Museu dos sapatos

porShahd Wadi

19 de fevereiro 2026 - 14:32
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Atravessar um mundo em ruínas só se torna possível de sapatos no pé e um poema na mão.

Durante o espetáculo, sapatos e poesia fazem uma travessia dentro da sala e para lá dela.Na conversa que se segue, o monte de calçado permanece um muro ao fundo, agora deslocado para mais perto do público. Os calçados erguidos no palco desenterram as minhas memórias das feiras de infância. As bancadas de sapatos em segunda mão enchiam a praça inteira de Abdali com anúncios que atestavam a sua qualidade: sapatos europeus. Eu escondia-me atrás da minha mãe com o pavor de encontrar uma colega da escola no mercado. Vergonha? ela estará a comprar também em segunda mão, dizia a minha mãe, começando a regatear com a pergunta do costume ao vendedor: és de onde? Nunca reparei na poesia do encontro: a dor partilhada de uma vila apagada na Palestina. Um provérbio. A cidade da minha mãe que afinal também é a do vendedor. Leva dois com o preço de um. O som da reza de sexta-feira. Os primeiros piropos que recebo. Não tenho troco. As saudades do mar. Hoje a metade do preço. O mergulho das nossas mãos no monte de sapatos para encontrar o outro par.

Os relâmpagos do passado apagam-se por uma voz na audiência: um poema pode ser um sapato. Os jovens atores de Estreito (notas de um tempo sombrio), com texto e direção de Joana Craveiro, finalistas da licenciatura em Teatro da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, confirmam: ler poesia é pôr-se no sapato do poeta. Atravessar um mundo em ruínas só se torna possível de sapatos no pé e um poema na mão.

Devolvo o meu olhar ao palco, ao mundo em ruínas, deixando-me invadir por uma vontade de formar filas de sapatos em protesto, exatamente como os milhares de pares de calçado que se tinham espalhado por muitas cidades no mundo em solidariedade com as vítimas palestinianas do genocídio. Não são números, dizem os sapatos vazios sem corpos. Em Gaza os sapatos desapareceram, como muito do que ali estava. As casas desabaram. Os caminhos de exilio prolongaram-se. Os sapatos que não foram enterrados sofreram um desgaste sem precedentes. Nenhum pé no mundo aguentaria o cansaço de um sapato palestiniano. Rawan como não podia remendar mais os sapatos da filha, comprou-lhe uns novos a um preço tão alto que durante uma semana a família não pode comer. Abu-Hashem usa há meses os mesmos sapatos, mas apenas em dias alternados, dividindo o seu único par com o cunhado. Ahmad mandou os dele consertar 30 vezes, pagando cada vez 10 vezes mais do que antes da guerra. Imagino um museu de sapatos palestinianos, sapatos desgastados, corpos sem sapatos e sapatos sem corpos.Nenhum poema.

No meu museu haverá também um par de sapatos amarelos de saltos altos quase novo. São de Micheline Awad, a palestiniana que foi fotografada por Alfred Yaghobzadeh na primeira Intifada. Descalça, carregava numa mão os seus sapatos, que combinavam com um cachecol igualmente amarelo, lançando uma pedra simbólica contra o ocupante com a outra. Tanto calçar estes sapatos para saborear a vida, mesmo estando sob ocupação,como descalçá-los para resistir é um poema de libertação, dela e de muitas mulheres palestinianas. A fotografia inspirou o cartaz do Festival de Dança Contemporânea deRamallah, num dos anos. Micheline, os seus sapatos, a pedra e o cartaz, um verso.

Houve um poema que o poeta palestiniano Mahmoud Darwish nunca escreveu sobre a história dele com um engraxador de sapatos. Passava por ele todos os dias. O engraxador implorava que lhe deixasse cuidar dos sapatos, mas a recusa do poeta foi firme: “não gosto de entregar os meus sapatos a ninguém para além de mim”. Até que um dia o engraxador realizou uma “operação de sedução e estupro do pobre sapato”. Disse que ia engraxá-lo sem nada cobrar. O poeta colocou o pé direito sobre a caixa. O homem começou a limpar com dedicação: “Escovou-o, lustrou-o, contemplou-o e cortejou-o, como um artista apaixonado pela própria obra.” Ao colocar o outro pé na caixa, Darwish percebeu que tinha sido vítima de uma armadilha de vingança, o engraxador anunciou: “desculpe, não vou engraxar o segundo sapato”. Nem as súplicas, nem a oferta de um bom montante o fizeram mudar de ideia. Assim o poeta seguiu pela rua, temendo que uma folha de amoreira caísse, chamando a atenção para a comédia dos sapatos agora diferentes.

Ultimamente, uma entrevista, por Bruno Amaral de Carvalho na Voz de Operário,recordou-nos da história de outros sapatos árabes. São os do iraquiano Muntadhar al-Zaidi, que em 2008 atirou os sapatos contra o então presidente norte-americano George W. Bush numa conferência de imprensa em Bagdade em plena ocupação do Iraque pelos Estados Unidos, gritando: “este é um beijo de despedida do povo iraquiano, seu cão”. Olha para os sapatos no palco: quantos serão precisos hoje para atirar na cara de todos aqueles que tentam tornar o mundo na sua própria sola do sapato? Quantos serão necessários para que não exista um museu de sapatos palestinianos e para que nele não toque a canção da palestiniana Rola Azar, cujo poema jamais dirá:

اخلع نعلك يا موسى...

Tira tuas sandálias, ó Moisés,
sobe ao Monte Sinai.

Lança o jasmim e o lírio

sobre a planície da Palestina.

Até agora, as rosas resistem,

com elas, as azeitonas e os figos.

Tira tuas sandálias, ó Moisés,

e atira-as na cara do ocupante.

Artigo publicado em Gerador a 27 de janeiro de 2026

Shahd Wadi
Sobre o/a autor(a)

Shahd Wadi

Palestiniana. Doutorada em Estudos Feministas pela Universidade de Coimbra, a sua dissertação serviu de base o livro “Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio” (2017). Obteve o grau de mestre na mesma área pela mesma universidade com uma tese intitulada “Feminismos de corpos ocupados: as mulheres palestinianas entre duas resistências” (2010)
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