O presidente colombiano Gustavo Petro denunciou este sábado na rede social X que um ataque militar dos EUA, no passado dia 16 de setembro, atingiu um barco do seu país nas suas águas territoriais.
A lancha afundada estava à deriva, tinha o motor levantado como sinal de avaria, e do ataque resultou o assassinato do pescador Alejandro Carranza, um trabalhador sem quaisquer ligações ao narcotráfico, o pretexto que tem vindo a ser utilizado para os ataques militares estadunidenses no mar das Caraíbas. “Funcionários do governo dos Estados Unidos cometeram um assassinato e violaram a nossa soberania em águas territoriais. O pescador Alejandro Carranza não tinha vínculos com o narcotráfico e sua atividade diária era pescar”, escreveu, exigindo explicações sobre o sucedido.
A denúncia valeu-lhe uma forte diatribe de Trump nas suas redes sociais em que o acusou de ser “um líder do narcotráfico ilegal que fomenta com força a produção massiva de drogas em campos grandes e pequenos por toda a Colômbia”. De seguida, ameaçou “encerrar” ele estes campos “e não será de maneira amável”.
Petro contrapôs que “tratar de impulsionar a paz na Colômbia não é ser narcotraficante”. Escreveu ainda que “a Colômbia nunca foi rude com os EUA; pelo contrário, amou muito a sua cultura. Mas você é rude e ignorante com a Colômbia”, escreveu dirigindo-se aos presidente dos EUA. E acrescentou “eu não faço negócios, como você, eu sou socialista, acredito na ajuda e no bem comum, e nos bens comuns da humanidade, o maior de todos: a vida, ameaçada pelo seu petróleo. Não sou um negociante, muito menos traficante de droga. Não há ganância no meu coração.”
O presidente colombiano tem vindo a denunciar que as intervenções sucessivas dos militares dos EUA contra embarcações nas Caraíbas, que resultaram já em pelo menos 27 mortes, não são “uma guerra contra o contrabando mas uma guerra pelo petróleo”.
Agora, Trump anunciou que ia suspender “subsídios e pagamentos”. Mas não é claro a que se refere, pois a esmagadora maioria dos apoios tinha já parado com a destruição da USAID, a antiga agência humanitária norte-americana encerrada por Trump. Para além disso, declarou que ia avançar com mais tarifas para as exportações colombianas.
O que diz Petro sobre a cocaína na Colômbia
Numa mensagem fixada na sua conta do X, Petro regozija-se de ter reduzido a taxa de crescimento das plantações de folha de coca “a quase zero” quando “os governos anteriores registaram um crescimento anual de quase 100%. Hoje, metade da área total de cultivo de folha de coca está abandonada há três anos”, assegura.
Noutra mensagem mais recente, o presidente colombiano explica que, por ser o maior produtor mundial de cocaína, “o país tem vivido furacões de violência e dinheiro fácil, e a economia ilícita conseguiu minar todas as suas instituições e até a própria cultura da sociedade colombiana”.
Este dinheiro colocou no poder “verdadeiros genocidas”. Entre as vítimas, estiveram militantes da “pequena esquerda colombiana” no que qualifica como uma “experiência da CIA que deixou muitas crianças órfãs, uma vez que os seus pais, sindicalistas e trabalhadores comuns, foram mortos a tiro nas ruas aos milhares, simplesmente porque uma amálgama de cocaína, dinheiro fácil, fascismo e massacres genocidas foi coordenada até com o Estado”.
Esta “máfia” dominou até as universidades, para além de ter construído “um aparelho paramilitar para controlar a sociedade numa perspetiva fascista”.
Assim, continua a sua exposição, “a Colômbia é um país democrático na aparência, com uma das constituições mais avançadas do mundo, mas esta continua a ser letra morta, face à realidade do próprio poder, o poder que mata para extrair a última gota de mão-de-obra colombiana”.
As afirmações de Trump tornam-se ocasião para apresentar “outra perspetiva sobre a agenda global das políticas antidrogas”. Para ele, “a cocaína é apenas uma desculpa para manter o orçamento de uma burocracia federal inchada e permite-lhe o controlo militar dos exércitos e de outras agências latino-americanas”. Trata-se de “uma política de controlo sobre a América Latina e os seus recursos”.
A conclusão é que “a política anti-droga dos EUA, denominada guerra contra as drogas, é uma estratégia falhada” que “deixou um milhão de mortos na América Latina”. É um “duplo fracasso” porque “a "guerra contra a droga" falha porque “nunca deveria ter sido domínio da polícia e dos militares, mas sim da saúde pública”. Ao mesmo tempo, a aposta no petróleo falha “porque, se continuarmos no seu caminho ganancioso, a vida acabará”.