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Eleições em Israel: a paz cada vez mais longe na Palestina

Nas eleições do passado, dia 9, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, conseguiu uma histórica eleição para um quinto mandato (o quarto consecutivo). Por Jorge Martins.
Benjamin Netanyahu, conseguiu uma histórica eleição para um quinto mandato (o quarto consecutivo)
Benjamin Netanyahu, conseguiu uma histórica eleição para um quinto mandato (o quarto consecutivo)

Nelas, o seu partido, o nacional-conservador Likud obteve mais um mandato parlamentar que a aliança centrista liderada pelo antigo general Benny Gantz. Mas, mais importante, o seu bloco ideológico, que integra partidos da direita e da extrema-direita, religiosos e laicos, conquistou a maioria dos lugares no Parlamento, o que, em princípio, permite ao chefe do executivo formar uma coligação governativa. Contudo, apesar do seu categórico triunfo, continuam a pairar algumas “sombras” sobre o chefe do governo israelita com maior tempo de permanência consecutiva no cargo.

Um parlamentarismo puro

O Estado de Israel não possui uma Constituição escrita, embora a sua Lei Básica possua valor constitucional. O seu regime pode caraterizar-se como de parlamentarismo puro.

O Presidente é uma figura com poderes pouco mais que cerimoniais, sendo o seu papel político mais importante servir de mediador para a formação dos governos ou em caso de crise política. É eleito por sufrágio indireto, através de uma votação secreta do Parlamento, para um mandato único de sete anos, estando-lhe vedada a reeleição posterior. Vence a eleição o candidato que obtenha a maioria absoluta dos votos na 1ª volta. Se nenhum atingir esse número, os dois primeiros disputam um 2º turno, onde o mais votado é eleito.

O poder executivo reside, assim, quase por inteiro, no primeiro-ministro e no gabinete ministerial. Para poder tomar posse, necessita do apoio da maioria absoluta dos deputados em funções. O chefe do governo pode remodelar os ministros, mas as suas novas escolhas necessitam de aprovação parlamentar.

O Parlamento (Knesset) dispõe do poder legislativo. É constituído por 120 membros, eleitos por sufrágio universal, direto e secreto para um mandato de quatro anos. A eleição dos parlamentares obedece ao sistema de representação proporcional, num círculo único nacional, sendo a alocação dos mandatos feita através do método do quociente eleitoral simples. Os mandatos remanescentes serão atribuídos de acordo com a média mais alta, o que irá dar resultados muito idênticos aos do método de Hondt. Existe uma cláusula-barreira, recentemente fixada em 3,25% dos votos válidos. Duas forças políticas podem formar alianças eleitorais, de forma a que, caso ambas tenham ultrapassado aquele limiar, as suas votações sejam somadas para a distribuição dos lugares sobrantes. De seguida, efetua-se a distribuição entre as formações coligadas, de acordo com a mesma metodologia.

Por fim, o poder judicial é independente, tendo no topo o Supremo Tribunal, constituído por 15 juízes, nomeados pelo Presidente após indicação de um comité de seleção de nove membros (o ministro da Justiça e outro membro do governo, dois parlamentares, dois representantes da Ordem dos advogados e três do próprio órgão: o presidente e dois rotativamente). O seu mandato prolonga-se até aos 70 anos, exceto em caso de morte, renúncia ao cargo ou afastamento por motivos de natureza criminal e/ou disciplinar. Para além de última instância judicial, está-lhe, igualmente, atribuída a verificação da constitucionalidade das leis.

Este sistema reflete o pensamento das primeiras elites sionistas, fundadoras do Estado de Israel. Provenientes na sua maioria da Europa Central e Oriental, onde os regimes autoritários e totalitários eram a regra e às mãos dos quais os judeus sofreram as mais diversas discriminações e perseguições, que culminaram na barbárie nazi e consequente tragédia do Holocausto, pretenderam que a nova nação não dispusesse de um poder executivo forte e que as minorias tivessem representação nos órgãos de poder.

Contudo, teve como senão produzir uma grande fragmentação parlamentar, pois permite a representação de grande número de pequenas forças políticas e, ao mesmo tempo, favorece a existência de cisões e qualquer personalidade com alguma influência tende a formar um novo partido. Consequentemente, provocou a existência de governos fracos e frequentes crises políticas, com os maiores partidos a ficarem, muitas vezes, reféns de pequenas formações e das suas agendas, como é o caso dos partidos religiosos. Tal efeito foi ainda potenciado pelo facto de estarmos em presença de uma sociedade bastante diversa e fraturada, não apenas entre judeus e árabes, mas também entre judeus ashkenazim (provenientes da Europa, em especial Central e Oriental, mas também da Ocidental, dos EUA, Canadá e Austrália, para onde tinham emigrado) e sefarditas (vindos do Médio Oriente, do Norte de África e da Europa do Sul) ou entre judeus laicos e religiosos ortodoxos e ultraortodoxos, entre outras clivagens de natureza étnico-religiosa, a que se juntam as tradicionais divisões de classe, próprias do capitalismo.

Por esse motivo, a cláusula-barreira foi sendo sucessivamente aumentada: de 1% até 1992, subiu para 1,5% nesse ano e para 2% em 2003. Em 2014, foi estabelecido o atual valor de 3,25%, resultante de um compromisso salomónico entre os maiores partidos, que queriam fixá-la em 4%, e os menores, que apenas aceitavam subi-la até 2,5%.

Outra tentativa de tentar ultrapassar esses inconvenientes foi o estabelecimento da eleição direta do primeiro-ministro. Na prática, estabelecia-se um original sistema presidencialista, que diferia dos tradicionais pelo facto de o poder presidencial residir no líder do executivo, mantendo-se um chefe de Estado com um papel cerimonial. Posta em prática pela primeira vez em 1996, ocorreu também em 1999 e 2001. Das duas primeiras vezes, realizou-se no mesmo dia da do Knesset; na última, após uma crise política, em separado. Contudo, o efeito foi o contrário ao pretendido. Na estreia deste sistema, em 1996, Netanyahu chegou pela primeira vez ao poder, após derrotar inesperadamente o trabalhista Shimon Peres, apesar de o Labor ter sido o partido mais votado e o que obteve a maior representação parlamentar. Com isso, o líder do Likud acabou por se aliar aos partidos da direita religiosa, cuja influência aumentou em lugar de diminuir. Sucedeu algo de semelhante com Ehud Barak, em 1999, e Ariel Sharon, em 2001. Acontece, ainda, que os eleitores passaram a utilizar o “voto útil” na escolha do chefe do governo, mas em contrapartida, deixaram de o fazer na eleição parlamentar, o que teve como consequência uma maior fragmentação deste, com a diminuição do peso das maiores forças políticas e o aumento do número de partidos no Knesset. Por isso, em 2003, o sistema foi abandonado.

Uma eleição democrática?

