A 7 de Maio de 2026 a Câmara Municipal de Barcelos, autarquia maioritariamente PSD/CDS-PP desautorizou a autorização já avançada para a apresentação do livro Por Dentro do Chega de Miguel Carvalho. Mesmo assim, apesar de o executivo municipal ter bloqueado a utilização do espaço da autarquia, a apresentação mantém-se agendada para o dia 16 de Maio de 2026, transferida para o Instituto Politécnico de Cávado e do Ave (IPCA) também em Barcelos. A justificativa oficial apresentada baseia-se em questões burocráticas e de procedimentos internos de contratação e cedência de espaços, advogando a não censura ou motivação por partidarismo político.
Mas será que (mais) este episódio de “silenciamento” de Miguel Carvalho é, única e simplesmente, um não cumprimento de normas internas e de obrigatoriedade de reformulação do pedido ao Presidente da Câmara? A minha resposta é um NÃO categórico. Vejamos factos já pretéritos, mas cujo contexto é exactamente o mesmo.
Ainda em Outubro de 2025, a organização do 2.º Festival Literário de Penacova (evento promovido e financiado pela própria Câmara Municipal, liderada por Álvaro Coimbra, candidato do PSD eleito com 48,34%) convida formalmente o jornalista Miguel Carvalho para a apresentação da obra no evento supracitado, convite esse que foi consolidado em Novembro de 2025, ficando decidido que o livro seria apresentado por um professor da Universidade de Coimbra, ironicamente militante do PSD, que considerava a obra um corpus de manifesto interesse público e democrático.
Curiosamente, a 12 de Janeiro de 2026, Miguel Carvalho é informado pela autarquia de Penacova sobre o cancelamento da sua participação no evento e subsequente apresentação da obra. Cancelamento abrupto, que foi justificado pela necessidade de preservação da “isenção político-partidária” e não instrumentalização política da actividade literária. Evidentemente, Miguel Carvalho assumiu, em 14 de janeiro, um posicionamento público de indignação e da fragilidade da justificativa, que considerou um atentado à liberdade de expressão e ao pluralismo democrático, assumindo a apresentação o livro como uma investigação jornalística, ética e factualizada e não uma propaganda política. Entidades da Cultura e da Educação sinalizaram que a proibição, por si só, materializava um posicionamento assumidamente político e uma forma de censura preventiva, que chamamos “lápis azul”. Ironicamente, a máxima do festival promovido pela Câmara de Penacova era a “força da palavra” e a democratização da sociedade. Evidentemente, que a tentativa de “silenciar” Miguel Carvalho resultou no efeito inverso para o autor, o chamado Efeito Streisand ou efeito Boomerang, o que levou autarquias vizinhas a convidar o autor do livro para festividades e outras apresentações (o caso da Lousã, por exemplo, com o festival Palavras de Fogo).
Evidentemente, que por homologação funcional e estrutural, podemos inferir que as tentativas (concretizadas) de “silenciar Miguel Carvalho e a sua obra Por Dentro do Chega, em nada diferem das tentativas de “silenciamento” LGBTQIA+, assumidas indirectamente pela tríade política e coligárquica que governa Portugal PSD/AD-CHEGA-CDS-PP, com a justificativa da “neutralidade ideológica” do Estado, não instrumentalização e desideolização do país e da Educação. O também argumentado princípio da Universalidade dos Direitos Humanos, assim como as justificativas supramencionadas coincide com o que o investigador e Professor Universitário Hugo Santos nomina como formas de marginalização/periferização, assimilação cisheteronormativa, privatização, silenciamento, apagamento/não vozeamento e hiper-humanização, esta última traduzida como o uso de um “bode expiatório útil” e politicamente autorizado e sustentado para generalizar, marginalizar e, assim, silenciar e/ou tabuizar a temática para não a vozear. Os paralelismos com os assíduo(s) silenciamento(s) de Miguel Carvalho são inegáveis e, sustento mesmo, infirmados.
Ontem “silenciado” em Penacova, hoje “apagado” em Barcelos e a pergunta que faço é: qual será o próximo?
16 de Maio de 2026
*O autor escreve de acordo com as normas ortográficas pre-AO90