No passado dia 18 de junho, o ministro dos Negócios Estado português anunciou ter dado “parecer desfavorável a qualquer exportação de armas para Israel” no início desse mês. As declarações de Paulo Rangel foram feitas durante uma audição requerida pelo Bloco de Esquerda e PCP sobre a situação na Faixa de Gaza.
Segundo o portal Página Um tinha noticiado em maio, as exportações de material militar de Portugal para Israel foram sempre residuais ou inexistentes entre 2010 e 2020, embora tivessem crescido desde 2021 e com mais força desde o início do massacre de Gaza: entre outubro de 2023 e março de 2024, o valor do material exportado para Israel com a classificação de “bombas, granadas, torpedos, minas e outras munições e projécteis” ultrapassou o milhão de euros, mais 56% do que nos seis meses anteriores e quase quatro vezes mais do que que o período homólogo anterior (outubro de 2022 a março de 2023).
Já no sentido inverso, o da aquisição de material militar para Portugal, os negócios têm sido mais movimentados. Na Força Aérea Portuguesa, os quinze contratos adjudicados entre dezembro de 2016 e agosto deste ano à Elta Systems renderam à empresa israelita 1,1 milhões de euros. Os contratos dizem respeito a reparações e peritagem em radares desta empresa subsidiária da Israel Aerospace Industries, a maior empresa de fabrico de aviões militares e civis em Israel e detida pelo Estado, produzindo também drones, mísseis, navios militares e satélites. Um desses “drones” é o Heron TP, que a própria empresa diz ter desempenhado um “papel fulcral” no ataque a Gaza. A Elta é uma das maiores fornecedoras do exército israelita em sistemas de radares e comunicações, mas são as exportações que concentram a grande maioria do seu volume de vendas, destinadas às forças armadas de mais de 70 países.
No ano passado, um drone submarino da Elta, o Blue Whale, foi testado num exercício organizado pela Marinha Portuguesa ao largo de Tróia e Sesimbra, com a participação de 1.400 civis e militares de 26 países e 44 empresas, universidades e centros de investigação. Segundo a Revista da Armada, o exercício REPMUS 2023 serviu para testar “sistemas não tripulados e outras tecnologias emergentes e disruptivas de duplo-uso, civil e militar”. O Blue Whale é desenvolvido conjuntamente pela Elta Systems e pela Atlas Elektronik, uma subsidiária da empresa alemã Thyssenkrupp Marine Systems. Em maio, o MPPM instou o Estado português a não concretizar a compra deste veículo submarino não tripulado, por considerar que “qualquer negócio com empresas que suportam o ataque genocida contra os palestinos da Faixa de Gaza constitui um apoio indireto à prática de um crime contra a humanidade”.
Bem mais pesada é a fatura com a aquisição de equipamento militar por parte da Força Aérea e da Marinha à Leonardo S.p.A., a empresa parcialmente detida pelo estado italiano e que também vende armamento à aviação e marinha de Israel, quer diretamente quer através de contratos com o Departamento de Defesa dos EUA. As suas armas instaladas nas corvetas Sa’ar 6 foram estreadas nos ataques a Gaza em outubro de 2023.
Nos oito contratos inscritos no portal Base entre janeiro de 2017 a junho passado, a Leonardo faturou quase 40 milhões de euros. A parte de leão, cerca de 38 milhões de euros é a do contrato assinado com a Marinha em abril de 2022 para o “programa de modernização de baterias de combate do torpedo Blackshark e contramedidas Circe”, com fornecimento previsto até ao final de 2026.
Israel
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Em Israel, a empresa parceira da Leonardo para a manutenção dos helicópteros e aviões ao serviço da força aérea é a Elbit Systems, a maior empresa israelita de armamento e tecnologia militar que adquiriu em 2018 a empresa estatal Indústrias Militares Israelitas. Em 2022, 17% das suas receitas vinham do Ministério da Defesa israelita. Ela é a principal fornecedora de drones para os militares e de sistemas avançados de combate para veículos blindados. Mas também fornece munições, rockets e bombas que estão a ser lançadas em zonas densamente povoadas em Gaza e no Líbano.
Nos últimos 15 anos, a Força Aérea portuguesa adjudicou cinco contratos à Elbit Systems no valor de cerca de nove milhões de euros. A maior fatia foi gasta num contrato de 2014 para a aquisição de software de alerta de radar para os caças F-16, no valor de 8,1 milhões de euros. Outros 160 mil euros foram gastos em compras à Elisra, uma subsidiária da Elbit. Também a empresa israelita RSL Electronics, adquirida este ano pelo Aman Group, faturou mais de 350 mil euros em aquisição de equipamentos para os caças F-16 entre 2015 e 2018.
Outra empresa de tecnologia com ligações estreitas à Israel Aerospace Industries é a Windward Ltd, que fornece sistemas de vigilância marítimos com base em inteligência artificial. Nos últimos três anos, a Marinha Portuguesa adquiriu licenciamento do software desta empresa no valor de 667 mil euros. O contrato mais recente foi assinado no início deste mês. As ferramentas desenvolvidas por esta empresa fundada por dois ex-oficiais da Marinha israelita têm contribuído para identificar cargueiros iranianos e para a implementação das sanções comerciais à Coreia do Norte, mas também para o reforço da política da Europa Fortaleza através do sistema Frontex, outro dos seus clientes.