Um aspeto que leva a questionar a efetiva democraticidade das eleições israelitas está intimamente relacionado com a questão palestiniana. Na verdade, o estatuto dos palestinianos é diferente consoante o território em que habitam. Os que residem no Estado de Israel, oficialmente designados por árabes israelitas, constituem cerca de 21% da população daquele e possuem a cidadania do país. Por isso, apesar de estarem sujeitos, no quotidiano, ao racismo e à desconfiança por parte da maioria judaica e sofrerem vários tipos de discriminação (que a lei recentemente aprovada no Parlamento, consagrando o país como “Estado do povo judeu”, só vem oficializar) possuem o direito de votar e de ser eleitos, tanto a nível local como nacional. Ao invés, os que vivem na Cisjordânia, sujeitos a um regime próximo do “apartheid” sul-africano de má memória, e os de Gaza, uma verdadeira prisão a céu aberto, estão impedidos de o fazer, pois não são considerados cidadãos israelitas.

O mordomo de Netanyahu

Joana Mortágua

Tal poderia, ainda, ser minimamente aceitável, se a medida se aplicasse a todos os residentes nos territórios ocupados, ficando a escolha reservada aos que vivem nas fronteiras internacionalmente reconhecidas de Israel. Porém, não é o que se passa, já que os colonos judeus aí estabelecidos (de forma ilegal, à luz do Direito Internacional) são considerados cidadãos israelitas e têm, por isso, o direito de participação na vida política do país, incluindo o de votar e ser eleitos. E a verdade é que o seu voto tem sido decisivo nos últimos atos eleitorais, contribuindo, em muito, para a viragem à direita da sociedade israelita e consequente aumento da intransigência do governo judaico em relação aos palestinianos.

Nos últimos tempos, sob os governos de Natanyahu, apoiado nas várias extremas-direitas, o cerco às liberdades das minorias étnicas e/ou religiosas não judaicas tem vindo a apertar. Assim, para além da lei acima referida, que, na prática, rebaixa aquelas a uma cidadania de segunda ordem, também houve alterações à lei eleitoral, no capítulo da admissão de candidaturas, que coloca em xeque os partidos árabes. De acordo com o articulado da nova legislação, não podem concorrer aos diversos atos eleitorais forças políticas que neguem o caráter judaico e democrático do Estado de Israel, que apoiem a luta armada contra ele ou promovam o racismo. Por isso, num primeiro momento, a Comissão Eleitoral Central (CEC) recusou as listas das formações árabes, mas a decisão foi, posteriormente, revertida pelo Supremo Tribunal.

Entretanto, no dia da eleição, membros do partido governamental Likud colocaram cerca de 1200 câmaras de filmar ocultas nas secções de voto onde a maioria dos votantes é de origem árabe. Tal ocorrência, um verdadeiro escândalo em qualquer democracia civilizada, foi alvo de queixa à CEC, que ordenou à polícia a sua retirada. Mas o objetivo de Netanyahu foi conseguido: afastar das urnas muitos árabes, já de si pouco confiantes no processo eleitoral.

Entretanto, a contagem dos votos esteve envolta numa grande “trapalhada”. Depois de, na quarta-feira, os resultados atribuírem 3,14% à Nova Direita (NR), um partido da extrema-direita formado poucos antes das eleições, na madrugada de quinta-feira, após a contagem dos boletins dos soldados, diplomatas, presos, doentes internados e pessoas com deficiência, o “site” da CEC mostrava um resultado de 3,26%, ou seja, acima da cláusula-barreira. Mas, pouco depois, um porta-voz daquele órgão produzia uma declaração em que afirmava que ela se ficara pelos 3,22% e não entraria no novo Knesset, atribuindo a informação errada a problemas informáticos. Na verdade, a totalidade dos votos válidos, no referido “site”, somava, então, 101,4%. A partir desse valor, fiz uma extrapolação dos valores percentuais para 100%, que me permitiu chegar a números praticamente idênticos aos resultados supostamente finais, embora ainda sujeitos a alteração até ao próximo dia 17. Há, também, na imprensa israelita, notícia de discrepâncias em algumas localidades, mas a CEC considera que se tratou apenas de erros informáticos, entretanto corrigidos.

Tudo isso coloca em causa a confiança popular no processo eleitoral, algo sem precedentes na história do país, onde não há registo de fraudes eleitorais significativas. Apesar do pecado original do nascimento do Estado de Israel, com a expulsão da maioria das populações árabes da Palestina, em 1948, e da ocupação dos territórios palestinianos de Gaza, da Cisjordânia e da parte leste de Jerusalém, após a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, e da deriva autoritária face aos não judeus que tem ocorrido nos últimos anos, as instituições democráticas israelitas funcionam relativamente bem, como se verificou, ainda recentemente, com o processo instaurado pela Procuradoria-Geral do Estado ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, alvo de várias acusações de corrupção.

As eleições do passado dia 9 deveriam ter-se realizado apenas em novembro. Contudo, divergências no seio da coligação levaram à saída do ministro da Defesa, Avigdor Lieberman, líder do partido da extrema-direita secular Yisrael Beitanu, que retirou o seu apoio ao executivo de Netanyahu. Aquele procurou alterar a lei que isenta os judeus ultraortodoxos do serviço militar, obrigatório para os restantes cidadãos judeus de ambos os sexos, e criticou o que considerou uma resposta “mole” face a um pequeno ataque com mísseis provenientes de Gaza, atribuído ao Hamas. Apesar de a sua coligação manter uma maioria de um lugar no Knesset, o primeiro-ministro optou pela antecipação do ato eleitoral.

Para essa opção contribuiu o apertar do cerco por parte das autoridades judiciais, que acusam Netanyahu de vários crimes de corrupção. Percebendo que se arriscava a ser “cozido em lume brando”, especialmente ao ter de responder em Tribunal a essas acusações, escolheu a “fuga para a frente” das eleições antecipadas, esperando sair delas relegitimado e em condições de poder proteger-se através de alterações legais no futuro imediato. Claro que, para isso, teria de vencer o sufrágio. E ganhou a aposta!...

Análise dos resultados eleitorais

Vamos, agora, proceder à análise dos resultados eleitorais, com destaque para o desempenho das diferentes forças políticas e respetivos blocos.

Apesar de a vantagem do bloco direitista face ao conjunto do centro-esquerda e partidos árabes se ter reduzido um pouco (de 67-53 em 2015 para 65-55 agora) e de alguns partidos da extrema-direita terem perdido votos, podemos afirmar que estas eleições confirmaram a viragem à direita da sociedade israelita, já visível nos sufrágios mais recentes. Por isso, tudo indica que a paz, só possível com o fim da ocupação, está cada vez mais longe da martirizada Palestina.

O BLOCO DIREITISTA

No novo Knesset, será constituído por seis partidos (sete, caso a Nova Direita consiga ultrapassar a cláusula-barreira em eventual recontagem) e terá 65 lugares parlamentares (67, naquela eventualidade).

Têm em comum a intransigência ou, mesmo, a mais completa hostilidade face aos palestinianos. Representam a ala direita do sionismo, que sonha com o Grande Israel (ou seja, a ocupação total da Palestina), ou por razões religiosas (a reconstrução do território judaico dos tempos bíblicos) ou de segurança (vendo num eventual estado palestiniano independente uma ameaça à existência do estado hebraico). Existem, no entanto, diferenças de grau entre eles.

Possuem, ainda, algumas diferenças nas questões religiosas (uns são seculares, outros ortodoxos) e económico-sociais (uns são mais liberais, outros têm algumas preocupações sociais).

Eis as principais forças políticas deste campo ideológico.

