Massimo Carlotto é um dos principais escritores noir italianos contemporâneos. A série do Alligatore – iniciada em 1995 – é o seu projeto narrativo mais conhecido e marcou a entrada em cena, no noir, de um investigador atípico e sem licença, preso injustamente, marcado por uma desconfiança radical em relação à magistratura e à polícia, à margem da legalidade oficial, mas portador de uma moral firme, acompanhado por um contrabandista de ética inabalável e por um ex-militante dos anos 1970, perseguido e encarcerado por uma ideia radical de dignidade e liberdade. Três herdeiros de uma tradição de dissidentes e exilados políticos. Nos seus livros, o território é narrado a partir das zonas de sombra e das ambiguidades, trazendo à superfície o que é reprimido na compenetração não episódica entre criminalidade e economia legal. Não a criminalidade marginal, mas aquela que circula nos circuitos institucionais e financeiros, “a que dificilmente acaba na prisão”.
Carlotto é alguém que levanta o véu, como se, num cenário de género feito de pintores de convenção, surgissem de repente Orazio Gentileschi ou Bartolomeo Manfredi: não um virtuoso do pincel, mas alguém que leva para a tela os pés sujos do santo, as chagas na pele, as rugas. A escrita como retrato verídico da sociedade. Uma lente sobre o apodrecimento. Mais do que ensaios, artigos ou panfletos. Máfias locais e redes criminais transnacionais, crimes de Estado e entrelaçamentos entre aparelhos. Tráfico de mulheres, exploração do trabalho, evasão fiscal, corrupção. A prisão como lixeira social. O crime como pretexto para ler a mutação antropológica em curso. As “maçãs podres” como álibi de uma árvore infestada pelas raízes. Para Carlotto, o noir é uma contra-narrativa daquilo que a Itália – e a Europa – preferem não ver: o espelho do presente, o reflexo apodrecido de um sistema fundado na exploração do trabalho e na colonização das existências.
Ciao, Massimo, gostaria de te perguntar: como escolhes as dinâmicas sociais e criminais em torno das quais constróis a trama dos teus romances?
O noir, para mim, é um instrumento para ler o território e as suas transformações. É preciso partir da situação económica e da relação entre economia e crime. Hoje, o dinheiro legal e o ilegal são praticamente indistinguíveis. A verdadeira novidade é a difusão do trabalho ilegal e do caporalato [NT: Forma ilegal de angariação e exploração da mão-de-obra] de como mecanismos estruturais da economia. Está em curso uma modificação antropológica ligada à proliferação de figuras perfeitamente integradas na sociedade, com cadastro limpo, cuja ilegalidade é tolerada e normalizada, percebida como uma simples “travessura”. Esta é a verdadeira transformação. Afinal, vivemos numa sociedade em que os pobres defendem os ricos, acordas um dia e encontras os fascistas no governo, enquanto os territórios são cada vez mais saqueados e empobrecidos. O noir serve para contar as histórias negadas.
Entrevista
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De que te ocupaste nos teus trabalhos mais recentes?
Nos últimos trabalhos ocupei-me sobretudo de como, na Europa, a criminalidade organizada é tolerada e tornada funcional aos equilíbrios políticos e de segurança produzidos pela guerra e pelos enquadramentos geopolíticos. Retrato um sistema em que o tráfico de armas, de droga e de pessoas prospera graças a coberturas e acordos entre aparelhos. Fenómenos que desaparecem completamente do relato público. Ocupei-me da transformação da ação do Estado: já não orientada para atingir os sistemas criminais estruturais, mas para usar a pequena criminalidade e a marginalidade como espantalho, legitimando políticas securitárias e dispositivos de controlo social. Mas, no centro dos meus romances, está muitas vezes o trabalho: exploração, caporalato, economia ilegal integrada na economia legal. E ocupei-me da prisão como eixo desta estratégia: uma instituição cada vez mais punitiva e hiper-blindada, que não recupera, produz aniquilamento, autolesão e suicídios, e funciona como uma verdadeira ditadura dentro da democracia.
O que mudou, na tua opinião, desde que começaste a escrever?
Mudou sobretudo o mundo: piorou. Existe uma derrota geral com a qual é preciso lidar. Nas histórias individuais, por vezes ainda se consegue restabelecer um mínimo de justiça, mas, no plano global, o contexto tornou-se mais duro. Vivemos dentro de um capitalismo cada vez mais extremo e desenfreado, fundado na exploração, sobretudo do trabalho. Este modelo de produção gera monstros sociais, perfeitamente integrados, mas profundamente violentos. Mudou também o olhar: as personagens envelhecem, trazem consigo memória e experiência. Para mim, é fundamental contar o tempo que passa, porque isso obriga quem lê a confrontar-se com as transformações reais da sociedade.
Qual é hoje, na tua opinião, o estado do noir?
É cada vez mais necessário distinguir entre o romance policial e o noir. O policial reproduz quase sempre a mesma estrutura – crime, investigação, resolução – e termina com o triunfo dos “bons”. É um género plenamente integrado e socialmente tranquilizador. Já não é um romance político. O noir, pelo contrário, continua a ser uma forma minoritária e nasce como um olhar sobre o negativo. O crime é apenas um pretexto para contar o que está à volta: um tempo, um lugar, os ambientes sociais, as transformações do poder. É um instrumento para ler a sociedade. O problema, hoje, é a ausência de análise. Muitos romances são formalmente bem construídos, mas consoladores. Não contam verdadeiramente as transformações da criminalidade e do capitalismo contemporâneo. Por isso, o noir deveria voltar a ser um instrumento eversivo face ao estado de coisas existente, capaz de travar o leitor, de o obrigar a confrontar-se com uma leitura reconhecível do presente. Continuando a ser romance, e não um ensaio disfarçado.
Existe, na tua opinião, um noir de direita?
Existem autores de direita, mas a ideia de um noir de direita, tal como eu o entendo, sustenta-se pouco. O noir é uma literatura política, mas também moral, e é dificilmente compatível com uma visão de direita. Pode-se contar corrupção, violência e degradação sem uma verdadeira intenção crítica: mostrar o lado obscuro da sociedade não basta. Se a narrativa se limita a registar a realidade, acaba por a normalizar. Para mim, o noir tem de entrar nas instituições, no trabalho e nos mecanismos do capitalismo, e desmontar os imaginários dominantes, a começar pelo do “inimigo interno” – hoje novamente central, como figura do traidor, do adversário político, do migrante. Quando isso não acontece, mesmo uma escrita de alto nível permanece numa dimensão profundamente consoladora. E essa não é a minha ideia de noir.
Sebastiano Palamara é jornalista freelance e colaborador do Spazio70, DinamoPress e de outras publicações.