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Corpos Presos, Corpos Livres

Todas as pessoas na Palestina são, de uma forma ou de outra, prisioneiras. Todavia, o dia 17 de Abril é dedicado especificamente às pessoas encarceradas nas prisões militares israelitas por razões políticas. Por Shahd Wadi.
Foto de ABIR SULTAN, Epa/Lusa.

No total são 4450, entre as quais 140 crianças e 440 pessoas em detenção administrativa, detidas por tempo indeterminável sem acusações ou direito a julgamento.

As frequentes greves de fome realizadas em protesto contra a falta dos direitos básicos são um sinal das péssimas condições nestas prisões. As pessoas presas são submetidas continuamente à tortura e isolamento. São constantemente privadas do seu direito à educação, visitas familiares ou cuidados médicos. Esta negligência, que sempre existiu nas prisões israelitas superlotadas, agravou-se durante a pandemia de COVID-19. Os contágios ocorreram, inclusive, durante os interrogatórios, mas poucas medidas foram tomadas para limitar a progressão do vírus nas prisões.

As mulheres palestinianas nas prisões (37 neste momento) sofrem condições sanitárias ainda mais difíceis, já que não lhes são prestados nenhuns cuidados de saúde da mulher, e são-lhes frequentemente negados até os produtos menstruais. As prisioneiras sofrem de violência baseada no género, incluindo assédio sexual e ameaças de violação.

Ainda está presente a história, que ficou conhecida até em Portugal, da menina Ahed Tamimi, que tinha sido aprisionada por ter esbofeteado um soldado que estava a disparar contra os habitantes da sua vila a partir da sua casa, o que mereceu, na altura, um desejo do ministro da educação israelita de Ahed “terminar a sua vida na prisão”. Com 16 anos então, foi detida na sua casa a meio da noite, foi interrogada por dois homens, que, para além de a ameaçarem, a ela e aos seus familiares, assediaram-na, comentando o seu corpo de pele branca e olhos azuis. Ahed estava sozinha sem pais, sem advogados, nem sequer na presença de uma mulher soldada.

As prisioneiras políticas são constantemente ameaçadas com o que a sociedade palestiniana considera “honra”, a fim de obterem delas confissões ou, simplesmente, na tentativa de limitar a sua resistência. São frequentemente torturadas na presença dos pais ou de outros prisioneiros homens. Estes homens também são ameaçados com a perda da “honra” dos corpos das mulheres da sua família. A ocupação procura dominar a população palestiniana, colonizando os corpos das mulheres.

Uma das poucas autobiografias de prisioneiras palestinianas é Ahlam bel Hurria (Sonhos da Liberdade), de Aysheh Odeh, que passou muitos anos da sua vida atrás das grades da ocupação. Nela, menciona que, durante os interrogatórios, muitas perguntas estavam relacionadas com a sua sexualidade e não com a sua actividade política: “Com quantos homens já dormiste? Queres que acreditemos que ainda és virgem?” Menciona que foi torturada durante uma noite inteira só para dizer dez vezes: “Sou uma puta”.

Nesta autobiografia, Odeh transgride as restrições culturais escrevendo sobre a sua violação: “Azrael tentou perfurar o meu útero com um pau”. A autobiografia de Odeh mostra que as primeiras mulheres prisioneiras começaram a falar abertamente sobre as torturas e as violações nas prisões da ocupação, fazendo das suas narrativas linguagens de resistência ao poder usado sobre elas e sobre os seus corpos, tanto pelo ocupante como pela sua sociedade.

Como ela, Rihab Isawi também abriu este caminho de resistência para as próximas gerações, transformando o seu corpo num instrumento da sua própria liberdade, tal como narrou: “Disseram-me que iria ser violada […] se não confessasse; quando o interrogador me ameaçou […] olhou para mim com indiferença e com um riso sarcástico na cara. Comecei simplesmente a despir-me”.

Sobre o/a autor(a)

Investigadora em Assuntos Palestinianos e Feministas
Termos relacionados Esquerda com Memória, Política
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