Likud

O seu nome significa Consolidação. Trata-se de uma das mais antigas forças políticas do país, fundada em 1973 por Menachem Begin como uma aliança eleitoral do centro-direita e da direita, mas só se tornou num partido unificado em 1988. Após três décadas de governos trabalhistas, acedeu ao poder em 1977 e, a partir daí, tem ocupado quase sempre a chefia do executivo. No recente ato eleitoral, foi a lista mais votada, obtendo 26,45% dos votos, que lhe valeram a conquista de 36 lugares no Knesset, um dos seus melhores resultados de sempre. Em 2015, conseguira 23,40% e 30 eleitos. O facto de ter feito uma aliança eleitoral com uma formação da extrema-direita religiosa (a URWP) permitiu-lhe ganhar um lugar na distribuição dos mandatos remanescentes.

Foi, originariamente, uma formação conservadora, representante da direita sionista laica, situada no centro-direita do espectro partidário. Porém, nos últimos anos, sob a liderança de Netanyahu, tem vindo progressivamente a deslocar-se para a direita, podendo considerar-se, hoje, um partido nacional-conservador. Apesar dessa deriva, mantém a defesa do caráter secular do Estado. Já no plano económico e social, é moderadamente liberal. Na questão palestiniana, defende a preservação do status quo, aceitando a existência de um estatuto de autonomia de Gaza e da Cisjordânia, mas não de um Estado independente.

Apesar das graves acusações de corrupção que visam o seu líder e primeiro-ministro, obteve um dos melhores resultados de sempre. Para além de a corrupção entre os governantes não ser caso virgem no país, o que leva à sua naturalização, Netanyahu conseguiu convencer muitos dos seus apoiantes de que elas são politicamente motivadas por o que designa de “juízes ativistas”, com a cumplicidade de alguns jornalistas, supostamente ligados à esquerda. Onde já vimos isto?!...

Por outro lado, a economia israelita atravessa uma boa fase, o que garantiu um apoio da maioria das classes médias à governação.

Simultaneamente, a situação de segurança, tanto em Israel como nos territórios ocupados, é de relativa acalmia, o que favorece o executivo. Aliás, o tema esteve, de início, quase ausente da campanha. No entanto, um incidente de pequena escala na fronteira de Gaza, com um alegado lançamento de dois mísseis artesanais, serviu em pleno os propósitos de Netanyahu para “mostrar músculo” e introduzir a questão da segurança na campanha, lembrando a ameaça existencial à nação, algo que favorece sempre a direita israelita.

Já na reta final da campanha, em resposta à pergunta de um jornalista, declarou ter a intenção de anexar as áreas da Cisjordânia onde se situam os principais colonatos judaicos, dando a entender que terá o apoio de Trump para o efeito. Resta saber se se tratou apenas de um truque de campanha, destinado a ir buscar votos aos colonos e outro eleitorado da direita radical e da extrema-direita ou se é mesmo uma promessa para cumprir.

Não por acaso, a subida do Likud foi conseguida muito à custa de alguns dos seus aliados mais pequenos, tanto da direita como das extrema-direita, embora também tenha sido reforçada pela fraca afluência às urnas dos árabes.

O partido conseguiu os seus melhores resultados nos pequenos e médios centros urbanos e nas áreas rurais mais conservadoras, mas habitadas por judeus seculares, um pouco por todo o país. Obteve, ainda, vitórias claras nas principais cidades do Sul (Beersheba, no Negev, e Ashdod, na costa mediterrânica), bem como em Sderot, junto a Gaza, e em Eilat, a mais meridional do país, no golfo de Aqaba, à entrada do mar Vermelho. Foi, ainda, o mais votado em Jerusalém, com cerca de 25% dos votos. Conseguiu, também, vencer em diversos colonatos, habitados por judeus seculares ou mistos (onde coabitam laicos e religiosos), em especial junto à “cidade santa”, mas teve resultados mais fracos nos exclusivos de ortodoxos e ultraortodoxos.

Em Telavive e em Haifa, a maior cidade do Norte, foi segundo, atrás da coligação de Gantz, tendo-se quedado pelos 19% na capital internacionalmente reconhecida, porventura a mais progressista urbe judaica de Israel. Como é tradicional, também foram mais fracos os resultados nos kibutzes, aldeias comunitárias onde a terra é explorada coletivamente, e, em menor grau, nos moshav, cooperativas de produção agrícola, embora melhores que o habitual.

(Extrema) direita religiosa

Nestas eleições, o maior dos partidos da direita religiosa foi o Shas, acrónimo que significa Sefarditas Observantes da Torah. Foi fundado em 1984 pelo rabi Ovadia Yosef e, como o nome indica, pretende representar os judeus sefarditas ultraortodoxos, isto é, que rejeitam a modernidade ocidental. Trata-se, assim, de uma formação social-conservadora, fundamentalista em termos de costumes, misógina e homofóbica. Porém, é defensora de uma economia mista e de um certo assistencialismo social, pelo que chegou a integrar alguns governos de centro-esquerda.

Na questão palestiniana, teve, inicialmente, uma posição de alguma abertura e o seu fundador votou favoravelmente os acordos de Oslo, em troca do aumento do financiamento às escolas talmúdicas por parte do executivo de Yitzhak Rabin. Contudo, tendo parte da sua base de apoio entre os colonos, deslocou-se para a direita, recusando o abandono dos colonatos e dos lugares santos da Cisjordânia e defendendo a anexação de Jerusalém Leste. Após a morte do seu líder espiritual, em 2013, assumiu a liderança Aryeh Deri. Este e outros dirigentes do partido enfrentam acusações de fraude e falsificação de documentos, enquanto um dos seus deputados foi condenado por suborno.

Apesar de todas essas acusações, foi a terceira força política mais votada, obtendo 5,99% dos sufrágios e a eleição de oito parlamentares, uma ligeira melhoria face aos 5,73% e sete eleitos de há quatro anos. Beneficiou, ainda, da aliança com a força religiosa de que falaremos a seguir para obter um dos lugares remanescentes.

Conseguiu boas votações nos colonatos habitados por judeus ultraortodoxos sefarditas e em Jerusalém, onde foi terceiro, com 14% dos votos. Nas restantes cidades, a sua votação foi mais fraca, sendo, no entanto, de registar os 11% em Ashdod e os 6% em Beersheba.

Outra formação da direita religiosa é o Judaísmo Unido da Torah (UTJ). Trata-se de uma aliança entre dois partidos: o Agudat Yisrael (União de Israel) e o Degel HaTorah (Bandeira da Torah), estabelecida em 1992. Ao contrário do anterior, sefardita, representa duas correntes dos judeus ultraortodoxos ashkenazim: os primeiros, os hassiditas, corrente judaica misticista nascida na Ucrânia ocidental e na Polónia; os segundos, talmúdicos, originários da Lituânia. Ambas se espalharam, posteriormente, pela Europa Central e Oriental. Tal como o Shas, é social-conservador e fundamentalista, partilhando com ele a misoginia e a homofobia. Pretende um Estado teocrático, fundado na lei religiosa (Halasha). A sua liderança cabe a Yaakov Litzman, líder do Agudat Yisrael e ex-ministro da Saúde, posto de que se demitiu por o governo ter autorizado a reparação de uma via férrea ao sábado (o Sabbath, dia santo para o judaísmo). O nº 2 é Moshe Gafni, líder do Degel HaTorah.

