Lutas

Contra-encontro da ciência juntou críticos contra quem está “de costas voltadas” para os trabalhadores

09 de julho 2025 - 16:14

À porta do Encontro da Ciência, precários da investigação exigiram novo modelo para a ciência em Portugal. Joana Mortágua diz que este modelo "está longe de ser um modelo de investimento público que torne a ciência democrática".

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Investigadores em protesto
Fotografia de Esquerda.net.

Na manhã desta quarta-feira, uma linha separou o passeio de calçada do pavimento da Nova School of Business, em Carcavelos. A faculdade de economia com nome em inglês é casa do Encontro da Ciência, um encontro anual que junta investigadores, académicos e políticos para discutir o atual estado da ciência e o seu futuro em Portugal. Cá fora, juntam-se os manifestantes do protesto “Encontro Dec(i)ência”, que criticam a forma como se esconde a precariedade e os problemas de quem trabalha na investigação em Portugal. Ficam do lado do passeio de calçada, porque a segurança da faculdade da Universidade Nova de Lisboa – uma universidade pública mas com regime fundacional – não deixa os manifestantes fazer o protesto no seu pavimento.

“É de facto importante que a ciência seja encarada como um serviço público, mas o que nos preocupa fundamentalmente são os direitos destas pessoas”, diz José Moreira, presidente da direção do Sindicato Nacional do Ensino Superior. “Neste momento os investigadores que não estão na carreira, 90% estão com contratos precários e isto é simplesmente inadmissível”.

Esse paradigma “não é novo”, como explica o sindicalista, e tem vindo a aprofundar-se, “tornando-se cada vez mais grave”. Neste momento, já há pessoas a reformar-se que fizeram toda a sua atividade profissional de forma precária e isso “é extremamente grave”. Os docentes e os investigadores no ensino superior e os investigadores dos laboratórios associados às universidades e nos laboratórios independentes “são trabalhadores”, lembra José Moreira.

Entre os testemunhos partilhados na concentração, é isso que se comprova. Trabalhadores a tempo inteiro cuja condição não é reconhecida, que recebem bolsa em vez de ter contrato. É o caso de Ana Algarra, bolseira e membro da Associação dos Bolseiros de Investigação Científica, que relata que “o Ministério da Educação também demora muito em resolver” os problemas dos bolseiros, acusando situações em que há “um ano inteiro em que as pessoas não sabem se vão poder trabalhar ou não”.

A dirigente do Bloco de Esquerda, Joana Mortágua, esteve presente na concentração onde ouviu os testemunhos dos investigadores e docentes e falou aos manifestantes a convite das entidades organizadoras. A dirigente bloquista sublinhou a solidariedade do partido com a luta e apontou que quem está na Nova SBE “acha que vai construir a ciência em Portugal de costas voltadas para quem está cá fora” num paradigma que “está longe de ser um modelo de investimento público que torne a ciência democrática e que dá dignidade a que faz ciência”.

“Neste momento temos uma outra batalha para enfrentar e que teremos que enfrentar juntos. O Governo comprometeu-se em gastar 5% do PIB em defesa. É preciso ter noção de que em 2024 o orçamento todo da educação do ensino superior e da ciência, das creches do pré-escolar até ao sistema científico, todo esse orçamento era cerca de 4%”, explicou a dirigente bloquista, que criticou também a forma como a norma transitória dos investigadores se revelou “ser uma transição para o desemprego e para a emigração”.

Luís Monteiro, da Universidade Comum, explica que este contra-encontro se deve ao “grave problema” que o sistema científico em Portugal está a atravessar. “Achamos incrível como é que num encontro que junta ministros e convidados internacionais não junta um único precário, uma única organização representativa do setor”.

“Acho que há uma imagem que se tenta construir em torno das grandes instituições de ensino superior do país de que são super modernas, mas os subterrâneos da precariedade, os subterrâneos que trabalham nas instituições todos os dias, nunca estão nesses momentos”, disse. O investigador acha “difícil” haver uma luz ao fundo do túnel com uma situação de precariedade tão grande, mas “agora é importante resistir com imaginação”.