A notícia de que quatro membros da organização de extrema-direita Proud Boys acabaram de ser condenados por conspiração sediciosa, incluindo o seu antigo líder Enrique Tarrio, fez as delícias dos leitores. Mas, se só há alguns dias deu conta ao processo para ler sobre a sentença, há algo que quase de certeza não ouviu: que tanto Tarrio como outros oito Proud Boys eram secretamente informadores do FBI, ajudando as forças da ordem a atacar manifestantes do Black Lives Matter e outros ativistas de esquerda.
Isto porque, após uma pesquisa não exaustiva das reportagens que cobriram a sentença, descobri que apenas dois meios de comunicação social, a Associated Press (AP) e o Washington Post, mencionaram a presença de informadores do governo nas fileiras dos Proud Boys, apesar de este facto ter sido uma das revelações mais chocantes que surgiram durante o julgamento.
Isto não torna apenas ainda mais desconcertante a incapacidade do FBI para detetar e impedir o motim no Capitólio. As revelações do julgamento indicam que a fixação histórica e contínua do FBI nos protestos de esquerda pode tê-lo cegado para a ameaça da extrema-direita, e que o FBI tem até prazer em colaborar com grupos de extrema-direita como forma de neutralizar o que considera ser uma ameaça maior da esquerda.
A referência da AP foi superficial - contida numa única linha sobre como "revelações de informadores do governo no grupo" prolongaram o julgamento - deixando o Post como o único meio de comunicação que especificou que o próprio Tarrio era um informador de longa data para as forças da lei numa panóplia de grupos para além e antes dos Proud Boys. O seu próprio advogado chamou-lhe informador "prolífico" num processo judicial de 2014.
Isto inclui os principais meios de comunicação social como a CBS, a ABC, a NBC e o USA Today, bem como a Forbes, a Reuters, a Bloomberg e a Business Insider. Este facto também não foi mencionado nas reportagens do New York Times e do Wall Street Journal, nem no Politico, nem na BBC ou no Philadelphia Inquirer. Mesmo a Al Jazeera não informou o seu público sobre esta peça-chave de informação, tal como órgãos como a NPR e a CNN, sendo que esta última apenas mencionou, de forma vaga, "provas e informadores recentemente revelados" numa lista de fatores que levaram a "inúmeros atrasos" no julgamento. A única referência encontrada na reportagem da Rolling Stone foi uma frase sobre como "o julgamento não foi uma fartura de novas informações", para além de "uma testemunha que a defesa esperava chamar [ter] sido revelada no último momento como sendo um informador do FBI".
Mas esta é uma descrição enganadora do julgamento. Tal como o Washington Post - o único destes meios de comunicação social que parecia considerar as ligações dos Proud Boys às forças da lei suficientemente importantes para informar os leitores - noticiou há um mês, os informadores do governo não só eram frequentes no seio da organização de extrema-direita, como as "provas apresentadas em tribunal indicam que muitas das fontes do FBI dentro dos Proud Boys eram questionadas apenas sobre os seus opositores ideológicos de esquerda".
Os meios de comunicação social explicitamente progressistas ou liberais não foram melhores do que os principais. O estatuto de Tarrio e de outros Proud Boys como informadores do FBI não foi mencionado no artigo da Mother Jones sobre a sentença, nem nos artigos do Guardian, Vice, Huff Post e Salon. O Democracy Now! afirmou que um agente da polícia "tinha uma relação antes de 6 de Janeiro com Tarrio, porque ele estava a recolher informações dos grupos extremistas que se reuniam ali". Para além de ignorar as revelações, a MSNBC foi mais longe e transformou a sua reportagem numa espécie de defesa das entidades que colaboraram com os Proud Boys, chamando ao veredicto uma "vitória maciça para o governo" e avisando que a não condenação "teria encorajado o movimento das milícias do país e os incendiários do Congresso" que quisessem desafiar a aplicação da lei federal.
O que é particularmente bizarro nisto tudo é que muitos dos meios de comunicação social acima referidos - incluindo o New York Times, o Wall Street Journal, a Reuters, a Associated Press e a Vice - já tinham noticiado anteriormente a revelação, no julgamento, da extensão da infiltração do FBI nos Proud Boys, bem como o trabalho de Tarrio com as forças de segurança, em particular.
É possível que estes meios de comunicação não queiram mencionar a extensão do trabalho das forças da ordem com o grupo, para não serem vistos como estando a ajudar a defesa dos Proud Boys, que apontou o facto de o FBI não ter conseguido impedir o incidente, apesar de se ter infiltrado no grupo, como prova de que a invasão do Capitólio não tinha sido planeada. Poderão também ter receio de parecer que estão do lado das alegações da direita de que o dia 6 de Janeiro foi uma "fedsurreição" organizada pelas forças policiais federais, uma teoria da conspiração que circula na direita e que tem girado em torno de alegações duvidosas e não provadas de que um desordeiro chamado Ray Epps era um agente infiltrado - alegações que o próprio Epps negou veementemente.
Mas o facto de não se mencionar a infiltração do FBI nos Proud Boys é transversal às linhas ideológicas. Nem a Fox News nem o New York Post, de direita, incluíram as ligações dos Proud Boys ao FBI nas suas reportagens, apesar de ambos os meios de comunicação terem adotado uma posição cada vez mais antagónica em relação ao FBI desde as eleições de 2016.
Esta falha não é trivial. Como disse o Washington Post em março, a presença do FBI no seio dos Proud Boys "sublinha as falhas dos serviços secretos antes do dia 6 de Janeiro, uma vez que o FBI não estava preparado para o motim, apesar de ter penetrado nos grupos agora acusados pelo Departamento de Justiça de planear a violência". Essas falhas são tão abundantes e graves como permanecem misteriosas: uma das últimas medidas de Liz Cheney no cargo foi bloquear a investigação da comissão do 6 de Janeiro sobre as falhas da aplicação da lei relativamente ao evento, e várias revelações levantaram o espectro de simpatias trumpistas tanto nos Serviços Secretos como no FBI.
Intencionalmente ou não, o facto de os meios de comunicação social não terem mencionado a ligação do FBI aos Proud Boys garante que as forças da ordem não serão responsabilizadas pelas suas falhas gritantes nesse dia, o que, ironicamente, torna muito mais provável uma repetição do motim no Capitólio. Mais alarmante ainda, significa que as simpatias de longa data e bem documentadas para com a extrema-direita, que existem a um nível preocupante no seio das forças da ordem norte-americanas, não serão apagadas, mas sim mantidas sem serem examinadas e vedadas ao escrutínio público - pelo menos até à próxima vez que ameaçarem a democracia dos EUA.
Branko Marcetic faz parte da redação da Jacobin. Artigo publicado na Jacobin (link is external), traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.