Embora a posição não seja unânime, já que algumas fações ultraortodoxas dão mais importância à observância dos princípios religiosos que à expansão territorial, é contrário à retirada dos colonatos da Cisjordânia e apoia a anexação destes e de Jerusalém Leste, posição que tem vincado nos últimos tempos, com o reforço da corrente mais ligada ao Agudat Yisrael.

Daí ter recebido bastante apoio nos colonatos habitados por judeus ultraortodoxos ashkenazim, onde foi, invariavelmente, o mais votado, atingindo, em alguns deles, na periferia de Jerusalém, perto de 80% dos sufrágios. Nos mistos, a sua votação foi bastante menor, mas ainda obteve um apoio significativo, na casa dos 20%. Na “cidade santa”, foi segundo, atrás do Likud, com 23%, mas a sua implantação nas outras cidades é relativamente fraca, com exceção de Ashdod, onde atingiu 11%.

A nível nacional, foi a quarta força mais votada, obtendo 5,77% dos votos e sete lugares no Parlamento, uma subida face aos 4,99% e seis deputados de 2015.

A terceira força de inspiração religiosa é a União dos Partidos da Direita (URWP), criada em fevereiro para concorrer a estas eleições. É constituída por três formações da direita radical e da extrema-direita: A Casa Judaica (JH), o Tkuma (Ressurreição) e o Otzma Yehudit (Poder Judaico).

O primeiro e mais importante, dirigido por Rafi Peretz, líder da coligação, é da direita radical, inserindo-se dentro do sionismo religioso, sendo, simultaneamente, conservador nos costumes e nacionalista, favorável à expansão dos colonatos na Cisjordânia e na periferia de Jerusalém Leste. Os outros dois são, claramente, de extrema-direita: o Tkuma, liderado por Bezalel Smotrich, igualmente adepto do conservadorismo religioso, é partidário do Grande Israel e apoia a anexação da Cisjordânia e de Jerusalém Leste; pior ainda, o Otzma Yehudit, chefiado por Michael Ben-Ari, defende, além dessa posição, um estado teocrático e é abertamente antiárabe, sendo considerado por muitos como o herdeiro do Kach, um partido racista, fundado pelo rabi Meir Kahane (assassinado em 1990, em Nova York), que defendia a expulsão de todos os árabes da Palestina, e que foi ilegalizado por ser racista.

Defendem a solução de um único Estado, através da anexação da Cisjordânia e do leste de Jerusalém. De acordo com esta corrente, aquele continuaria a ter uma maioria judaica, mesmo que tal implicasse a concessão da nacionalidade israelita aos palestinianos daqueles territórios. Ao invés, Gaza manter-se-ia sob ocupação ou seria entregue ao Egito.

É o principal partido dos colonos, em especial entre os judeus ortodoxos, embora também capte, marginalmente, ultraortodoxos e, em menor grau, seculares. Conseguiu os seus melhores resultados nos colonatos do sul da Cisjordânia, onde ultrapassou, frequentemente, os 50%, e também teve um bom desempenho nos implantados na periferia de Jerusalém e habitados, maioritariamente, por judeus religiosos. Porém, na cidade, ficou em quinto lugar, com 7% dos votos. Nos restantes meios urbanos, teve votações residuais, à exceção de Sderot, junto a Gaza, onde chegou aos 10%.

Foi a oitava força política a nível nacional, com 3,70% dos votos, que lhe valeram a eleição de cinco deputados. Uma quebra face a 2015, quando A Casa Judaica, sozinha, obtivera 6,74%, que lhe garantiram, então, oito lugares.

Para além de ter visto algum do seu eleitorado “canibalizado” pelo Likud, fruto da viragem à direita deste, há que ter em conta a saída de Naftali Bennett, ministro da Educação, que liderara a lista em 2015 e que, pouco antes das eleições, saiu para formar o seu próprio partido: a Nova Direita (NR), o tal que ainda luta, na “secretaria”, para aceder ao novo Parlamento.

(Extrema) direita laica

O maior partido desta corrente é o Yisrael Beitanu (Israel A Nossa Casa), liderado pelo antigo ministro da Defesa, Avigdor Lieberman. Fundado em 1999, com o intuito de representar os judeus russófonos, provenientes dos países da ex-URSS, que haviam chegado em grande número ao Estado judaico, mas rapidamente se tornou uma das principais forças políticas do país.

Estamos em presença de uma formação simultaneamente secular e anticlerical (recorde-se que Lieberman saiu do governo por não ter sido aceite a sua proposta de tornar o serviço militar obrigatório para os ultraortodoxos) e ultranacionalista, defendendo “mão dura” face aos palestinianos (o que, na sua opinião, não sucedeu no incidente junto a Gaza, pretexto para a sua saída do executivo). Foi do Beitanu que partiu a legislação que bane os partidos que ponham em causa a existência do Estado de Israel, de acordo com o lema “sem lealdade não há cidadania”. Ao mesmo tempo, defende o incremento da imigração judaica, agilizando a Lei do Regresso (que torna qualquer judeu que chegue a Israel num cidadão israelita) e facilitando a integração desses imigrantes na sociedade hebraica.

Lieberman propôs uma solução para a questão palestiniana baseada na troca, não apenas de territórios, mas também de populações. Assim, não se opõe à existência de um Estado palestiniano, mas propõe-se anexar as áreas da Cisjordânia e da periferia de Jerusalém Leste onde existem colonatos judaicos e, em troca, integrar na Palestina as áreas de Israel próximas daquela e maioritariamente habitadas por palestinianos. Porém, advoga uma rígida separação entre os dois povos, com Israel como estado exclusivamente judeu e a Palestina unicamente árabe, o que implicaria a “limpeza étnica” de todos os árabes israelitas, que seriam, assim, transferidos, para o novo Estado. O plano foi rejeitado, tanto pelos palestinianos e pela esquerda israelita, que o consideram racista, como pelos ultranacionalistas religiosos, para quem toda a Cisjordânia (Judeia e Samaria, na terminologia bíblica) faz parte do Grande Israel.

Conseguiu os maiores apoios nas áreas urbanas habitadas por judeus russófonos, tendo sido terceiro em Beersheba (com 9,5%), Haifa (7%) e Eilat (5%). Contudo, registou um dos seus melhores resultados em Sderot, a cidade situada junto a Gaza e, frequentemente, alvo dos mísseis disparados a partir do território, onde foi segundo, com mais de 10%. Em Ashdod, um pouco mais a norte daquela, chegou aos 12,5%. Nas áreas rurais e nos colonatos, os resultados foram menos positivos.

Tendo sido um dos responsáveis pela crise política que levou à antecipação das eleições, obteve apenas 4,02% dos votos e cinco lugares no Knesset, uma descida face aos 5,11% e seis deputados de há quatro anos. Contudo, caso se confirme a não entrada da NR no Parlamento, o Beitanu passa a ter Netanyahu “na mão”, já que o primeiro-ministro necessitará do seu apoio para formar governo. Lieberman não lho negou, mas também revelou só o integrar em determinadas condições. Será, pois, sempre uma “espada de Dâmocles” sobre a cabeça do primeiro-ministro.

