Poucos dias antes da agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, conversava com um embaixador sobre a possibilidade de um ataque dessa magnitude. Ele dizia-me que isso era impossível, mas aconteceu. Será que o mesmo que aconteceu com Maduro pode acontecer com Petro?
Agora, conversando com diferentes politólogos, eles dizem-me que a possibilidade de um ataque que envolva a Colômbia, ou especificamente o presidente Petro, é impossível. Mas a verdade é que isso pode acontecer.
Eu sei que a Venezuela não é a Colômbia, nem em termos do peso do petróleo na economia, nem da sua história política recente. Portanto, assumirei o triste papel de advogado do diabo ao mencionar as coisas em que somos comparáveis, sem repetir, é claro, a noção infantil do castrochavismo para equiparar dois processos diferentes.
Fazer uma análise que invoque o direito internacional é um pouco ingénuo, especialmente depois de Gaza. Ou fazê-lo partindo do princípio de que existe uma lógica identificável no governo do presidente Trump também é ingénuo, porque as suas decisões erráticas são a única constante.
Comecemos. No caso da sociedade venezuelana, houve um processo crescente de polarização (ver, por exemplo, as guarimbas) de tal forma que as posições políticas foram demonizadas e a sociedade radicalizou-se, sem mecanismos de diálogo.
A ruptura dos processos de diálogo interno permite “justificar” saídas extremas (o Egito, a Síria e a Líbia são bons exemplos). No caso colombiano, a configuração de um cenário de crise polarizado alimenta as vozes daqueles que pedem uma saída semelhante para a Colômbia.
A imprensa mundial hegemónica fabricou um Maduro que permitia e legitimava uma operação como a que ocorreu. Da mesma forma, já começou a construção de um presidente Petro, acusado, de forma direta e sem provas, de produzir cocaína e de ser narcotraficante; incluído na Lista Clinton e colocado como próximo alvo dos Estados Unidos.
A postura internacional de Petro sobre Gaza, o seu distanciamento da agenda de segurança de Washington, a sua luta contra as alterações climáticas e a sua insistência em tirar o debate sobre o narcotráfico do reducionismo policial tornam-no um ator incómodo num momento em que os Estados Unidos procuram reafirmar o controlo sobre o hemisfério.
A solidão e a fratura à espreita
A Venezuela está sozinha, da mesma forma que Gaza esteve: nenhum outro país vai arriscar a pele além de declarações políticas formais que invocam o direito internacional. Essa solidão é a mesma que a Colômbia teria em caso de um ataque e a mesma que o presidente Petro enfrentaria, porque o medo de enfrentar os Estados Unidos prevalece. É precisamente por isso que a atitude internacionalista de Petro em relação a Gaza é muito mais admirável num mundo onde ninguém quer ir além das redes sociais.
Há outra coisa a explorar e tem a ver com a unidade interna na Venezuela. Apesar de se ter insistido muito nas tensões que poderiam existir entre figuras como Padrino López, Diosdado Cabello e Delcy Rodríguez, hoje eles apresentam-se perante o seu país como um bloco unificado.
Colômbia
Trump chama Petro de narcotraficante por denunciar assassinato de pescador
Lá, não há fraturas nas Forças Armadas e a oposição não foi capaz de sair para festejar, nem mesmo nos bairros onde é maioria. Na Colômbia, infelizmente, não existe essa coesão no governo, o que coloca o presidente Petro numa situação mais frágil diante de uma operação militar contra ele.
Na política, a traição é uma constante desde a época de Júlio César e dos punhais de Brutus até aos dias de hoje. É impensável uma operação como a que os Estados Unidos realizaram sem termos em conta que havia elementos internos que facilitavam toda a informação e, no caso de Petro, ele próprio afirmou ter sido traído em várias ocasiões.
O manual de Chávez, «Golpe de Timón» (publicado poucos meses antes de sua morte), é, entre outras coisas, uma lista das coisas que o chavismo ignorou. E então é preciso perguntar em que aspetos o petrismo ignora Petro. E essa pergunta não é retórica.
