Obituário

Morreu Conceição Ramos, fundadora do Sindicato do Serviço Doméstico

21 de abril 2026 - 11:27

Veio para Lisboa ainda criança como “criada de servir” e organizou as mulheres na mesma condição a lutarem pelos seus direitos, mas com um objetivo final: “acabar com a profissão”

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Conceição Ramos
Conceição Ramos. Imagem Esquerda.net

Faleceu esta segunda-feira Conceição Ramos, fundadora do Sindicato do Serviço Doméstico. Segundo o jornal Público, encontrava-se há cerca de um mês internada nos cuidados paliativos do Hospital de Chaves.

Nascida em 1941, começou a trabalhar ainda criança como criada de servir em Valpaços. Numa entrevista ao Fumaça, conta como foi para Lisboa e encontrou nas idas à missa um alívio para a solidão, aproximando-se da Juventude Operária Católica (JOC). Desses domingos de discussões e convívios surge a ideia, ainda antes do 25 de Abril, de juntar outras empregadas domésticas e irem ao Ministério do Trabalho para exigir a integração na Caixa de Previdência, o que conseguiram em 1973.

A ideia de constituir um sindicato das trabalhadoras domésticas já germinava, mas foi o 25 de Abril que a permitiu concretizar. Na noite da véspera da Revolução estava numa igreja do Estoril a preparar um caderno reivindicativo. A organização do sindicato partiu do grupo da JOC, com o apoio da Base-FUT, que cedeu uma sala, antes de ocuparem um prédio devoluto. Formado o Sindicato do Serviço Doméstico, Conceição torna-se dirigente a tempo inteiro e sai da casa dos patrões.

O sindicato criou a Cooperativa Operária de Prestação de Serviços Domésticos, com creche, refeitório, lavandaria e dormitório. E um dos objetivos, defendia Conceição Ramos, era o de “lutar para acabar com a profissão”. “Era a reconversão, a reconversão era pôr as pessoas a trabalhar naquilo que elas gostavam. E se não gostavam, o serviço doméstico acabava, claro. Porque eu muitas vezes disse: nós somos mulheres e estamos a fazer o trabalho que outras mulheres deviam fazer. Portanto, essas mulheres que trabalhem e nós vamos fazer outra coisa”, afirmou na entrevista ao Fumaça.

O cansaço acumulado das tarefas sindicais levou-a a deixar o sindicato em 1983, passando a trabalhar para uma empresa de limpeza. O sindicato foi integrado no STAD três anos depois.  

“Apesar de tudo, gostei muito de viver e gostei muito da vida que tive. Pois, não gostava de estar presa, não é? Gostava de ter mais liberdade para estar com as pessoas. Mas gostei muito, muito de viver e de andar na luta”, disse Conceição Ramos na mesma entrevista publicada em fevereiro de 2025.

A luta de Conceição Ramos e das trabalhadoras do serviço doméstico foi a base para uma investigação e espetáculo da atriz e encenadora Sara Barros Leitão, "Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa”. O Esquerda.net publicou em 2021 uma conversa entre as duas sobre as vidas que estão por trás da peça e sobre a peça que dá nova vida às memórias encaixotadas. 

O Bloco de Esquerda e o Esquerda.net endereçam sentidas condolências aos familiares e amigos de Conceição Ramos.