O sistema de votação por chamada do festival Eurovisão da canção está a ser posto em causa depois de Israel ter conseguido uma votação expressiva do “público”. A canção vencedora foi a da Áustria, que recebeu os votos maioritários do júri, mas a perspetiva da artista vinda do Estado sionista vencer fez com que nas instalações onde acontecia o evento o público presente tenha manifestado a sua revolta. Sem a “televotação”, a canção israelita teria sido 15ª. Mas graças ao voto telefónico passou para o segundo lugar.
Depois dr a canção israelita ser a mais votada pelo “público” no seu país, a televisão pública espanhola RTVE anunciou que ia pedir uma auditoria aos resultados da votação por telefone.
O diferendo com o canal espanhol levou a União Europeia de Radiodifusão (UER), entidade que organiza o espetáculo, a ameaçar com uma multa caso a retransmissão do programa incluísse os comentários feitos em direto pelos apresentadores Tony Aguilar e Julia Varela. Estes tinham recordado, imediatamente antes da cantora israelita começar a sua prestação, que a RTVE tinha requerido um debate sobre a presença no festival de um país responsável por mais de 50 mil mortes de palestinianos.
De acordo com a UER, “o número de vítimas não tem lugar num programa de entretenimento apolítico, cujo lema 'Unidos pela música' encarna o nosso compromisso com a unidade”.
A resposta da televisão aconteceu nessa retransmissão onde manteve a integralidade do programa com os comentários que tinham sido feitos e acrescentou a mensagem escrita sob um fundo preto: “face aos direitos humanos, o silêncio não é uma opção. Paz e justiça para a Palestina”.
A UER acabou por decidir não multar a televisão espanhola, admitindo que “a RTVE é responsável por qualquer conteúdo emitido fora da retransmissão do Festival da Eurovisão”.
Sánchez quer Israel fora de eventos culturais
O primeiro-ministro espanhol alargou o leque da contestação e esta segunda-feira apelou à exclusão de Israel de eventos culturais como o festival da Eurovisão da mesma forma que a Rússia foi banida por ter invadido a Ucrânia. Para ele, é uma questão de “dois pesos e duas medidas” que não podem ser permitidos. Se “ninguém ficou chocado há três anos quando se pediu à Rússia que se retirasse de competições internacionais”, o mesmo deveria acontecer com Israel.
O chefe de governo do Estado vizinho também apelou aos artistas para defenderem valores ameaçados como a paz, a democracia, a igualdade e a defesa do ambiente, criticando quem quer um setor cultural “insípido, silencioso, equidistante”.
Na sua declaração enviou ainda “um abraço solidário ao povo ucraniano e ao da Palestina, que estão a viver a irracionalidade da guerra e dos bombardeamentos”.
Antes, Amichai Chikli, o ministro israelita da Diáspora e da Luta contra o Antissemitismo, de extrema-direita, tinha celebrado no domingo a vitória do seu país no televoto espanhol daquele concurso de televisão como sendo uma “bofetada” na cara de Pedro Sánchez.
Num momento em que Israel acentua bombardeamentos que matam cada vez mais pessoas na Faixa de Gaza e o seu primeiro-ministro confessa abertamente o objetivo de invadir a totalidade daquele território, a direita espanhola silenciou estes factos e preferiu atacar as declarações de Sánchez e a postura da RTVE. Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid e sempre apontada como sucessora do atual líder do Partido Popular, disse ser a gala “mais sequestrada pela politização vergonhosa”, referindo-se, claro ao governo e ao canal público. E as fontes oficiais do partido criticaram como um erro estabelecer uma linha ideológica no concurso. Já a juventude do PP não se coibiu de participar na politização do evento e celebrou mesmo a vitória de Israel no certame, publicando uma fotografia do resultado das “televotações” com a legenda: “o governo a fazer política de tudo. Os espanhóis a responder-lhe”.
Mais contundente, na competição para se destacar do PP, o Vox pediu demissões na RTVE. O porta-voz José Antonio Fúster também afinava pelo diapasão de ser “muito má ideia politizar um festival”. E o líder Santiago Abascal afirmou que a postura de Sánchez foi “cruel” porque “premiou o Hamas”.
Outros países também exigem transparência nas votações
Para além de Espanha, também os canais da Bélgica, Islândia e Eslovénia se juntaram às exigências de transparência no sistema de votação por telefone.
A estação belga de língua neerlandesa VRT exigiu “total transparência sobre as regras e o sistema de votação” e avança que “sem uma resposta séria às nossas preocupações sobre a Eurovisão, colocamos em causa a nossa futura participação”. Este canal tinha emitido um anúncio um anúncio a favor da Palestina quando foi a primeira semifinal do concurso. Só que, ao contrário dos espanhóis, a UER não a ameaçou. Tal como nada fez depois de de, na final, o canal não ter passado a atuação de Israel e mostrado uma mensagem em fundo negro a criticar as violações dos direitos humanos em Gaza, o silêncio da imprensa, e apelou a um cessar-fogo na Faixa de Gaza.
Genocídio
Sindicatos e membros da CT da RTP defendem exclusão de Israel do festival da Eurovisão
A sua congénere francófona, a RTBF, que é a organizadora oficial do certamente no país, também tomou posição para exigir “níveis máximos de transparência.
Stefán Eiríksson, diretor da RÚV, Corporação Nacional de Radiodifusão da Islândia, informou por seu lado que vai solicitar à UER “a mesma informação” que os espanhóis pediram sobre como decorreu o processo de votação e garantiu que iriam seguir “de perto a evolução dos acontecimentos”.
A RTVSLO da Eslovénia emitiu uma nota em sentido idêntico, escrevendo igualmente que continuará a insistir na necessidade de “repensar os membros participantes no evento”.
Quanto à estação pública portuguesa, foi notícia na segunda-feira que estaria a preparar uma posição oficial sobre as dúvidas em torno do teevoto que também em Portugal deu a vitória a Israel. Mas uma fonte da RTP esclareceu depois que "houve uma interpretação errada das palavras do responsável da RTP pela Música e Artes de Palco, Gonçalo Madaíl, à Blitz”, e que na verdade “a RTP não disse que ia preparar uma posição oficial sobre o televoto em Portugal na canção israelita", disse a fonte oficial ao Sapo Mag.
Para justificar o seu silêncio sobre o escândalo do televoto, o canal diz que "o processo de votação do público no Festival Eurovisão da Canção é da exclusiva responsabilidade da UER, entidade que contrata diretamente as Operadoras de Comunicações em cada país participante, como se tem verificado nos últimos anos".
Questionado de vários lados, o diretor do festival, Martin Green, defende-se. Em declarações à agência noticiosa EFE, assegura que “o sistema de votação está desenhado com múltiplas camadas de verificação” que “os resultados de cada país são revistos e verificados por uma ampla equipa de pessoas para descartar qualquer padrão de votação suspeito ou irregular”, considerando o sistema “o mais avançado do mundo”.