Shahd Wadi

Shahd Wadi

Palestiniana. Doutorada em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra, a sua dissertação serviu de base o livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010)

Não me parece que os partidos de direita que votaram favoravelmente esta lei estejam realmente interessados em promover igualdade de género ou direitos das mulheres de forma universal. Em vez disso, instrumentalizam as mulheres muçulmanas, retratando-as como “oprimidas”, para legitimar políticas racistas, anti-imigrantes e nacionalistas.

Palestina vida. Fechei os olhos, desliguei a televisão, imaginando o povo palestiniano a viver como se fosse música. Reabri-os, observando um genocídio.

O livro Gaza Perante a História de Enzo Traverso olha para o 7 de outubro, como um momento que recordou ao mundo que este povo não desapareceu. É particularmente vigoroso o capítulo “Violência, Terrorismo, Resistência”, onde o autor afirma que nada pode justificar o que aconteceu nesse dia, mas que “deve ser analisado, e não apenas condenado.”

Os meus pés andam eternamente alma em regresso. O meu sangue tem início, só que não está ainda no meu corpo. Há 77 anos que os pés do povo palestiniano se desgastam de tantas caminhadas para um exílio.

“Ele estava de cara tapada, deve ser um imigrante daqueles ilegais, vá a polícia denunciá-lo!” Ouço esta frase e fico em silêncio, imaginando-me encostada à parede... Na minha imaginação, não era apenas a PSP a encostar-nos, mas uma sociedade inteira.

Enquanto um militar israelita grita nas ruas de Portugal “Israel will fuck you all”, o que este país vai fazer? Esperemos que mude a sua posição, pois até agora tem estado, de facto, a pôr-se a jeito.

Nunca antes tinha tido uma pedra contrabandeada. Vejo-a fazer o caminho desde a Palestina ocupada até Lisboa, passando pelo muro, checkpoints e interrogatórios. Imagino-a a tornar-se invisível perante os olhos dos soldados israelitas que revistaram minuciosamente a mala do João.

Os cabelos das palestinianas, crescerão, crescerão, crescerão, ficarão infinitos. Infiltrarão cada colonato e enrolar-se-ão à volta de cada metralhadora como se fossem serpentes. Os canhões entupir-se-ão com cabelos juntos impossíveis de desembaraçar.

E o que as mulheres têm a ver com esta palavra? A Paz habitou apenas nas mãos de homens durante um aperto que dividiu a Palestina em ilhas … mas continuam a chamá-la Palestina, ilha prisão, ilha checkpoint, ilha muro, ilha colonato, ilha apartheid, ilha sem respiração, ilha inferno: Gaza.

Antes do bloqueio, Gaza enviava ao mundo mais de quarenta milhões de cravos por ano. Em Gaza foram plantados escombros sem seres vivos – os cravos não salvam vidas, nem as deles próprios.