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De facto Santarém não é Touradas

No passado dia 17 de março, um grupo de ativistas de vários quadrantes e sensibilidades, nos quais eu me incluo, conseguiu encontrar um mínimo comum para dizer um basta, na cultura Tauromáquica Ribatejana. Por Luís Martinho
Foto Galiza Foto/Flickr
Foto Galiza Foto/Flickr

Foi feito um financiamento da mesma com dinheiros públicos, o qual não deixou ninguém indiferente e, todas as corridas deste ano, até agora marcadas , terão apoio camarário.

Tal facto evidencia a falta de viabilidade económica do "espétaculo" em si, bem como o desespero de uma gestão camarária, que se apoia nas "causas" que considera terem mais retorno eleitoral.

A praça não esgotou, o que foi um rude golpe nas aspirações da Sra Vereadora da Cultura da Câmara de Santarém, demostrando que nenhum Distrito/Concelho é imune ao crescente descontentamento, e simples desinteresse, da população por estas práticas. Aliás, a mesma não esgota desde 2009 e, nesse ano, tal só ocorreu com bilhetes "oferecidos". Ainda hoje, esses bilhetes permanecem em dívida, numa gestão camarária de má memória para todos os escalabitanos.

A Tauromaquia tem uma forte componente oligárquica, onde um diminuto número de famílias controlam a sua economia e garantem a sua reprodução social, como forma de manter os seus privilégios, desde logo, com o reduzido Iva.

A questão das touradas foi sempre política e esteve sempre relacionada com a escala de valores da nossa sociedade, e em particular no século XIX, com as lutas entre liberais e absolutistas. A implantação da República e a transição para a Democracia foram um duro golpe para as touradas que quase desapareceram em Portugal, transitoriamente, voltando a realizar-se por lobby económico.

Teve ainda sempre uma forte matriz de classe, onde inicialmente servia para a Nobreza treinar para a guerra de cavalaria. Com o surgimento da pólvora, essa importância desapareceu, passando as mesmas a terem carácter lúdico, sempre sangrentas e com vítimas humanas mortais, além das animais.

O Papa Pio V chegou a proibir a sua realização em 1567, acabando desde logo com a realização de touradas em Itália. Em Portugal e Espanha a decisão do Papa foi desrespeitada, a Bula Papal ignorada e o seu conteúdo escondido ou adulterado. Apesar de ter sido publicada em Portugal, e as touradas proibidas pelo Cardeal D. Henrique, hoje em dia vemos toureiros a rezar, e o Papa a receber, com frequência, toureiros a quem dá as boas graças…

A maioria dos países abandonou ou aboliu este tipo de espetáculos sangrentos por volta do século XVI, por se tratarem de eventos cruéis e impróprios de nações civilizadas. Atualmente, as touradas são proibidas em diversas nações europeias, como a Dinamarca, Alemanha, Itália ou Inglaterra, não colhendo o argumento de "tradição" e "cultura", apesar de, nesses Países, a prática ter existido, tal como na Península Ibérica, há cerca de 300 anos.

Em Portugal foram proibidas várias vezes, em 1809, pelo Príncipe Regente D. João. A proibição das touradas foi cumprida com determinação pelo Intendente Geral da Polícia, Lucas Seabra da Silva, que se referiu a elas nestes termos: “Os combates de touros sempre foram considerados como um divertimento impróprio de humana Nação civilizada”. Ou seja, estamos dois séculos atrasados neste campo.

As corridas de touros mantiveram-se em Espanha, sendo daí "exportadas" para Portugal, onde foram alvo de várias restrições e abolidas por decreto em 1836. Por constituírem uma importante fonte de receita para a Casa Pia de Lisboa e para as Misericórdias, e por forte pressão destas duas entidades, as touradas foram novamente autorizadas, mas apenas para fins de "solidariedade". No entanto, a determinação não foi respeitada e, rapidamente, se transformaram num evento comercial lucrativo, para um pequeno grupo de empresários tauromáquicos, acompanhando e imitando a evolução que acontecia no país vizinho. Essa influência é evidenciada nos trajes, nas lides, no vocabulário e, até, na música que se ouve nas praças.

