Educação

Falta de professores: sindicatos reforçam necessidade de estabilidade e condições

08 de outubro 2025 - 13:50

Um estudo divulgado esta terça-feira mostra que vai ser preciso contratar quatro mil docentes por ano. Um inquérito revela que um quarto dos jovens professores pondera mudar de profissão.

PARTILHAR
Sala de aula vazia.
Sala de aula vazia. Foto de Paulete Matos.

Mais de um quarto dos jovens professores ponderam abandonar a profissão nos próximos cinco anos. Só que nesse período será preciso contratar perto de mais quatro mil docentes a cada ano para além dos que estão a trabalhar neste momento. Os resultados cruzados de um estudo e de um inquérito traçam um quadro da profissão que faz os principais sindicatos docentes exigir mais estabilidade, uma carreira mais atrativa e mais condições de trabalho.

Francisco Gonçalves, um dos dois secretários-gerais da Fenprof, comentou à Lusa o inquérito TALIS 2024 – Teaching and Learning International Survey da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico explicando que o “número significativo” de professores que está a equacionar abandonar a profissão é comum a vários países europeus mas que se agrava em Portugal por causa do problema da “valorização material” da carreira.

Sublinha ainda outro facto: “que é uma aparente contradição entre os professores se sentirem bem com a profissão, mas mal com as condições de trabalho”. Os professores portugueses manifestam cansaço e denunciam que os casos de burnout aumentam, sobretudo entre os mais velhos: “se há muitos casos é porque de facto temos aqui um problema de saúde e, se olharmos com mais detalhe, verificamos que estamos perante uma profissão que está envelhecida. Vemos vários indicadores que nos mostram que os professores estão exaustos”.

Há ainda “um grande desencanto e um sentimento de impotência” com repercussões na saúde mental e na motivação dos docentes, alerta.

Pedro Barreiros, secretário-geral da FNE, sublinha alguns “destaques que importa reter, nomeadamente no que concerne à indisciplina, também no que concerne ao trabalho burocrático que afeta o funcionamento das escolas e desvia os professores daquilo que é o seu principal papel, que é a relação pedagógica com os alunos”.

E o que diz sobre a questão dos jovens professores é comum às duas federações sindicais docentes: “a estabilidade profissional, o salário adequado à função e à formação inicial são critérios essenciais”. Para o dirigente da FNE, em causa está a atratividade da profissão “mas também a manutenção dos professores ao longo da carreira na profissão. Há aqui um enfoque que é dado, não só no sentido de atrair professores, mas também mantê-los no início da carreira”.

Sobre indisciplina, Pedro Barreiros diz que tal é “relatado cada vez com maior frequência” e que “reina diariamente e coabita quer o espaço sala de aula, que parte já fora da sala de aula”. Assim, “é essencial e urgente que seja revisto o Estatuto do Aluno, porque é um documento que já tem uma vigência de cerca de 13 anos. Está completamente desatualizado daquilo que são as exigências do dia de hoje”, afirma.

122 mil professores reformam-se em cinco anos, diz estudo

Para além do inquérito TALIS, esta terça-feira foi divulgado o Estudo de Diagnóstico de Necessidades Docentes de 2025 a 2034, projeções feitas por investigadores da Nova SBE que dão conta da falta de docentes no sistema educativo português: dos 122 mil professores atuais 46 mil, 37%, vão reformar-se até ao ano letivo de 2034/35.

De acordo com os cálculos realizados, que descontaram fatores como a redução do número de alunos e o facto de os novos professores não terem redução de tempo letivo, serão precisos mais cerca de 39 mil docentes nos próximos 10 anos, uma média de perto de 3.800 por ano que fica muito além dos professores que estão a ser formados atualmente a cada ano. Por exemplo, no ano letivo 2022/23 apenas terminaram mestrados em ensino 2.100 alunos, o que contrasta por exemplo com a necessidade deste ano letivo de contratar mais 4.700.

O estudo indica ainda um potencial problema: é nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto que mais faltarão professores, 11 mil no primeiro caso, seis mil no segundo nos próximos dez anos. Só que a capacidade de formação está concentrada a norte.

Olhando para os níveis de ensino, a maior percentagem de professores sairá no pré-escolar (55% reformam-se em dez anos). Mas em termos absolutos será no 3º ciclo e secundário que serão precisos mais docentes já que se reformarão 23.695 (39% dos que trabalham agora).