Israel

Famílias dos reféns desesperadas após Israel quebrar cessar‑fogo

26 de março 2025 - 10:20

Apesar da intensificação dos protestos contra o recomeço da guerra, como o que levou na semana passada um grupo de famílias de reféns junto à vedação de Gaza, o governo israelita não está a ouvir - e Trump parece ter perdido o interesse.

por

Amos Brison e Oren Ziv
 

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Einav Zangauker e vários familiares de reféns israelitas detidos em Gaza caminham junto à vedação da fronteira, protestando contra o recomeço da guerra de Israel, 18 de março de 2025.
Einav Zangauker e vários familiares de reféns israelitas detidos em Gaza caminham junto à vedação da fronteira, protestando contra o recomeço da guerra de Israel, 18 de março de 2025. Foto de Oren Ziv

Poucas horas depois de Israel ter quebrado abruptamente o cessar-fogo em Gaza, os membros do grupo de famílias de reféns Sha’ar Begin acordaram nas suas tendas junto a uma das entradas do quartel-general militar israelita. Durante os últimos 10 dias, acamparam no local, no centro de Telavive, no âmbito daquilo a que Einav Zangauker, a figura de proa não oficial do grupo e mãe do refém Matan Zangauker, chamou a operação “Otef Kirya” (hebraico para “cercar o quartel-general militar”). “Estamos aqui para impedir com os nossos corpos que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu volte a combater em Gaza”, disse Zangauker aos meios de comunicação israelitas no dia em que foram montadas as primeiras tendas.

No início, parecia que o número crescente de ativistas e seus apoiantes - que agora enchiam cerca de 100 tendas de campismo debaixo da ponte que liga o quartel-general militar ao centro comercial adjacente - estava a ganhar força. Durante o dia, organizaram uma série de iniciativas de protesto: corridas matinais à volta do quartel-general militar lideradas por Zangauker; atividades para pais e filhos centradas na luta das famílias de reféns; e concentrações silenciosas. À noite, organizaram manifestações que atraíram centenas e, por vezes, milhares de participantes, bloqueando o trânsito e apelando aos condutores para saírem dos seus carros enquanto liam os nomes dos 59 reféns ainda detidos em Gaza.

Einav Zangauker e vários familiares de reféns israelitas detidos em Gaza caminham em direção à vedação da fronteira, protestando contra o recomeço da guerra de Israel, 18 de março de 2025.
Einav Zangauker e vários familiares de reféns israelitas detidos em Gaza caminham em direção à vedação da fronteira, protestando contra o recomeço da guerra de Israel, 18 de março de 2025. Foto de Oren Ziv

Desde que se separou, no inverno passado, do Fórum das Famílias dos Reféns e Desaparecidos, a principal organização que representa as famílias dos reféns, devido à sua abordagem contida e à sua relutância em confrontar diretamente o governo, o Sha’ar Begin apontou o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu como o principal obstáculo a um acordo. Com tácticas de confronto e, por vezes, até teatrais - como colocar uma mesa de Shabbat no meio da autoestrada Ayalon e pegar-lhe fogo - têm sido coerentes na exigência da libertação de todos os reféns de uma só vez, em troca do fim imediato da guerra.

Conseguiram atrair uma atenção generalizada, sobretudo nos meios de comunicação internacionais: vários reféns libertados afirmaram ter assistido aos protestos do grupo em canais de notícias árabes enquanto estiveram em cativeiro. Mas embora os seus protestos possam ter dado força a alguns dos reféns em Gaza e mantido a questão na agenda pública, depressa se tornou claro que o governo israelita não estava a ouvir.

Nas primeiras horas da manhã de terça-feira, o exército israelita retomou os bombardeamentos na Faixa de Gaza, matando mais de 400 palestinianos e ferindo centenas de outros só nessa noite. Desde então, foram mortas várias centenas de outras pessoas, uma vez que as forças terrestres israelitas começaram a recapturar zonas de Gaza que tinham desocupado no âmbito da primeira fase do acordo de cessar-fogo. “A partir de agora, as negociações só terão lugar debaixo de fogo”, declarou Netanyahu na televisão israelita após o recomeço dos ataques.

Após a divulgação da notícia, Zangauker - acompanhada pela filha, Natalie, e pela namorada de Matan, Ilana Gritzewsky, que foi levada em cativeiro juntamente com ele a 7 de outubro e libertada no primeiro acordo de reféns em finais de novembro de 2023 - liderou uma mão-cheia de ativistas do grupo Sha’ar Begin numa marcha até à vedação de Gaza. Partindo do Kibutz Nir Oz, de onde Matan e Ilana foram raptados, Zangauker e os seus colegas chegaram rapidamente à barreira de arame farpado que precede a verdadeira vedação fronteiriça.

“Como é que entro?” perguntou Zangauker a um dos oficiais militares ali estacionados. Os soldados ficaram parados, sem saber como reagir, enquanto Zangauker começava a rastejar por baixo do arame farpado, seguida pelos seus companheiros de luta. Até então, os únicos israelitas a marchar sobre a vedação de Gaza tinham sido colonos de extrema-direita que defendiam o restabelecimento de colonatos judeus na Faixa de Gaza.

Einav Zangauker rasteja sob a barreira de arame farpado junto à fronteira com Gaza, protestando contra o recomeço da guerra de Israel, 18 de março de 2025.
Einav Zangauker rasteja sob a barreira de arame farpado junto à fronteira com Gaza, protestando contra o recomeço da guerra de Israel, 18 de março de 2025. Foto de Oren Ziv.