Em Portugal nunca foi um espetáculo unânime: a contestação foi intensa, durante o século XIX, e personificada em homens como Passos Manuel, Borges Carneiro, José Feliciano Castilho, António F. Castilho ou Silva Túlio, caindo, por terra, o argumento de "grande consenso cultural".

A prática tauromáquica esteve sempre relacionada com setores mais conservadores da sociedade portuguesa e espanhola. Foi durante os regimes absolutistas que as touradas foram propagandeadas na Península Ibérica, com destaque para os reinados de Fernando VII (Espanha) e D. Miguel que, em Portugal, anulou a Constituição e lançou as sementes para o florescimento do negócio das touradas, com o início da criação de touros nas lezírias do Tejo e a construção da nova Praça de touros do Campo Santana em Lisboa. Em Espanha, Fernando VII, encerrou diversas Universidades e, em 1830, fundou a “Universidade Tauromáquica”, em Sevilha. As touradas sempre foram o divertimento da classe dominante, tal como na origem, e sempre de braço dado com as ditaduras fascistas e regimes absolutistas.

Vejamos como tal se materializa: em 1919, as touradas foram outra vez proibidas em Portugal, com a entrada em vigor do Decreto nº 5650 de 10 de Maio que punia "toda a violência exercida sobre animais com pena correcional de 5 a 40 dias em caso de reincidência", mas a partir de 1923, as touradas voltavam a ser propagandeadas. Durante o Estado Novo, assumiram-se como parte integrante do regime, inclusive com touros de morte e, em filmes, como “Gado Bravo” (1934), “Severa” (1939), “Sol e Touros” (1949), “Ribatejo” (1949), Sangue Toureiro (1958). Foi também durante a ditadura que se ergueram grande parte das praças de touros hoje existentes em Portugal: Beja (1947), Póvoa do Varzim (1949), Moita (1950), Almeirim (1954), Montijo (1957), Cascais (1963 – demolida em 2007), Santarém (1964), Coruche (1966), ou seja, a cultura tauromáquica nunca foi neutra como muitos pretendem referir. Como exemplo, o dia 24 de Outubro de 1949 , em que, "simbolicamente", se realizou uma corrida em honra ao "generalíssimo" Franco, assistida por Salazar que assim homenageou o caudilho com este tipo de espetáculo.

Nos dias de hoje Morante de la Puebla, matador Espanhol, fez um vídeo de campanha para o partido neo-fascista Vox, em Espanha, utilizando inclusive os seus animais , carrinhas e espetáculos em que participa para promoção dessa força política.

Outro mito recorrente é o de que os Forcados são "diferentes". A “pega” dos forcados, por exemplo, surgiu já no século XX, como a solução de recurso para substituir a “sorte de morte” no final da lide, a qual simboliza o domínio do homem sobre o animal, uma encenação especista "in loco", fazendo a propaganda da hierarquia e dominação do outro, a jovens desde tenra idade, sendo uma escola ideológica dos valores da violência, autoridade e subjugação do outro, além de causar danos musculares no touro que, não raras vezes, fica com hérnias e problemas musculares. A “pega” foi importada da “suerte de mancornar” que, antigamente, se realizava em terras espanholas, ou seja nunca foi integralmente "Portuguesa" apesar de apontada pelas forças conservadoras e nacionalistas como identitária. Ironicamente é, até, um resquício do domínio Espanhol sobre Portugal...

O futuro ditará por certo o fim da Tauromaquia, que não é neutra ideologicamente nem aclassista. Representa, sim, a dominação do outro, o culto da violência, e terá sempre quem a combata, pois não passa de uma forma de exploração mista de classe e espécie, para todos os que não se revêm em qualquer forma de opressão no mundo.

Artigo de Luís Martinho, Jurista, Mestre em ciências jurídico financeiras

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