Discurso de ódio anti-LGBTQI+ nas redes sociais aumentou 185% em Portugal

22 de junho 2023 - 10:58

Um relatório analisou 169 milhões de mensagens geradas por 36 milhões de perfis nas redes sociais nos últimos quatro anos em 12 países. E conclui que o discurso de ódio está a ganhar terreno às mensagens de apoio à comunidade.

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Guarda-sol arcoiris na Marcha do Orgulho em Lisboa.
Foto de Ana Mendes.

O discurso de ódio e o orgulho LGBTQI+ nas redes sociais é o tema do estudo promovido pela consultora LLYC, apoiada em técnicas de Big Data e inteligência artificial para analisar mais de 169 milhões de mensagens nas redes sociais por parte de quase 36 milhões de perfis. Estados Unidos e Brasil representam a maior fatia dos perfis protagonistas das mensagens, somando 91% do total. México, Argentina, Colômbia, Chile, Peru, Equador, Panamá e República Dominicana são os restantes países analisados no outro lado do Atlântico, a que se juntam Portugal, com cerca de 340 mil mensagens, e Espanha com mais de 12 milhões.

O estudo procurou compreender o volume de mensagens e perfis e identificar os coletivos apoiantes e detratores, para em seguida estudar as respetivas narrativas com maior alcance. E uma das conclusões a que chegaram é que o discurso de ódio vem ganhando terreno ao discurso do orgulho, embora este continue a prevalecer. Como consequência do aumento da polarização e da retração do coletivo LGBTQI+ e sobretudo dos seus aliados no momento de emitirem mensagens de apoio e celebração, os autores falam mesmo de "um 'regresso ao armário' da comunicação positiva" sobre a comunidade.

E levantam a questão da responsabilidade das próprias redes sociais em garantir um maior espaço de segurança para os utilizadores, pois é sabido que o crescimento do ódio digital dá lugar ao crescimento dos crimes de ódio e à violência, como salientou o relator especial da ONU Fernand de Varennes, citado neste relatório.

O grande peso dos EUA neste estudo leva a que entre as principais narrativas de apoio se destaque o apoio de Biden à comunidade LGBTQI+. Seguem-se o apoio à comunidade trans, a celebração do Pride em todo o mundo ou ações simbólicas como o hastear da bandeira arco-íris e instituições. Quanto às narrativas detratoras, destacam-se as que manifestam aversão ou ódio contra a comunidade, acusações que invocam o que chamam de "ideologia de género", críticas a supostos privilégios da comunidade ou à adoção por parte de casais homossexuais. Por país, a maior fatia das mensagens de apoio vem dos EUA, enquanto o Brasil se destaca no número de mensagens detratoras.

Na proporção das comunidades detratoras destacam-se o Equador, Chile, República Dominicana e Brasil, enquanto o discurso promotor prevalece em países como os Estados Unidos, México, Portugal, Argentina, Colômbia, Espanha e Panamá. Mas o caso português distancia-se deste grupo no que toca ao peso do discurso positivo, que é de apenas 22,7%, quando nos restantes seis países está entre os 36% e os 60%.

Portugal representa apenas 0,02% do total de mensagens analisadas e nos últimos quatro anos viu aumentar o discurso de ódio em 185%, enquanto as mensagens positivas caíram 12%. O peso do discurso positivo é de 22,7% e o negativo está nos 13%. Entre as principais narrativas promotoras estão o apoio de artistas, meios de comunicação e séries televisivas à comunidade e também posts que incitam à denúncia de comentários homofóbicos nas redes sociais, bem como críticas à homofobia interiorizada dentro da Igreja. As principais narrativas detratoras têm em comum o uso da expressão "ideologia de género" para atacar a comunidade LGBTQI+.