Na semana passada, cinco pessoas foram detidas no âmbito do processo sobre a utilização dos serviços secretos brasileiros para espiar adversários políticos durante a presidência de Jair Bolsonaro.
A Polícia Federal emitiu um documento de 187 páginas onde detalha como a Abin, Agência Brasileira de Inteligência, foi então utilizada para monitorizar e assediar políticos, jornalistas, juízes entre outros.
No centro da acusação está o homem que Bolsonaro colocou a chefiar o serviço, Alexandre Ramagem, agora candidato à presidência da Câmara do Rio de Janeiro, acusado de encabeçar uma “organização criminosa de alta capacidade ofensiva”. No interior da instituição criou-se uma entidade, chamada mediaticamente a “Abin Paralela”, para ser colocada ao serviço privado das intenções políticas e interesses pessoais do núcleo duro bolsonarista. Os detidos nesta fase da investigação eram agentes que trabalhavam diretamente com o antigo diretor do órgão.
O trabalho de espionagem servia muitas vezes para alimentar a máquina de desinformação bolsonarista cujo topo se cruzava com o chamado “gabinete do ódio”, conjunto de assessores que a partir do Governo e com a coordenação de Carlos Bolsonaro, filho do presidente, que produzia conteúdo para atacar os alvos escolhidos e que tinha ao seus dispor um exército de perfis falsos e influencers reais para disseminar a mensagem.
Havia ainda outras finalidades mais comezinhas do que o ataque a adversários políticos ou a investigação de aliados extraviados. Os responsáveis do caso das “rachadinhas”, no qual outro dos filhos do presidente, Flávio Bolsonaro, estava a ser investigado por desvio dos salários dos seus funcionários quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, foram igualmente visados por esta estrutura informal. Assim como se indica a interferência desta no caso de outro dos filhos de Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro, também alvo de investigações judiciais por tráfico de influência.
A nova etapa deste caso segue-se aos avanços registados recentemente no caso da apropriação privado pelo ex-presidente brasileiro de joias e outros bens que tinham sido presenteadas por governos estrangeiros. E liga-se ainda a outro processo, o envolvimento de Bolsonaro na tentativa de impedir que o presidente eleito, Lula da Silva, tomasse posse. Do processo constam mensagem trocadas entre dois dos acusados em que se fala da “minuta do decreto de intervenção” para o “rompimento democrático”.
FirstMile, o software espião israelita usado pelo bolsonarismo
Uma peça importante nos mecanismos de espionagem terá sido o software de espionagem FirstMile. Este foi adquirido ainda durante a presidência de Michel Temer e foi usado entre 2019 e 2021. Estava hospedado nos computadores da Diretoria de Operações de Inteligência mas o processo revela que era utilizado por pessoas ligadas à Abin Paralela.
O FirstMile é um produto da empresa israelita Cognyte, antigamente Suntech/Grupo Verint.
Uma lista grande de alvos
O “trabalho” da Abin paralela visava figuras de diferentes campos. Juízes do Supremo Tribunal Federal como Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux e Dias Toffoli estavam entre os alvos. Assim como os presidentes da Câmara de Deputados Arthur Lira e o seu antecessor, Rodrigo Maia, deputados como Kim Kataguiri ou o ex-governador de São Paulo João Dória. E funcionários públicos do Ibama, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, como Hugo Ferreira Netto Loss e Roberto Cabral Borges.
Há ainda jornalistas, como Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, Vera Magalhães, do jornal O Globo, Luiza Alves Bandeira, do DFRLab (Digital Forensic Research Lab) que investigou páginas bolsonaristas, e Pedro Cesar Batista, do Comité Anti-imperialista General Abreu e Lima, por ter organizado um protesto contra Bolsonaro.
Da lista fazem ainda parte organizações não governamentais como o Instituto Sou da Paz e grupos como o Sleeping Giants que luta contra a desinformação.