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“Este é o tempo de ter coragem para proteger o SNS que nos protege a todos”

Num comício virtual transmitido a partir do Porto, Marisa Matias apelou ao Governo para “não adiar mais a coragem para colocar todos os recursos e capacidade de saúde ao serviço e sob o comando do SNS”. E diz que a resposta à crise provocada pela pandemia “não tinha de ser como foi”.
Marisa Matias no comício virtual no Porto. Foto de Ana Mendes.

O comício deste domingo, transmitido virtualmente a partir da cidade do Porto (veja aqui o vídeo), contou com um momento musical a cargo de Luciana e Pri, que abriram aos sons do Brasil um comício que iria mais uma vez atravessar o Atlântico, ao contar com uma demonstração de apoio de Guilherme Boulos, dirigente do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), também ele candidato às presidenciais brasileiras em 2018. 

De regresso ao Porto, Marisa Matias agradeceu o apoio de Boulos e daqueles que “estão como nós, a braços com a pandemia, mas a sofrer as consequências extremas da política de um presidente negacionista”. “A pandemia não conhece fronteiras, nem a nossa solidariedade, nem a luta pelos direitos humanos”, acrescentou.

Sobre o momento que Portugal atravessa, “que é o pior da pandemia” e com os hospitais a viverem dificuldades enormes, diz não ser possível “adiar mais a coragem para colocar todos os recursos e capacidade de saúde ao serviço e sob o comando do Serviço Nacional de Saúde”, num apelo ao Governo para que tome essa “decisão urgente” e proteja o SNS que nos protege a todos.

Para a candidata presidencial, é preciso respeitar as recomendações das autoridades de saúde, mas de dar igualmente condições às pessoas para que essas recomendações possam ser cumpridas, o que “implica apoios sociais, proteção e condições de trabalho”, pois já deveríamos ter retirado lições da primeira vaga. E se para a candidata “é verdade que a nossa vida coletiva mudou bruscamente”, sublinha igualmente que “também é verdade que não tinha de ser como foi”.

Marisa Matias referia-se particularmente às questões laborais e aos 200 mil precários despedidos, uma “marca social dolorosa desta pandemia”, trabalhadores que foram “as primeiras vítimas da irresponsabilidade de muitas grandes empresas que aproveitaram a crise para descartar pessoas no momento mais difícil”. 

No entender de Marisa, faltaram as regras na economia e faltou que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fizesse “da proteção do emprego e dos precários uma preocupação central da sua atuação”. “Teria feito diferença um Presidente que se batesse por regras de sensatez” e no meio da pandemia protegesse quem trabalha.

“Temos de garantir que não vai ser assim nas próximas semanas e meses”, defendeu Marisa, e que não voltamos “à realidade que tínhamos antes da pandemia” - a “normalidade da precariedade, do abuso e da desproteção” -, porque “a crise no trabalho não chegou agora, é um dos problemas estruturais do país”. Por isso, e depois do Governo já ter reconhecido a necessidade de apoios mais robustos, que antes tinha rejeitado nas negociações do Orçamento do Estado para 2021, Marisa alertou que é importante que os apoios cheguem agora “rapidamente a quem precisa, sem os atrasos que já se verificaram no passado e que não volte a haver milhares de pessoas que ficam meses e meses a receber da segurança social apenas uma mensagem a dizer “em análise”.

“Estou aqui para dar força a um projeto de democracia para o mundo do trabalho, para afirmar a possibilidade de uma convergência que coloque o Trabalho no centro, que retire da lei o que a troika e a direita lá colocaram, que proteja os precários, que encontre respostas democráticas para as novas realidades laborais, que afirme o respeito por quem trabalha”, concluiu Marisa, garantindo tudo estar a fazer para que o Trabalho esteja no centro da sua campanha, como devia estar no centro da política.

O comício virtual no Porto contou ainda com intervenções de Joana Leite, uma formadora precária do IEFP com quem Marisa já se tinha encontrado nesta manhã de domingo e de Francisco Louçã, ex-coordenador do Bloco de Esquerda.

Na sua intervenção, Francisco Louçã destacou a “força tranquila” da candidata, e avisou os adversários que fazem mal em confundi-la com fraqueza. Dirigindo-se aos eleitores socialistas que não se reconhecem em nenhum candidato e ponderam votar Marcelo, Louçã questionou: “Quem é que vai dizer aos privados e ao Governo que hoje não é tempo para pagar 13 mil euros por cada doente Covid? É Marcelo ou será a Marisa?” “É a Marisa que o fará” e é por isso que ela é “a campeã da estabilidade naquilo que conta para a vida de uma pessoa”, concluiu.

Sara Barros Leitão: “Tenho pressa em ter uma presidente mulher”

Foi contudo pelas palavras da atriz Sara Barros Leitão que surgiu um dos discursos mais emotivos deste comício. Sara Barros Leitão contou como descobriu a política e a importância do voto, do impacto que as decisões políticas tinham na sua vida, resultado do investimento ou desinvestimento nos serviços que a rodeavam. Contou que percebeu que “a política era o que dizia respeito às atividades humanas”, “a forma como olhamos para o outro” e “sobre cuidar do que nos rodeia”. “Eram as decisões que iriam influenciar-nos quando fôssemos a um hospital, quando apanhássemos um autocarro, quando quisemos arrendar um quarto, quando fôssemos levantar a reforma aos correios, caso aquele posto ainda existisse. A política era sobre representação. Sobre quem eu escolhia para representar as minhas ideias”, acrescentou.

A jovem atriz disse discordar de quem diz que esta geração não tem nada por que lutar e que já nasceu com tudo garantido. Sara explicou que “fazemos parte de uma geração que nada tem por garantido. Para a nossa geração acabou o emprego para a toda a vida. Vivemos com ameaças diárias ao acesso ao ensino universal e gratuito e ao Serviço Nacional de Saúde. Seremos nós a pagar todos os bancos que deixaram falir. Enfrentamos a ameaça da desinformação e das fake news, com a qual ainda ninguém sabe como lidar. Temos, nas nossas mãos a difícil tarefa de reverter a inevitável crise climática, e seremos nós a viver com suas consequências". 

Sara Barros Leitão terminou a sua intervenção com pressa, com a pressa de quem quer ter uma presidente mulher, e sublinhou que dia 24, quando exercer o seu direito de voto, irá votar no futuro e no “mundo todo ao mesmo tempo, porque não há tempo para mais desigualdades”. O seu voto, contou, irá para Marisa Matias, “porque não posso esperar mais”.

 

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