Na apresentação das contas das medidas do programa eleitoral do Bloco de Esquerda, as primeiras palavras de Mariana Mortágua foram para desmontar as propostas já apresentadas pelo líder do PSD. A começar pelo seu cenário macroeconómico e a acabar nas "contas que não estão explicadas e as medidas que não têm contas certas nem contas feitas". Quanto ao primeiro, Mariana Mortágua não compreende em que se baseia a previsão de crescimento económico da AD, que corresponde à
média do crescimento económico dos cinco anos antes da pandemia, uma vez que todos os economistas preveem que no próximo período o investimento será em média menor do que nesse tempo e a procura externa se encontra estagnada.
Quanto às medidas apresentadas por Luís Montenegro, Mariana Mortágua considera-as um "exercício de ilusionismo". Deu o exemplo da promessa de subir o salário médio para 1.750 euros, que não é possível sem o reforço da contratação coletiva, a que a direita se opõe ferozmente. Outra das medidas, apresentada como "um 15º mês", na verdade não o é, pois ele "não é obrigatório" para as empresas e "é pago fora do salário", ou seja, como um prémio que não conta para efeitos de reforma.
No que diz respeito à promessa de redução do IRS dos jovens para 15%, Mariana Mortágua lembra que em média o IRS pago em Portugal são 13,5%. "Saberá o PSD que só os 20% mais ricos pagam uma taxa de IRS acima dos 13%?", questiona, concluindo que a proposta "não é para ninguém porque não há nenhum jovem com os salários de hoje que possa beneficiar" com ela.
Sobre a promessa de Montenegro de reduzir o IRC para 15%, a coordenadora bloquista diz que a medida só beneficia "as maiores das maiores empresas". Como 43% das empresas não pagam IRC e 99,9% das empresas são PME que já têm IRC reduzido, assim como têm as startups, trata-se na verdade de "uma redução para os acionistas da ANA, da EDP, da REN, das grandes empresas em Portugal".
A coordenadora do Bloco referiu também a promessa de Montenegro que começou no Congresso do PSD por ser um aumento das pensões que abrangeria dois milhões de pessoas para depois afinal ser explicado que era o aumento do valor de referência do Complemento Solidário para Idosos (CSI), reduzindo o alcance da medida a 134 mil pessoas. O problema, diz Mariana Mortágua, é que há um milhão de idosos na pobreza que não têm acesso ao CSI por causa do rendimento dos filhos e essa "é uma regra que o PSD não quer mudar". Assim, a proposta de Montenegro para aumentar o limiar do CSI para 820 euros "chega a pouca gente ou quase ninguém". E se o valor de referência continuasse a subir como tem subido nos últimos anos, de forma natural chegaria a um valor muito próximo do que propõe o PSD, apontou.