Para já, fora do Knesset está a Nova Direita (NR), com os seus 3,22% dos votos, ou seja, a pouco mais de mil votos de eleger quatro deputados. O novo partido foi fundado por Naftali Bennett, antigo líder da Casa Judaica e atual ministro da Educação, e Ayelet Shaked, sua colega da Justiça, também até há pouco aderente daquele partido, no final de 2018. Romperam com a anterior formação, ligada à extrema-direita religiosa, para atrair, igualmente, eleitores seculares. Aliás, Skahed é laica. Contudo, a aposta saiu “furada”!...

Apesar disso, o partido foi o mais votado em muitos colonatos situados a sul de Jerusalém, no chamado “bloco Etzion).

Outro partido da direita radical que falhou a obtenção de representação parlamentar foi o Zehut (Identidade), ao quedar-se pelos 2,73% dos sufrágios, não confirmando as sondagens que o davam como certo no novo Knesset. Formado por Moshe Feiglin, um demagogo populista, em 2015, é libertário na economia e nos costumes e ultranacionalista na questão palestiniana, defendendo a mesma solução da extrema-direita religiosa: um Estado, com anexação da Cisjordânia e de Jerusalém Leste (áreas que considera parte do que designa por Terra de Israel) e não de Gaza. Para seduzir eleitores mais jovens e urbanos, fez campanha pela legalização da cannabis, colocando-a como condição para entrar no governo. Apesar de alguns bons resultados nos colonatos do bloco Etzion, acabou por não agradar nem à esquerda nem à maioria da direita e ficou à porta do Parlamento!...

Kulanu

O Kulanu (Nós Todos) é uma formação de centro-direita, liderada pelo ministro das Finanças, Moshe Kahlon. Trata-se de um partido representante do sionismo nacional-liberal e social-liberal. Em matéria económica, defende a livre concorrência, opondo-se aos monopólios (privados e públicos), mas advoga algumas políticas redistributivas, através de uma maior taxação dos bancos, ao mesmo tempo que coloca especial ênfase na proteção do consumidor e no combate à pobreza. Nos costumes, é liberal, sendo favorável ao casamento LGBTI, ao funcionamento dos transportes ao sábado e à legalização da cannabis. Ao invés, na questão palestiniana e em matéria de segurança está mais próximo da direita, tendo sido, tradicionalmente, favorável a uma posição de dureza. Porém, nos últimos tempos, moderou as suas posições e passou a aceitar a existência de dois Estados. Por isso, apesar de integrar, atualmente, o bloco da direita, há quem considere que poderia mudar de campo se Netanyahu não tivesse ganho as eleições.

Tem maior apoio nas classes médias-baixas de origem sefardita, o que não é de estranhar já que o seu líder é proveniente do Líbano. Daí os bons resultados que obteve na aldeia de Gahjar, disputada territorialmente com o país vizinho e onde a maioria da população é alauita (a mesma religião do presidente sírio Assad), conseguindo 37% dos votos. Também teve um bom desempenho entre os drusos do Nordeste e dos ocupados Golã, entre os quais foi segundo, com perto de 25%.

Porém, no resto do país, os resultados foram relativamente fracos, tendo experimentado uma descida significativa. Assim, ficou-se pelos 3,54% e a eleição de apenas quatro parlamentares, quando, em 2015, obtivera 7,49% e dez eleitos.

Apesar dos bons resultados económicos, mais de metade dos seus eleitores terá fugido para o Likud. Kahlon tentou pressionar Netanyahu, afirmando, quando se julgava que o bloco de direita se ficaria pelos 64 lugares, que só integraria o governo se aquele lhe garantisse que não seria obrigado a renunciar devido aos casos de corrupção em que está acusado. Porém, após a última contagem, voltou aos 65 e o primeiro-ministro pode dispensar o Kulanu para formar uma maioria no Parlamento.

O BLOCO DO CENTRO-ESQUERDA

Se considerarmos as duas listas árabes, será, no novo Knesset, composto por cinco partidos e terá 55 lugares parlamentares (53, se a recontagem for favorável à NR).

As três formações judaicas têm em comum uma abordagem mais moderada da questão palestiniana, mas existe uma diferença entre os centristas, que recusam abrir mão de alguns territórios ocupados, e a esquerda pacifista, que defende a solução “dois Estados” e a implementação dos acordos de Oslo. Representam a ala esquerda do sionismo, que dominou as primeiras décadas da política israelita. Por seu turno, as listas árabes têm como objetivo a defesa dos interesses dos palestinianos de Israel e são favoráveis a um Estado único bicomunitário, mesmo que não o possam afirmar abertamente.

São laicos e, nas questões económicas e sociais, oscilam entre o social-liberalismo e a social-democracia mais ou menos avançada.

Eis as principais forças políticas deste bloco ideológico:

Kahol Lavan (Azul e Branca)

A coligação Kahol Lavan (Azul e Branca), cores da bandeira nacional, é uma aliança centrista, criada em fevereiro com o intuito de disputar as eleições sob uma lista unificada, liderada pelo antigo general Benny Gantz. É composta por três partidos: o Hosen L’Yisrael (Resiliência de Israel), formação centrista fundada em dezembro de 2018, por Gantz, social-liberal, laica e com uma abordagem mista da questão palestiniana, entre a procura da paz e o que considera vital para a segurança de Israel; o Yesh Atid (Há um Futuro), de Yair Lapid, a mais antiga, criada em 2012, igualmente centrista, economicamente liberal, mas defensor da laicização do Estado e da sociedade, bem como da solução “dois Estados”, e o Telem (Movimento da Cidadania Nacional), de Moshe Ya’alon, formalizado em janeiro passado, do ex-vice-primeiro-ministro e dissidente do Likud, economicamente liberal e menos aberto relativamente à questão palestiniana, situado no centro-direita do espectro partidário.

A aliança tornou-se a principal alternativa eleitoral à continuação de poder de Netanyahu. Desafiando-o diretamente, propôs a limitação dos mandatos para o cargo de primeiro-ministro e a proibição de candidaturas de cidadãos indiciados criminalmente. Para além disso, propôs políticas económicas mais redistributivas, com o aumento do investimento na educação e na saúde.

É, igualmente, adepto da laicização do Estado, com a consagração dos casamentos civis. É favorável à adoção de medidas tendentes a favorecer a igualdade de género, à concessão de mais direitos às minorias étnicas e sexuais do país e ao restabelecimento do diálogo com a Autoridade Palestiniana. Contudo, defende a anexação de Jerusalém Leste, a manutenção do controlo israelita sobre o vale do Jordão e a negação do direito de retorno aos descendentes dos palestinianos expulsos do território em 1948, o que não facilita a obtenção de um acordo de paz.

Num país que, desde a sua independência, vive em permanente estado de guerra e onde a paranoia securitária é enorme, as Forças de Defesa de Israel (IDF), nome oficial das forças armadas do Estado judaico, gozam de imenso prestígio entre a população judaica. Por isso, é vulgar a entrada, na política, de ex-militares, em especial oficiais generais. Assim, Gantz foi apenas mais um. Antigo chefe das IDF entre 2011 e 2015, dava garantias em matéria de segurança aos eleitores centristas e a sua integridade contrastava com um Netanyahu atolado em escândalos de corrupção. Para grande parte do centro-esquerda e, mesmo, da esquerda, era a alternativa a dez anos de governação direitista. Porém, se a sua “virgindade” política foi um trunfo para a afirmação da sua candidatura, foi também o seu “calcanhar de Aquiles”, já que, durante a campanha, veio ao de cima alguma da sua inexperiência política, o que foi fatal face a um político experimentado e maquiavélico como o atual primeiro-ministro.

