O Bloco de Esquerda reuniu-se na manhã desta sexta-feira com especialistas do mundo do trabalho e da economia. Em cima da mesa estiveram os principais problemas estruturais de Portugal.
À margem da reunião, Mariana Mortágua explicou que estes passam pelas “poucas qualificações, uma economia especializada em setores de baixa produtividade, de baixos salários, ao mesmo tempo que temos gente muito qualificada que está a emigrar, a ser expulsa do país, precisamente por uma economia que é incapaz de dar resposta, que está a agravar o seu déficit externo na balança de bens e serviços, não é capaz de produzir para exportar, muito dependente de importações externas, muito dependente de trabalho migrante sem quaisquer condições”.
Para ela, “a direita não tem qualquer resposta” a estes problemas. Já que até agora “nenhum partido de direita foi capaz de apresentar o seu programa eleitoral”, esta conclusão é baseada nos discursos que mostram que “não fazem a mínima ideia de como é que se resolvem os problemas estruturais do país, que vão dos baixos salários ao déficit da balança comercial, a uma excessiva especialização nos setores do turismo e do imobiliário, que são setores com baixos índices de produtividade e que não dão ao país a resposta que é necessária de qualificações, de alta produtividade, de exportações de setores de ponta”.
Para a direita, “a única ideia” que tem vindo a ser apresentada é a de “deixar o mercado fazer aquilo que bem entende e o Estado dar benefícios fiscais às principais atividades económicas”. O resultado disso tem sido “uma porta giratória entre interesses privados e interesses públicos, o aproveitamento por parte de grandes empresas de fundos públicos, fundos do Estado, dos contribuintes” e “o desenvolvimento de setores que são muito rentáveis no curto prazo, que dão muitos lucros aos seus acionistas, mas que não desenvolvem o país”. E também “uma economia dependente da bolha imobiliária, dependente do turismo desenfreado e de baixas qualificações, dependente de grandes empresas como a EDP, como a Galp, que exploram monopólios naturais, que extraem receitas de quase uma forma rentista, mas que não deixam de aplicar nada do país, todos esses lucros saem para o exterior”. Concluindo ser “uma economia de pobreza” e que se Portugal continuar nese caminho, “está condenado a uma posição de dependência, de baixos salários e de pobreza”.
Ao nível das respostas, a coordenadora bloquista diz querer “mudar o rumo dessa economia” com uma “política industrial” que pense quais são os setores que têm que ser desenvolvidos. Exemplificou com questões como a eficiência energética, considerando que é necessário consumir energia de forma diferente, combatendo a pobreza energética”, e produzindo energia “de uma forma diferente”. Isto para além de ser necessário aprofundar na economia portuguesa setores como as biotecnologias e perceber “como é que nos podemos inserir nas cadeias de produção internacionais de uma forma muito mais qualificada do que temos feito”.
A coordenadora do Bloco salienta a importância do papel do Estado “porque a verdade é que deixar a economia ao seu livre-desígnio o que tem dado é atividade bancária”, fazendo notar que “hoje os bancos apresentam os seus lucros, 1.000 milhões de euros Caixa Geral de Depósitos, 1.000 milhões de euros Santander, 700 milhões de euros Novo Banco” Lucros “que vêm diretamente dos juros do crédito de habitação e não contribuem para melhorar a produtividade do país, para qualificar a economia do país, para industrializar o país”.
Bloco quer "discutir as bases de uma economia industrializada, qualificada e com salários dignos”
Para além disso, os setores que mais têm tido apoio do Estado são o imobiliário, turismo de luxo, a banca, que não contribuem “nem para subir salários, nem para desenvolver a economia”. Daí a ideia de que “o Estado tem que ter uma presença forte, mas uma presença para apoiar setores que tragam produtividade, que industrializem, que criem emprego, emprego qualificado, que pensem na transição energética, que pensam que agricultura é que nós queremos ter no futuro, porque sabemos que a agricultura que é baseada na produção intensiva de abacates ou de produções que consomem água que nós não possuímos, não é uma agricultura de futuro, ou aquela que se baseia em trabalho migrante com baixos salários”.
Até porque “o Estado já participa” na economia de formas que não costumam ser salientadas pelos partidários da não intervenção, como “quando dá benefícios fiscais sem fim ao imobiliário e quando apoia, com projetos PIN, por exemplo, as minas de lítio, centros de dados que não produzem emprego ou os resorts de luxo e turismo de luxo”.
O partido quer, pelo contrário, “discutir as bases de uma economia industrializada, qualificada e com salários dignos”. O que se distingue também da política do atual Governo, que cai no “erro” e na “irresponsabilidade” de querer “fazer brilharetes” sobre os saldos orçamentais. De acordo com Mariana Mortágua, “a dívida externa aumenta sempre porque o país é incapaz de produzir para exportar, produzir para ser auto-suficiente e tem um déficit na sua balança comercial como tem neste momento”. Esse “déficit muito profundo” da balança comercial, agrava-se “ao não fazer os investimentos necessários, o que vai é aprofundar esse déficit”. E “quando Portugal atrasa esses investimentos, seja na qualificação do Estado, no aumento dos salários, na construção de infraestruturas que permitam o desenvolvimento do tecido produtivo, do tecido económico, o que nós estamos a dizer é que vamos ser mais pobres no futuro”, concluiu.
O encontro contou com a participação de João Ferreira do Amaral, Manuel Carvalho da Silva, Ana Drago, Ricardo Paes Mamede, Ana Costa, Ana Santos, Gonçalo Amado, Guilherme Azambuja, Paulo Areosa Feio, Maria da Paz Campos Lima, Francisco Louçã, Alexandre Abreu, Anabela Rodrigues, Catarina Silva, José Feliciano Costa, Eugénia Pires, Manuel Abrantes, Vicente Ferreira e Henrique Pereira, entre outros.