Esta segunda-feira, Yolanda Díaz, segunda vice-presidente do executivo e ministra do Trabalho espanhola, propôs uma medida de limitação sobre preço dos bens alimentares. Até agora o governo espanhol concentrou-se em conter a escalada de preços do setor energético e dos combustíveis, mas a comida tem também encarecido de forma grave.
Do lado socialista, o líder parlamentar Patxi López afirmou que se trata de uma proposta de "duvidosa legalidade". Mas a ministra insiste que ela já foi aplicada em França e pode ser estudada uma solução que abranja um cabaz de bens alimentares e em acordo com os grupos de distribuição espanhóis.
O jornal Publico.es salienta que várias organizações de apoio aos consumidores criticam as grandes superfícies de distribuição, como Carrefour e Mercadona, por aproveitarem a situação de crise - e o seu poder de mercado - para fixarem preços ao consumidor mais elevados e conseguirem margens de lucro na ordem dos 8-9%.
Os supermercados conseguem estes lucros extraordinários pela grande diferença entre o preço diminuto que pagam aos agricultores e os preços inflacionados que cobram aos consumidores finais. Os últimos dados para Espanha da COAG sobre o índice de preços na origem e destino dos alimentos mostra que, por exemplo, o leite aumentou em 108% e os legumes 511% face ao preço pago aos produtores.
Grandes cadeias de distribuição foram dos setores que mais lucraram durante a pandemia
O aumento dos preços alimentares não é então só explicado pelo contexto inflacionário, mas por um mercado liberalizado que permite que grandes cadeias de distribuição definam preços elevados.
Prova disso é que o mesmo aconteceu durante o primeiro ano do covid-19. A Oxfam publicou um relatório em junho de 2021 que mostrava que os grandes supermercados europeus e nos EUA tinham aumentado os dividendos distribuídos aos acionistas em 123% entre 2019 e 2020, ao mesmo tempo que quase nenhum fez investimentos significativos tanto na melhoria da cadeia de produção como em apoios aos trabalhadores e agricultores.
Governo português não responde perante a possibilidade de um imposto excecional
Em agosto, quando questionado em relação à imposição de um imposto sobre os lucros extraordinários nos setores que os estão a registar, António Costa colocou de parte esta hipótese sobre o setor da energia, avançou que sobre as petrolíferas o governo estava a estudar essa possibilidade e sobre as cadeias de distribuição acabou por não responder.
"Quando nós vamos ao supermercado constatamos que a fatura está efetivamente bastante acima. Agora se está por via das margens da distribuição, por via das margens de quem vende os produtos à distribuição... tem de ser analisado para ver onde estão os sobreganhos e para ver se esses sobreganhos estão, ou não, justificados", disse. O que está em causa é se os custos aumentaram também junto dos produtores.
Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), reagiu afirmando que “a distribuição não está certamente no radar (do Governo) (...) o sector está a sofrer consequências da inflação galopante, mas Portugal, quando comparado com outros países europeus, até tem conseguido conter mais os aumentos de custos porque não aumenta as margens”. Garantiu que “as margens na distribuição alimentar em Portugal não aumentaram. Continuam a estar nos 2% a 3%”.
O jornal Expresso tentou contactar a MC, dona do Continente, e a Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, as duas empresas mais fortes no retalho alimentar em Portugal e as duas não comentaram o aumento das margens de lucro.
Nas contas semestrais, os dois grupos apresentaram aumentos nas vendas e nos lucros. A Sonae fechou o primeiro semestre com um resultado líquido de 118 milhões de euros, o que representa um aumento de 89% face ao ano anterior. O grupo Jerónimo Martins registou lucros de 261 milhões de euros, ou seja, mais 40% que o período homólogo em 2021.