Quando chegaram à vedação da fronteira, o grupo sentou-se com as costas encostadas à vedação. Era o mais próximo que Zangauker tinha estado do filho desde o início da guerra, há mais de 17 meses. “O meu Matan”, gritou ela através de um megafone. “Não permitiremos que [eles] voltem a combater. Vamos continuar a exigir que o governo acabe com esta guerra e liberte os reféns - todos de uma vez.”

Com o som de tiros de metralhadora a ecoar ao fundo, Zangauker dirige-se então aos soldados. “Aos soldados que estão a preparar as armas para uma invasão terrestre e aos pilotos da nossa força aérea, imploro-vos que não sejam lestos no gatilho. Os cidadãos de Israel foram abandonados em cativeiro por um grupo político que exige que os matem para se manter no poder. Pensem bem antes de deitarem uma bomba. É bem provável que estejam a matar o Matan.”

Ao fim de cerca de uma hora, Zangauker e os outros ativistas concordaram em dispersar, mas não sem antes pedir aos soldados que deixassem as fotografias dos reféns que tinham pendurado na vedação.

“Netanyahu está a brincar com Trump como fez com Biden”

Nessa noite, milhares de israelitas saíram à rua no centro de Telavive para uma manifestação que foi inicialmente convocada para protestar contra a decisão de Netanyahu de despedir o chefe do serviço de segurança Shin Bet, Ronen Bar. Netanyahu acusou o chefe da agência de levar a cabo uma “campanha de chantagem e ameaças” contra ele, depois de Bar ter lançado uma investigação sobre as alegações de que os assessores do primeiro-ministro tinham recebido dinheiro do Qatar durante a guerra - um escândalo potencialmente enorme que veio a ser conhecido como “Qatargate”.

No entanto, depois de Israel ter recomeçado a bombardear Gaza nessa manhã, o foco dos manifestantes mudou para incluir apelos contra o recomeço da guerra e a favor de um acordo sobre os reféns. Na manhã seguinte, dezenas de milhares de pessoas marcharam em direção ao Knesset, em Jerusalém, com estas exigências, onde foram confrontadas com uma violência policial feroz.

No entanto, apesar da impressionante afluência e energia dos protestos dos últimos dias, o recomeço da ofensiva israelita em Gaza deixou os ativistas de Sha’ar Begin mais pessimistas do que nunca. Poucas horas após o início dos novos ataques, o antigo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, que abandonou a coligação há dois meses por causa do acordo de cessar-fogo, anunciou que a sua fação voltaria a fazer parte do governo - garantindo que Netanyahu possa aprovar o orçamento de Estado para 2025 no final do mês, evitando assim uma crise grave.

“Netanyahu conseguiu o que pretendia, em grande”, disse ao +972 Yehuda Cohen, cujo filho, Nimrod, ainda está preso em Gaza. “Agora, tem todo o apoio [dentro da coligação] para continuar a guerra, despedir o chefe do Shin Bet, acabar com os pesos e contrapesos do sistema e aprovar o orçamento.”

Mesmo antes de terça-feira, estava a tornar-se cada vez mais claro que Netanyahu não tinha qualquer intenção de avançar para a segunda fase do acordo de cessar-fogo que assinou com o Hamas. Este facto levou algumas das famílias dos reféns a depositarem a sua fé no Presidente Donald Trump, que consideraram ter pressionado Netanyahu a aceitar o acordo.

“O que joga a nosso favor é que os acordos estão a ser feitos acima da cabeça do governo israelita”, disse Shahar Mor, sobrinho de Avraham Munder - cujo corpo foi recuperado de um túnel no sul de Gaza em agosto - ao +972 dois dias antes de Israel quebrar o cessar-fogo durante um protesto em frente ao quartel-general militar. “Na nossa opinião, isto é excelente, porque o governo israelita não nos trouxe absolutamente nada”.

Agora, depois de Trump ter aprovado o novo ataque israelita em Gaza, Mor e outros ativistas de Sha’ar Begin perderam a esperança de que Washington ajude a garantir a libertação dos seus entes queridos. “Contámos com Trump no último mês, mas Netanyahu está a manobrá-lo como manobrou com Biden durante 15 meses”, disse Mor na quinta-feira.

Cohen fez eco ao sentimento de Mor. “Parece que a administração Trump perdeu o interesse”, disse ele ao +972 após o colapso do cessar-fogo. “Não ouvimos os apelos de Washington - mesmo os mais suaves - para regressar às negociações, para não falar das ameaças. [Estão a dizer ao governo israelita:] ‘Façam o que quiserem’.”

Sem confiança na administração Trump - especialmente depois de esta ter sinalizado a sua intenção de negociar um acordo separado com o Hamas apenas para a libertação de reféns americanos - as famílias do Sha’ar Begin encontram-se com pouca margem de manobra. “Estamos realmente impotentes”, disse Cohen. “Não vejo nada que possamos fazer. Cheguei ao limite do cinismo.”

Depois de terem esgotado todas as ferramentas à sua disposição nos últimos 530 dias, e perante um governo que se recusa a reconhecê-los, as famílias dos reféns e os seus apoiantes têm agora de tentar encontrar uma forma de intensificar os seus protestos. E como as bombas israelitas continuam a chover sobre Gaza, o tempo está a esgotar-se.


Amos Brison é editor da +972, vive em Berlim. Oren Ziv é fotojornalista, repórter da Local Call e fundador do coletivo de fotografia Activestills. Artigo publicado a 21 de março no portal +972. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.