Por isso, apesar de ter tido um excelente resultado, obtendo 26,12% dos votos e 35 deputados, apenas menos 0,33% e um lugar que o Likud, não conseguiu destronar Netanyahu e a direita. Em 2015, o Yesh Atid, único partido da coligação então existente, tinha sido a quarta força política, tendo obtido uma votação de 8,82%, que lhe valeu a eleição de 11 parlamentares.

Os “azuis e brancos” venceram claramente em Telavive, onde chegaram aos 46%, mas também em Haifa, um tradicional bastião trabalhista, com 33%, bem como em Metula, a povoação mais setentrional do país, junto à fronteira libanesa, com quase 50%. Venceu, ainda, com mais de 50%, na maioria dos lugares drusos do Nordeste, tendo sido segundo na localidade alauita de Ghajar, atrás do Kulanu. Também obteve a maioria absoluta em grande parte dos moshav e mesmo em alguns kibutzes. A distribuição da sua votação mostra que esta foi conseguida, em grande parte, à custa do eleitorado tradicional dos trabalhistas.

Nas maiores cidades do Sul, o seu desempenho não foi tão positivo, tendo sido apenas segundo em Ashdod (onde se ficou pelos 16,5%), Beersheba (onde não passou dos 18%) e Eilat (24%), enquanto em Sderot, onde a segurança é o tema principal, foi apenas quarta, com apenas 9%. Foi também essa a sua posição em Jerusalém, com 12%, atrás do Likud e das duas principais forças da direita religiosa. Como era expectável, revelou fraca implantação entre os judeus ortodoxos e ultraortodoxos e pouco penetrou entre os colonos. Por outro lado, à exceção de drusos e alauitas, também não convenceu os árabes.

Labor

O Labor (Trabalho) é o mais antigo partido político do país. Foi fundado em 1968, tendo por base o Mapai, acrónimo para Partido dos Trabalhadores da Terra de Israel, de que David Ben-Gurion, o “pai” da independência e primeiro chefe de governo de Israel, foi um dos fundadores. Representa a autointitulada esquerda sionista, que dominou a política israelita nos primeiros 30 anos de vida do Estado hebraico. Tem fortes ligações ao movimento sindical, em especial à principal central, a Histadrut. Entre alguns dos seus membros mais famosos contam-se os antigos primeiros-ministros Golda Meir, Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Ehud Barak.

Nesse período, construiu um Estado Social, a exemplo das social-democracias europeias, com a instituição da gratuitidade na saúde e na educação, da criação de um sistema público de segurança social, da criação de um salário mínimo e do subsídio de desemprego, bem como a concessão de subsídios de habitação. Contudo, distinguiu-se também pela dureza em matéria de segurança e pela marginalização das populações árabes residentes no país.

A partir dos anos 80, já na oposição, passou a adotar uma posição mais construtiva na questão palestiniana e aos direitos dos chamados árabes israelitas. Foi com Yitzhak Rabin como primeiro-ministro que o governo israelita assinou os acordos de paz de Oslo com o então líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, em 1993, prevendo a criação de uma Autoridade Palestiniana autónoma como primeiro passo para a criação de um Estado palestiniano independente. O Labor é, desde então, um defensor da solução “dois Estados”, embora seja ambíguo face ao desmantelamento de todos os colonatos, ao controlo do vale do Jordão e ao estatuto de Jerusalém.

Em contrapartida, no plano económico-social, seguiu a linha dos restantes partidos social-democratas, convertendo-se ao neoliberalismo, passando a defender o que definiu como uma economia social de mercado. Em 2005, Amir Peretz, um antigo líder sindical, derrotou Peres e assumiu a liderança do partido, propondo uma viragem à esquerda, em especial com a introdução de um rendimento mínimo. Apesar do razoável resultado eleitoral, nas eleições de 2006, foi, no ano seguinte, derrotado por Barak, nas eleições internas, e o partido voltou ao social-liberalismo.

Os sucessivos desaires eleitorais que vem abrevando desde 2009 têm levado o Labor a “devorar” os seus líderes uns atrás dos outros.

Nestas eleições, sob a liderança de Avi Gabbay, obteve o seu pior resultado de sempre, não indo além de 4,45% dos votos e da eleição de seis deputados. Em 2015, comandado por Yitzhak Herzog, participou nas eleições numa aliança denominada União Sionista (ZU) com a Hatnuah (Movimento), da ex-ministra Tzipi Livni, conseguindo 18,67% e 24 lugares no Knesset. Agora, os trabalhistas decidiram concorrer sozinhos, tendo Livni e o seu partido optado por não participar no ato eleitoral, face a sondagens bastante negativas.

O partido viu grande parte do seu eleitorado dirigir-se para a coligação Azul e Branca, fruto da profunda bipolarização que marcou estas eleições. Como os seus programas não eram muito diferentes, muitos eleitores optaram por Gantz, que viam como uma alternativa mais fiável a Netanyahu que Gabbay, uma figura relativamente “cinzenta” e com passado no Kulanu, tendo sido ministro do Ambiente do atual primeiro-ministro entre 2015 e 2016.

Assim, mesmo em antigos bastiões eleitorais, como Telavive e Haifa, o Labor sofreu grandes derrotas, tendo sido apenas quarto, com 8,5% na primeira e menos de 6% na segunda. Na setentrional Metula chegou aos 11%. Noutras cidades mais importantes, as suas votações forma residuais. Também nos kibutzes sofreu perda significativas, pois, mesmo tendo ultrapassado os 40% em alguns, viu-se ultrapassado noutros pelos “azuis e brancos”. Um dado importante, já que estas aldeias comunitárias, criadas com base nos princípios socialistas e cuja subsistência era assegurada por uma eficiente exploração coletiva da terra (embora tivessem, obviamente, funções bem menos nobres de colonização e defesa do território) são uma criação da chamada esquerda sionista. Já nos moshav, cooperativas de produção baseadas na mesma filosofia, mas sem coletivização total da terra, foi arrasado pela coligação de Gantz.

Meretz

O Meretz (Vigor) é o principal partido da esquerda israelita e o mais importante do chamado “campo da paz” entre a população judaica. Apesar de ser uma formação essencialmente hebraica, possui alguns aderentes árabes e um ou outro dirigente dessa origem étnica. A sua líder atual é Tamar Zandberg, ativista feminista, pelo direito à habitação e antiausteritária.

Fundado em 1992, como aliança eleitoral de três partidos da esquerda, de onde se destacava o histórico Mapam (acrónimo de Partido Unido dos Trabalhadores), o principal representante do sionismo trabalhista, tornou-se um partido unificado em 1997.

Defende uma social-democracia avançada, tendo na base a defesa dos direitos humanos de todos os que habitam tanto no Estado hebraico como nos territórios palestinianos. É defensor dos serviços públicos gratuitos, do aumento dos direitos laborais e sindicais e de uma política de habitação social. Pugna, ainda, pela defesa dos direitos das minorias étnicas, em especial dos árabes, e dos imigrantes não judeus, defendendo a adoção de medidas de discriminação positiva para elas. Apoia, ainda, a mais estrita igualdade de género e os direitos das comunidades LGBTI, incluindo a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. É grande adepto da laicização do Estado, defendendo uma rigorosa separação entre este e as religiões e uma total liberdade religiosa. Defende, assim, uma educação laica e os transportes públicos ao sábado. Apresenta, ainda, preocupações ecológicas e advoga políticas que defendam o ambiente.

