Centenas ocuparam os lugares do auditório onde o Bloco de Esquerda organizou o seu comício em Aveiro, para ouvir Mariana Mortágua e Luís Fazenda falar. Mais uma vez a sala fez-se pequena e várias pessoas acabaram por ficar sentadas nas margens e mesmo no palco.
A coordenadora do Bloco de Esquerda entrou novamente em palco com um keffiyeh, simbolizando a sua solidariedade com a luta pela libertação da Palestina, desta vez colocando-o sobre a tribuna de onde iria discursar. A dirigente bloquista agradeceu a Paula Cosme Pinto por ter aceitado ser mandatária nacional do partido e salientou a importância da luta feminista.
“Há uma onda neo-conservadora que é uma ameaça às mulheres. Há quem ache que fomos longe demais e temos demasiados direitos. Que fomos longe demais na igualdade e na nossa emancipação. Que falamos demasiado alto e demasiado sério”, disse. “Mas nós no Bloco achamos que ainda não fomos longe o suficiente”.
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Mariana e Louçã em comício para “juntar, juntar, juntar” contra a direita
Mais longe na representação das mulheres, na segurança, na liberdade, nos direitos, é o que defende a dirigente bloquista. “Os direitos das mulheres não são uma flor na lapela que usamos no 8 de março”, disse a coordenadora do Bloco de Esquerda. “O que as mulheres precisam não é disso, precisam é de liberdade”.
O feminismo “está no centro da nossa luta”, e “só podia estar”. “Porque as mulheres são um alicerce da sociedade”, explicou Mariana Mortágua, que diz que as mulheres estão “na linha da frente do sofrimento” em crises como a da habitação.
A dirigente bloquista afirmou que o direito à habitação e os tetos às rendas são uma política para todos, como os direitos ao trabalho por turnos, e por isso são também para as mulheres que muitas vezes são mais fragilizadas. “Respeitar o tempo para viver é também garantir os direitos das mulheres. Se nós reduzirmos o tempo de trabalho, se conseguirmos respeitar os trabalhadores por turnos, quem beneficia com isso?”, questionou.
Segundo Mariana Mortágua, a própria política de tributação das grandes fortunas é uma política que serve às mulheres quando esse dinheiro é redirecionado para as pensões. “Quantas mulheres trabalharam a vida inteira, aguentaram este país, e agora vivem com uma miséria?”
“Mudar de vida é responder pelas mulheres. Somos metade da população e tratadas como uma minoria muitas vezes”, afirmou a coordenadora do Bloco de Esquerda. “Nós pusemos sempre as mulheres no centro da nossa política e mudámos a política connosco”.
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“Onde é que fica a família?” Mariana e Fazenda ouviram trabalhadores por turnos em Santa Maria da Feira
Na legalização do aborto, na consideração da violência doméstica como crime público e nas outras conquistas do Bloco de Esquerda, a dirigente do partido vê o património político do Bloco, que também “mudou o partido por dentro e fez no seu partido as leis da paridade que queria para o país e para a política”.
O partido que “foi sempre à luta” tornou Portugal num “país mais igual” ao “mudar a política” e essa luta foi avançada também nas propostas do Bloco de Esquerda sobre a menopausa, um tema que “tem sido invisível”. Aos “homens e mulheres que lutam por um país mais igual e querem derrotar a extrema-direita”, Mariana Mortágua disse que o voto nessa luta “é o voto no Bloco de Esquerda”, concluindo assim a sua intervenção.
Um compromisso com a "vontade popular"
Luís Fazenda entrou no palco com ovação de pé da plateia e do palco, cumprimentou a coordenadora do Bloco de Esquerda e os restantes membros do painel e começou a sua intervenção dizendo que está em causa um “redescobrimento das várias lutas para fazer a luta toda”.
Escolhendo a imigração como tema de abertura, o fundador do Bloco de Esquerda disse que na sua campanha encontrou muitos trabalhadores imigrantes nas empresas e indústrias do distrito. Lembrou que o Bloco de Esquerda tem uma visão da sociedade que parte do trabalho e isso está ligado à imigração mas também aos salários que foram sendo comidos pelo custo de vida.
Dando ênfase ao enfraquecimento da contratação coletiva no enfraquecimento do trabalho face ao capital, explicou que "o definhamento dos contratos coletivos de trabalho leva também à erosão da força e da organização política e democrática no nosso país”.
Fazenda lembrou que a Ministra do Trabalho adia a revisão do Código de Trabalho porque “não quer orientar a política laboral em Portugal para os direitos de quem trabalha”. Deixando o alerta que “uma maioria do PSD vai apertar a garganta aos trabalhadores”.
