Numa visita a uma escola em São Teotónio, em Odemira, Mariana Mortágua foi chamada a comentar as declarações de Pedro Passos Coelho, que num comício da AD em Faro associou a imigração à insegurança no país: “É um disparate de todo o tamanho”, vincou.
De acordo com a coordenadora do Bloco, “a ideia de que há um problema de segurança associado à imigração é uma mentira, é desmentida por todos os factos”.
“O que nós temos que dizer ao país é que, para que a economia funcione, para que a Segurança Social funcione, para que as pensões sejam pagas, Portugal tem o dever de acolher as pessoas que o procuram. E tem o dever de acolher as pessoas que procuram não só em nome dessas pessoas que querem uma vida melhor, mas em nome das pessoas que já cá viviam e que também têm o direito de viver nesta sociedade pacífica, em paz, tolerante, capaz de integrar todos”, defendeu.
Mariana Mortágua apontou que “há duas formas de olhar para a imigração”: “A boa é regularizar, dar condições, acolher, criar serviços públicos para os que estão e para os que vêm. A má é fechar as portas da emigração regular e abrir as portas das máfias da imigração clandestina, da imigração sem direitos, da imigração em contentores”.
Lembrando os portugueses que procuraram uma vida melhor no exterior, a líder bloquista afirmou querer “construir um país melhor, mais solidário, mais justo, em que toda a gente pode viver”.
“Sabemos que ninguém se quer sentar ou ninguém diz que se quer sentar com André Ventura e isso ficou muito claro nos debates. Sabemos também que o PSD vai flertando com estas ideias e levantando medos, nomeadamente sobre a imigração, que são irresponsáveis, que são falsos, que não têm qualquer contacto com a realidade ou com os factos”, afirmou Mariana Mortágua quando questionada sobre se o discurso de Passos Coelho pode significar uma aproximação ao Chega.
“Portugal é um país de esperança, é um país de solidariedade, é um país de justiça que quer uma vida melhor para toda a gente que aqui vive. Uma vida boa para toda a gente que vive”, defendeu.
Num jantar em Évora na noite anterior, a coordenadora do Bloco repudiou o discurso contra a imigração que é feito em Portugal.
“Como pode quem cria a riqueza do país com o seu trabalho, quem contribui 1.600 milhões de euros todos anos líquidos para a segurança social, ser culpado pela miséria em Portugal quando estão a ajudar as pensões dos mais velhos que hoje estão reformados?”, questionou.
Deixando no ar a questão de quem é que tem a ganhar com o trabalho imigrante clandestino e que depende de máfias, Mariana Mortágua avançou que “a extrema-direita aponta o dedo aos mais frágeis” com o objetivo claro de que não se olhe “para cima, para quem lucra, para quem ganha, para quem abusa, para quem explora”.
Para a líder bloquista, quem diz que quer “fechar fronteiras” está, de facto, a dizer que quer que os imigrantes entrem mas “sempre com menos direitos”, porque a economia precisa dos imigrantes.
“Quando a economia chama e a lei nega os direitos às pessoas, aumenta sempre o abuso”, vincou.
Seis medidas urgentes para mudar o modelo económico do Alentejo
Mariana Mortágua criticou o modelo económico que prolifera no Alentejo, apontando que os “milhões encaixados nos recordes de produção agrícola” não ficam na região e que existe uma “elite que assalta Portugal de tantas formas diferentes”, ao impor um modelo de economia de baixos salários e colocar “pressão máxima nos serviços públicos”, sem pagar “os impostos justos para financiar esses serviços públicos”.
“A responsabilização, incluindo criminal, de todos os que ganham com o abuso sobre os trabalhadores migrantes é o caminho para fazer justiça, mas a mudança de modelo é o que protege todo o Alentejo. Respondemos a essa mudança com seis prioridades, com seis urgências”, adiantou.
O Bloco quer “parar as estufas, parar o licenciamento das explorações superintensivas e travar o abuso laboral e acolher os imigrantes”, dando-lhes condições e salários porque são precisos “direitos e deveres iguais para todos”.
“Obrigar a avaliação integrada de impacto ambiental e social, novas regras para a água, muito menos pesticidas. É preciso começar já a reconversão da produção que existe para um modelo de futuro. Se queremos futuro então precisamos num modelo económico de futuro”, acrescentou.
Para a coordenadora bloquista, é possível “ter uma agricultura forte, que respeite a terra e sua gente” e que leve à soberania alimentar.