Na questão palestiniana, defende, no curto prazo, a suspensão da implantação de colonatos e o respeito pelos direitos humanos em Gaza e na Cisjordânia. É abertamente partidário da solução “dois estados”, com base no acordo de Genebra, um documento não vinculativo assinado em 2003, após dois anos de conversações entre delegações israelitas e palestinianas. Assim, Israel e a Palestina assinariam um acordo de paz e reconhecer-se-iam mutuamente como Estados independentes, renunciando a quaisquer reivindicações territoriais um sobre o outro. Israel retirar-se-ia para as fronteiras de 1967, terminando com a ocupação, embora pudessem existir trocas de territórios por consenso entre as duas partes. Jerusalém seria a futura capital de ambos os países, ficando as áreas de maioria judaica sobre soberania israelita e as de maioria árabe sob soberania palestiniana. Por fim, o direito de retorno dos descendentes dos refugiados de 1948 a Israel seria em número muito limitado, mas teriam direito a receber uma indemnização da parte de Estado judaico pela perda das suas propriedades e outros danos, podendo regressar à Palestina independente, optar por ficar onde residem atualmente ou ir para um terceiro país, que poderá ser Israel, dentro das limitações acima referidas. Também os vizinhos árabes que receberam refugiados palestinianos seriam indemnizados pelo governo israelita.

Nestas eleições, teve uma ligeira descida, obtendo 3,63% dos votos e apenas quatro lugares, quando, em 2015, conseguira 3,93%, que lhe permitiram, então, a eleição de cinco parlamentares. Desta vez, a perda do deputado só foi confirmada praticamente no fim da contagem dos votos, quando se percebeu que o último lugar no novo Knesset iria para o Likud, de nada valendo ao partido nem ao Labor a aliança eleitoral que firmaram para a disputa dos lugares remanescentes. A fraca afluência dos eleitores árabes e a bipolarização em torno de Gantz contra Netanyahu prejudicaram o Meretz.

O partido tem a sua maior implantação nas elites intelectuais urbanas de origem ashkenazim, em especial na juventude estudantil, em alguns kibutzes e em pequenos segmentos do eleitorado árabe. Assim, não se estranha que, nas cidades, tenha obtido o seu melhor resultado em Telavive, onde foi terceiro, com 9% dos sufrágios. Uma votação semelhante obteve nas zonas drusas do Nordeste e dos Golan. Também teve um bom desempenho em Nazareth, a maior cidade árabe do país, no Norte, onde conseguiu 7%, ou mesmo em Umm-al-Fahm, uma urbe do distrito de Haifa, habitada quase exclusivamente por árabes, onde somou 5%. Por sua vez, também mostrou alguma força nos kibutzes, chegando, em alguns deles, aos 15%.

Porém, no resto do país, em especial nas pequenas cidades e nas áreas rurais mais conservadoras a sua implantação é residual. Não fossem os eleitores árabes e poderia ter ficado sem representação parlamentar!...

Listas árabes

Como referimos acima, os árabes palestinianos representam 21% da população residente no Estado de Israel. Do ponto de vista religioso, 84% são muçulmanos, 8% cristãos e outros 8% drusos. Vivem, principalmente na região central da Galileia, no norte do país, onde constituem a maioria dos habitantes, havendo também algumas pequenas áreas no Centro do país, junto à “linha verde” que separa o estado hebraico da Cisjordânia, e várias aldeias beduínas no deserto do Negev, no Sul. Nos montes Golã, território sírio ocupado e ilegalmente anexado, vivem importantes comunidades drusas.

Apesar desses números, o voto nas listas árabes fica sempre bastante abaixo dessa percentagem, devido a vários fatores. Assim, há os que se recusam a votar por não querem legitimar o Estado de Israel, outros por considerarem o seu voto inútil, havendo também alguns que votam em partidos da esquerda ou centro-esquerda judaicos (atualmente, o Meretz; antes, o Labor) e, residualmente, em formações centristas como o Kulanu.

Um aspeto relevante destas eleições foi a fraca afluência às urnas do eleitorado árabe, que ficou pouco acima dos 50%, quando a participação, no seu conjunto, se cifrou em 68,4% (72,3% há quatro anos). Algo que terá contribuído, em muito, para o triunfo de Netanyahu e do bloco direitista.

Nas eleições de 2015, os quatro maiores partidos árabes apresentaram-se na Lista Conjunta (JL) e obtiveram um excelente resultado:10,54% dos votos e 13 lugares no Parlamento. Então, os seus eleitores mobilizaram-se, levando, até, Netanyahu a fazer um apelo de última hora aos judeus para acorreram às urnas, já que, afirmou, “havia o perigo de haver um grande número de árabes no Knesset, pois estes iam todos votar”, algo que estava, apesar de tudo, muito longe de ser verdade.

Contudo, desta vez, divergências entre as lideranças não permitiram essa lista conjunta. Se a isso somarmos o desencanto com a estagnação do processo de paz, a desqualificação da sua cidadania após a aprovação da proposta que considera Israel como o “Estado do povo judeu” e a convicção de que Gantz e a sua coligação Azul e Branca pouco tinha para lhes oferecer, está explicada a elevada abstenção dos palestinianos do Estado hebraico. O lamentável e inaceitável episódio da colocação de câmaras ocultas em assembleias de voto nas áreas maioritariamente povoadas por árabes ainda contribuiu para os afastar mais das urnas.

Neste ato eleitoral, surgiram, então, duas listas.

A mais votada foi a da coligação Hadash-Ta’al, que obteve 4,49% dos votos e seis lugares parlamentares.

O Hadash, acrónimo de Frente Democrática para a Paz e a Igualdade, e que, em hebraico, significa Novo, foi criado em 1977, da fusão entre o partido comunista israelita e outros grupos de esquerda. O primeiro continua a ser a principal corrente interna, tendo um papel muito importante na liderança e na definição das políticas do partido, de orientação socialista, laica, ambientalista e pacifista.

Defende a nacionalização das grandes empresas, a aposta nos serviços públicos, a defesa do ambiente, o aumento dos direitos laborais, a igualdade de género, bem como um estatuto de igualdade entre judeus e árabes e o fim de todas as discriminações. No que se refere à questão palestiniana, defende, no essencial, a solução “dois Estados”, no quadro do já descrito acordo de Genebra, embora não concorde com as restrições ao direito de retorno, apesar de admitir uma alternativa indemnizatória. Considera-se um partido multiétnico e, por isso, possui, entre os seus militantes, vários judeus. O seu atual líder é Ayman Odeh, que encabeçou a lista da coligação.

Por seu turno, o Ta’al, acrónimo de Movimento Árabe para a Renovação, é um partido da esquerda nacionalista árabe, criado pouco antes das eleições de 1996 por Ahmad Tibi, antigo conselheiro de Arafat e atual líder do partido. No essencial, as suas posições são semelhantes às do seu parceiro de lista, embora coloque mais ênfase na questão palestiniana e nos direitos dos cidadãos árabes que nos assuntos de natureza económico-social.