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Mariana com Ana Drago: Bloco “responde aos grandes desafios do futuro”
Virando a sua mira para a NATO, o fundador e ex-deputado do Bloco de Esquerda salientou que o salto na despesa para defesa em Portugal que se pretende “é muito mais do que se gasta em educação”. “Nós não temos condições financeiras para isso”, disse.
“O dinheiro não é elástico e não vai aparecer por milagre para a defesa, se já vamos ter um corte nos fundos de coesão, terá de ser o país a endividar-se para pagar”, explicou. “Não podemos apoiar isso”. Do armamento, o cabeça-de-lista do partido pelo círculo eleitoral de Aveiro saltou para o genocídio em Gaza para dizer que o reconhecimento do Estado da Palestina “era para ontem”, sendo interrompido por aplausos.
Luís Fazenda ainda falou da interrupção voluntária da gravidez, dizendo que “lutaremos para manter o Estado laico” e que defenderá “tudo o que estamos a defender para que a objeção de consciência na IVG não seja uma prepotência de moral que se quer impor aos outros”. Lembrando as lutas que a esquerda tem feito durante toda a sua história, concluiu reafirmando o seu compromisso com a “vontade popular”.
“O país que nós queremos é o país da empatia”
Foi Mário Moutinho que deu o arranque do comício desta quarta-feira em Aveiro do Bloco de Esquerda. O ator, conhecido pelo seu papel como “Marcial Andrade” em Os Andrades, lembra que trabalhou muitas vezes em Aveiro e diz que se aproximou do Bloco pela sua proximidade à política cultural do partido, que defende um reconhecimento das estruturas de criação e apresentação artísticas e de animação cultural.
“Independentemente de trabalhar em todas as frentes que são necessárias para o crescimento do Bloco de Esquerda, estou num partido que tem um histórico na política cultural”, disse o ator, que também é autarca. E nomeou a rede de cineteatros e o estatuto de profissionais da cultura como conquistas do partido.
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Contra o projeto da direita, Mariana perguntou “quem tem medo da liberdade?”
Há conquistas que faltam. Direitos para quem trabalha com a população em projetos de desenvolvimento artístico, mas Mário adianta que esses valores serão defendidos “pelos novos deputados do Bloco de Esquerda que serão eleitos no domingo”.
Paula Cosme Pinto foi a primeira convidada do ator, que a caraterizou como “uma grande mobilizadora dos jovens” para o tema do feminismo. A profissional de comunicação falou da sua experiência como autora feminista na comunicação social, onde recebeu vários insultos e ameaças.”Para mim não é novidade que esta violência exista”, disse.
Sobre a violência e discurso de ódio nos meios digitais, Paula Cosme Pinto disse que o terreno digital é “terra de ninguém” no que toca à regulação. Para além disso há uma normalização que leva a um “aliciamento de públicos mais jovens que andam nas redes sociais”.
Sobre esse aliciamento, que está ligado também a questões de masculinidade, a mandatária nacional do Bloco de Esquerda disse que “nenhum homem é totalmente livre na teia do machismo”, e que também há um discurso digital que “dá colo” a quem se sente desintegrado, e coloca o problema nas mulheres, nas feministas e na esquerda.
A geração que fez a luta feminista também tem responsabilidade no sentido em que “não se sentou com estes rapazes e desconstruiu estas ideias. É muito fácil culpá-los, mais difícil é sentarmo-nos com eles com empatia e percebermos como é que viramos o bico ao prego”.
“Quando aceito ser mandatária do Bloco, quer dizer que não desconfio destas mulheres nem dos homens que as acompanham”, disse, depois de ter sinalizado o que tem sido uma instrumentalização das mulheres para “colocar mulheres contra mulheres”.
O segundo convidado de Mário Moutinho foi Pedro Filipe Soares, que durante muitos anos foi líder da bancada parlamentar do partido. O dirigente do partido começou por lembrar a história do partido e, ligando às questões de violência de género, lembrou a primeira conquista do partido, colocando a violência doméstica como crime público.
Sobre todas as conquistas do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares disse que o partido “ajudou a mudar mentalidades” em vários aspetos e com diferentes lutas, salientando aí o que o partido conseguiu fazer pelas mulheres. Desde a Lei da Paridade à Interrupção Voluntária da Gravidez, o dirigente bloquista explica que o Bloco de Esquerda rompeu com a ideia de que entre a rua e o parlamento não há ligação.
“Desengane-se quem ache que não há mais nada para mudar. Ainda achamos que a violação não deve ser crime público em Portugal? O país que nós queremos é o país da empatia, e é isso que vamos conseguir mudar”, concluiu.