Narcotizar o debate
Sem dúvida, há ligações entre diferentes dinâmicas da região que envolvem a situação na Venezuela, a presença do ELN em ambos os lados da fronteira, o narcotráfico e a postura política de Trump. Negar essas ligações é grave, mas transformar tudo isso num pacote sem nuances é ainda mais grave.
As leituras simplistas sobre o narcotráfico (como a do suposto “cartel dos Sóis” como única variável) ignoram o que foi manifestado por vários presidentes, incluindo Petro, num comunicado recente: estamos perante uma agressão.
Mas, além disso, essa lógica é funcional aos Estados Unidos para apresentar tudo no âmbito da guerra contra as drogas, sem considerar a geopolítica. Assim se justificou o assassinato de pescadores no mar do Caribe.
Antipetrismo e sionismo
A presença de Israel na Colômbia não só nos leva a pensar na presença de oficiais militares israelitas na formação de grupos paramilitares, mas também no seu real interesse em contribuir para “recuperar” a Colômbia para a direita, outrora chamada de Israel da América Latina. E nesse cenário, Petro é muito mais do que um empecilho.
A Mossad, os serviços secretos israelitas, não são um aparelho menor. Foram capazes de sequestrar o líder dos curdos e entregá-lo à Turquia, de organizar um plano de quinze anos para fazer explodir os sistemas de pagers que os homens do Hezbollah tinham e de levar a cabo uma série de assassinatos na Europa contra palestinianos, como mostra o filme de Steven Spielberg “Munich”.
Flotilha para Gaza
Gustavo Petro: “viaja ao vosso lado a voz de milhões que acreditam que paz não é utopia”
Isto não é uma hipótese abstrata, mas um lembrete da história. É preciso lembrar que operações incertas, extrações e guerras sem declaração formal não são exceções históricas, mas parte do manual da política internacional realmente existente.
Houve relatos precisos e concretos de tentativas de assassinato contra o presidente Petro, uma fabricação midiática de Petro como narcoterrorista e, como ele mesmo alertou, apelos para que a Mossad o capturasse. Os Estados Unidos retiraram muitos dos elementos de defesa com que contava o Palácio de Nariño.
Petro e os Estados Unidos
Em conversa com uma jornalista internacional, surgiu a pergunta se os Estados Unidos se envolveriam na Colômbia. A resposta foi contundente: eles já estão na Colômbia e nunca saíram. E isso gera outra reflexão: quais são os setores do governo de Petro que realmente permaneceriam leais ao presidente em caso de uma ação militar direta contra ele?
Se a experiência venezuelana ensina alguma coisa, é que não basta estar certo diante do adversário externo se descuidarmos os alertas internos. A coesão, a leitura precoce das traições e a capacidade de ouvir avisos incómodos não são luxos políticos: são condições de sobrevivência.
Deportações massivas nos EUA
Braço de ferro entre Petro e Trump sobre a dignidade dos migrantes repatriados
A ingerência dos Estados Unidos não é apenas militar. Já demonstrou a sua intromissão em Honduras, assim como em outros processos eleitorais. Seria tolice pensar que Donald Trump ameaça Petro, mas que vai ficar quieto diante do processo eleitoral de 2026 na Colômbia.
E aí está o grande desafio, porque, assim como na Venezuela, na Colômbia há uma série de aristocratas que não hesitam em apoiar qualquer coisa para impedir a continuidade de um governo progressista, e há até mesmo quem peça abertamente aos Estados Unidos uma ação militar contra Petro. Avisar não é desejar que isso aconteça; é recusar-se a ficar calado quando já se viu como essas histórias terminam.
PS: Os Estados Unidos precisam do território da Colômbia para usá-lo como plataforma contra a Venezuela, da mesma forma que usaram o território do Paquistão para atacar o Afeganistão.
Víctor de Currea Lugo é Assessor presidencial para o Médio Oriente do governo colombiano. Artigo publicado pelo Centro Latinoamericano de Análise Estratégica.