O seu principal suporte vem das classes médias árabes seculares da Galileia, sendo que o Hadash é o partido com maior apoio entre os cristãos. Não surpreende, assim, que a lista tenha sido a mais votada em Nazareth, onde obteve 53% dos votos, e que tenha esmagado em Umm-al-Fahm, onde atingiu os 80%. Nas áreas beduínas do Negev, foi menos forte, ficando em segundo, na casa dos 40%, atrás da outra coligação árabe. Em contrapartida, pouco penetrou entre drusos e alauitas.

A segunda lista árabe foi a coligação UAL-Balad, liderada por Mansour Abbas, que, ao obter 3,34% dos sufrágios, conseguiu eleger quatro deputados, escapando por pouco de se quedar fora do novo Knesset, já que apenas ficou 0,09% (pouco mais de três mil votos) acima da cláusula-barreira.

A Lista Árabe Unida (UAL), também conhecida por Ra’am (acrónimo hebraico, que significa Trovão), tem as suas origens nos anos 70, mas o atual partido só foi formalmente criado em 1996, em resultado de uma aliança entre o secular Partido Democrático Árabe e o Movimento Islâmico. Daí que exista no seu seio uma corrente islamita moderada, a par de outra nacionalista árabe e secular, embora, atualmente, a primeira seja dominante. O seu líder é Masud Ghnaim.

Por sua vez, o Balad, acrónimo de Aliança Democrática Nacional, foi fundado em 1995, e é um partido nacionalista árabe, quiçá aquele que mais tem posto em causa a natureza do Estado de Israel e cujas intervenções no Knesset levaram à alteração da lei dos partidos políticos num sentido mais restritivo. É liderado, desde 2007, por Jamal Zahalka, após o seu líder histórico, Amir Bizara, ter fugido para o Qatar, depois de ter visto a sua imunidade parlamentar levantada, acusado de ter passado informação ao Hezbollah durante a guerra do Líbano, no ano anterior.

Ao contrário da outra, esta lista tem maior apoio entre as classes baixas muçulmanas da população árabe, em especial nas comunidades beduínas do Sul do país, onde foi a mais votada, com perto de 50% dos votos, contra os 40% da Hadash-Ta’al. Já em Nazareth e em Umm-al-Fahm foi apenas segunda, atrás daquela, na primeira ainda com 30%, mas na segunda apenas com 12%.

OUTROS PARTIDOS

A votação em outras forças políticas foi residual, à exceção do Gesher (Ponte), criado em dezembro de 2018, por Orly Levy, que abandonou o Beitanu, por onde havia sido eleita em 2015. O seu partido apresentou-se com uma plataforma centrista e secular, social-liberal na economia, feminista e aberta nos costumes, mas não apoiando a criação de um Estado palestiniano. Pretendia não alinhar com nenhum dos blocos, fazendo, antes, a ponte entre ambos, mas não foi além de 1,73% dos votos e ficou fora do Knesset.

A encruzilhada de Netanayhu

O primeiro-ministro israelita obteve um triunfo histórico, mas não terá vida fácil.

Desde logo, porque as acusações de corrupção que sob ele impedem podem ter de obrigá-lo a renunciar. Por isso, Netanayhu tudo fez para vencer a eleição. Aliás, ao contrário do que se pensa, o chefe do governo, apesar de se filiar no sionismo conservador, não é um fanático ideológico, mas, antes, um pragmático e oportunista sem escrúpulos, que tudo fará para se manter no poder, nem que, para tal, tenha de aliar-se ao “diabo”.

Uma transação de que se fala no contexto das negociações que poderia fazer com os seus parceiros da direita religiosa e da extrema-direita pé seria a anexação dos colonatos da Cisjordânia e de Jerusalém Leste, que aqueles advogam, em troca da aprovação por eles de legislação que impeça acusações judiciais a membros do executivo enquanto estes permanecerem em funções, o que impediria a procuradoria-geral do Estado de o interrogar, e a possibilidade de o Knesset poder remover juízes do Supremo Tribunal. Contudo, nessa eventualidade, Netanyah arrisca duas “intifadas”: a palestiniana, em protesto contra uma decisão que inviabilizará de vez a solução “dois Estados” e a hipótese de uma paz minimamente justa, e a da oposição judaica, que virá, muito provavelmente, para a rua, em protesto contra a institucionalização da sua impunidade e de uma deriva autoritária, após legislar em causa própria. A que acresceriam as reações de hostilidade internacional face à anexação dos territórios palestinianos. Estará o primeiro-ministro disposto a correr esse risco?

Por outro lado, mantém-se as divergências na coligação, que levaram à queda do executivo, com Lieberman e o seu Beitanu a condicionarem a sua participação no governo à obrigatoriedade de os judeus ultraortodoxos terem de cumprir o serviço militar, posição igualmente defendida por Kahlon e o Kulanu. A não ser que se dê um “golpe de teatro”, que leve a NR ao Parlamento, a não participação do primeiro na maioria parlamentar deixa Netanyahu apenas com metade dos lugares (60), o que dificultará a sua governação, mesmo que não seja crível que Liberman e o seu partido votem ao lado da oposição.

Daí que alguma comunicação social israelita fale de uma possibilidade que foi admitida durante a campanha: um governo de unidade nacional, composto pelo Likud, a coligação Azul e Branca, o Yisrael Beitanu e o Kulanu. Esta coligação de centro-direita, conservadora e laica, disporia de 80 lugares (ou seja, 2/3) no Knesset, tendo 20 na oposição à esquerda e outros 20 à direita. Para já, os envolvidos desmentem esta hipótese, com Yair Lapid a reafirmar a sua oposição total a um executivo dirigido por Netanyahu. Mas, na política israelita, o que hoje é mentira, amanhã pode ser verdade. No dia 17, a CEC confirmará os resultados finais, eventualmente com alterações que podem levar a Nova Direita a ultrapassar a cláusula-barreira, embora tal seja cada vez mais improvável, e começarão as consultas, dirigidas pelo Presidente.

Nesse caso, Netanyahu poderia dispensar o apoio das formações religiosas e retomar as negociações de paz com a Autoridade Palestiniana, com base no plano de Lieberman e sob a égide de Trump, que gostaria de ficar com os “louros” desse processo. Se o presidente dos EUA o ajudou na eleição, reconhecendo a anexação dos Golan e colocando a Guarda Revolucionária iraniana na lista das organizações terroristas, seria agora a vez de o primeiro-ministro israelita lhe retribuir o favor.

Apesar de a relação de forças internacional nunca ter sido tão favorável a Israel, como explicamos aqui (e, para além de Trump, também Putin ajudou, ao convencer os sírios a devolver o corpo de um soldado israelita morto no Líbano, três dias antes das eleições), tal proposta será muito dificilmente aceite pelos dirigentes palestinianos. Tudo indica estarmos em presença de mais um simulacro negocial, cujo fracasso será atribuído aos palestinianos e poderá servir de pretexto para justificar a anexação dos colonatos da Cisjordânia e o respetivo reconhecimento por parte de Trump, ao arrepio do Direito Internacional, expresso nas resoluções da ONU sobre a questão.

Independente do que acontecer, a paz na Palestina parece cada vez mais longe. Mas, por muito que os seus dirigentes o queiram negar, é a sua obtenção que assegurará a sobrevivência de Estado judaico!…

Artigo de Jorge Martins para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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