Vox e os italianos Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, que negoceia agora com von der Leyen o apoio à recandidatura da atual presidente da Comissão Europeia no próximo mandato.

Cerco judicial ao Voice of Europe

A investigação centra-se no papel do Voice of Europe no esquema de aliciamento dos eurodeputados. O site informativo realizou entrevistas com vários eurodeputados em março, entre os quais o alemão Krah e o dinamarquês Anders Vistisen, do Partido Popular Dinamarquês (DF), que integra o grupo europeu do ECR. Ao Euronews, Vistisen respondeu que não lhe pagaram para dar a entrevista e que isso faz parte do seu trabalho enquanto político. O mesmo respondeu o ex-candidato da AfD, que recentemente viu outro assistente parlamentar ser alvo de buscas, desta vez por suspeitas de ser um espião chinês dentro do Parlamento Europeu.

Nas vésperas das eleições legislativas portuguesas, o Voice of Europe destacou a vinda de Santiago Abascal ao comício do Chega em Faro para vir prestar apoio a André Ventura. 

O cerco judicial ao Voice of Europe tem origem numa investigação da República Checa, que suspeita de financiamento a eurodeputados e deputados em parlamentos nacionais na Alemanha, França, Polónia, Bélgica, Países Baixos e Hungria. No passado dia 17 de maio, a União Europeia incluiu o site, juntamente com os da RIA Novosti, Izvestia e Rossiyskaya Gazeta, na lista de meios de comunicação proibidos por “estarem sob o controlo permanente direto ou indireto” do Kremlin e procurarem desestabilizar os países vizinhos da Ucrânia e da UE, ao mesmo tempo justificando a agressão russa àquele país. Ao contrários dos restantes três media, que são detidos total ou parcialmente pelo Estado russo, o Voice of Europe está registado nos Países Baixos. Na véspera da proibição, a polícia alemã anunciou a investigação sobre o número dois da lista da AfD, Petr Bysrto, por alegadamente ter recebido 20 mil euros de pessoas ligadas a Putin para defender a propaganda do Kremlin.

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