O Departamento de Justiça dos EUA divulgou na sexta-feira mais um lote dos “ficheiros Epstein”. Ao todo são mais de três milhões de páginas de documentos, mais de dois mil vídeos e 180 mil imagens que dão mais detalhes sobre as comunicações entre Jeffrey Epstein e muitos homens poderosos, ricos e famosos.
No plano interno dos EUA, surgem milhares de referências a Donald Trump por entre uma lista de denúncias ao FBI, comunicações e fotos comprometedoras do ex-príncipe Andrew de Inglaterra, mas também mensagens trocadas com a sua ex-mulher Sarah Ferguson que desmentem o suposto afastamento após ser conhecida a primeira condenação de Epstein em 2008.
Também Elon Musk, que já jurou nunca ter posto os pés na “ilha de Epstein”, surge a perguntar ao magnata “qual é o dia da festa mais animada na tua ilha” para pôr no calendário. Tal como o atual Secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick, que em outubro disse que jurou nunca mais estar perto de Epstein logo em 2005, quando eram vizinhos no mesmo prédio em Manhattan, aparece nos emails a combinar a estadia da família na ilha do milionário em 2012. O ex-conselheiro de Trump, Steve Bannon, também revela grande proximidade nas mensagens trocadas com Epstein, chegando a perguntar-lhe se deve aceitar o convite para ser conselheiro na equipa de Jair Bolsonaro quando este venceu a primeira volta das presidenciais em outubro de 2018.
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Mas os efeitos dos “ficheiros Epstein” atravessaram o Atlântico e já provocaram uma demissão na Eslováquia: a do assessor de segurança nacional e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Miroslav Lajcak, que já presidiu à Assembleia Geral da ONU e aparece em várias comunicações e fotos com Epstein, que o convidava para jantar e para reuniões, além de trocarem mensagens onde o tema ia das raparigas na piscina de Epstein ao ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergei Lavrov. Lajcak é considerado o braço direito do primeiro-ministro Robert Fico e um entusiasta da aproximação a Moscovo.
A monarquia norueguesa também sai abalada com as novas revelações, com o nome da princesa herdeira Mette-Marit a aparecer mais de mil vezes nos novos ficheiros em emails em que chama Epstein de “muito charmoso”,”bondoso” e “tão querido” entre 2011 e 2014, além de ter ficado na sua casa em Palm Beach em 2013 durante quatro dias em que o dono não estava.
Ainda na Noruega, o ex-primeiro-ministro Thorbjørn Jagland, então secretário-geral do Conselho da Europa, surge nos ficheiros a discutir com Epstein em 2018 contactos com Sergei Lavrov e Vladimir Putin. Jagland afirma que esses contactos se inseriam no âmbito da sua atividade diplomática e que nada tem a ver com o que Epstein fazia na sua vida privada.
Vladimir Putin aparece mencionado mais de mil vezes, por entre histórias de Epstein sobre supostos encontros, queixas ao FBI de que o milionário geria o dinheiro do presidente russo, preparação de encontros com o embaixador russo na ONU ou um pedido de ajuda de Epstein a um antigo agente da FSB no círculo de Putin sobre uma mulher russa que chantageava empresários da elite novaiorquina. Este pedido deu força à teoria de que Epstein servia os interesses da Rússia ao introduzir mulheres no seu círculo de relações que depois viriam a chantagear com material comprometedor.
No Reino Unido, além da já conhecida relação próxima com o ex-príncipe Andrew em episódios de abuso sexual, os ficheiros mostram que o ex-ministro e antigo comissário europeu Peter Mandelson - que foi afastado do cargo de embaixador nos EUA após a primeira divulgação das relações com Epstein - passou informações confidenciais do Governo a Epstein,. O então primeiro-ministro Gordon Brown revelou agora que em setembro pediu um inquérito à eventual passagem de informação sobre a venda de ativos resultantes dos bancos resgatados durante a crise financeira e que a resposta foi que nada tinha sido encontrado sobre o assunto. Gordon Brown pede agora um inquérito mais alargado
Em França, as atenções viram-se para a produtora de cinema Caroline Lang, filha mais velha do antigo ministro socialista Jack Lang, por ter aberto em 2016 uma sociedade offshore a meias com Epstein nas Ilhas Virgens americanas. A empresa dedicava-se ao investimento em obras de arte e Caroline diz ter sido apresentada a Epstein por Woody Allen e a sua companheira Soon-Yi Previn, filha adotiva da ex-companheira do realizador, Mia Farrow. Mais tarde, Na versão de Caroline, Epstein disse-lhe a ela e ao pai que pretendia ajudar artistas emergentes do mundo das artes francês, selecionados por Caroline, investindo nas suas obras. Já sobre a razão de nunca ter declarado a empresa ao fisco francês, a produtora alega ingenuidade, já que “todos os fundos pertenciam a Jeffrey”. E também disse ao Mediapart que não sabia que o milionário a incluiu no testamento financeiro que assinou dois dias antes de se suicidar, destinando-lhe cinco milhões de euros..
Jeffrey Epstein foi condenado em 2008 por prostituição de menores, cumprindo 13 meses de prisão em regime aberto após ter feito um acordo com a procuradoria da Florida. Apesar de ter evitado uma acusação federal, ficou com o nome no registo de agressores sexuais. Dez anos mais tarde foi acusado de tráfico sexual e por recrutar algumas da suas vítimas menores de idade e suicidou-se na prisão antes do julgamento.
Desde então tem sido presença constante no debate político dos EUA, graças às relações que manteve com figuras como Bill Clinton e Donald Trump, magnatas de Wall Street e da indústria do entretenimento, mas também com figuras ligadas ao Estado de Israel, a começar pelo ex-primeiro-ministro Ehud Barak. O poder e o dinheiro angariado na sua carreira na indústria financeira aproximou-o também de cientistas e académicos cujos projetos era convidado a financiar. E parte desta rede de contactos beneficiava também dos seus convites para visitas à sua ilha privada de Little Saint James, onde o milionário é acusado de ter montado uma base de tráfico e abuso sexual de raparigas menores que trazia de vários países.
Os documentos agora publicados parecem contrariar a decisão dos procuradores estadunidenses de não acusarem mais ninguém para além de Epstein e da sua companheira Ghislaine Maxwell. Ali constam alegações nos processos de vítimas que afirmam que Epstein as “emprestou” a outros homens para práticas sexuais, como o produtor de cinema Harvey Weinstein ou o bilionário Leon Black, que liderou o fundo Apollo e contratou Epstein para serviços de planeamento fiscal.